O Paraguai tem sido um dos países do continente americano que, desde 1957, sustenta um apoio firme à República de Taiwan, relação que, ao longo de 69 anos de amizade, se traduziu em múltiplas iniciativas de cooperação - incluindo no domínio da defesa.
Numa entrevista exclusiva à Zona Militar, o embaixador de Taiwan no Paraguai, José Chih-Cheng Han, descreveu a forma como esta proximidade se consolidou, apesar da grande distância geográfica que separa Assunção de Taipé.
“Vivemos um momento muito favorável nas relações bilaterais, com inúmeros projectos de assistência ao desenvolvimento. O objectivo é aprofundar uma ligação estratégica, tanto no comércio e investimento como nas colaborações estratégicas. A nossa relação com o Paraguai começou em 1957. Na altura, em plena Guerra Fria, existia uma ideologia anticomunista partilhada e afastámo-nos do comunismo”, explicou o embaixador Chih-Cheng Han.
Atualmente, estima-se que a comunidade taiwanesa residente no Paraguai ronde as 4 000 pessoas, concentrando-se sobretudo em Ciudad del Este, na zona da tríplice fronteira com Foz do Iguaçu (Brasil) e Puerto Iguazú (Argentina). Segundo o diplomata, o país tem uma tradição de acolhimento a migrantes e oferece condições atractivas para quem procura novas oportunidades.
“O Paraguai sempre foi muito aberto à imigração; existem aqui comunidades oriundas de várias partes do mundo. É um país com muitas oportunidades”, observou o embaixador taiwanês.
Para além do eixo político, a relação Taiwan–Paraguai tem sido alimentada por iniciativas de capacitação e apoio técnico em diferentes áreas públicas. Este tipo de assistência, segundo o embaixador, procura criar bases duradouras e reduzir vulnerabilidades, mantendo a cooperação alinhada com prioridades concretas do Estado paraguaio.
Outro aspecto frequentemente referido por analistas é o efeito do reconhecimento diplomático do Paraguai sobre a projecção internacional de Taipé na América Latina. Para Taiwan, a continuidade deste vínculo tem impacto que vai além do bilateral, por se inserir numa disputa mais ampla por legitimidade e influência.
Cooperação Militar Taiwan–Paraguai
No ano passado, o governo taiwanês entregou quatro helicópteros UH-1H à Força Aérea Paraguaia (FAP), incluindo peças sobresselentes e formação para mecânicos de aviação paraguaios. Com esta entrega, passou para nove o total de aeronaves deste modelo fornecidas por Taiwan à FAP.
De acordo com Chih-Cheng Han, não existe, para já, um plano para novas doações de viaturas ou aeronaves, mas a cooperação deverá manter-se estreita no que toca à formação e à ligação institucional com a hierarquia militar paraguaia.
“Disponibilizamos cursos de comando de alto nível, cursos de guerra e cursos de estado-maior. Enviamos formandos do Paraguai para Taiwan e também recebemos participantes taiwaneses no Paraguai. Estes cursos vão continuar; realizamo-los uma vez por ano, com cerca de um mês de duração. Enviamos generais recomendados pelo Ministério da Defesa e temos igualmente programas de intercâmbio de cadetes”, afirmou Chih-Cheng Han.
Em outubro passado, durante uma visita a Taiwan, o presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai, Raúl Latorre, anunciou a possibilidade de doação de uma ambulância aérea para integrar a frota da Força Aérea Paraguaia (FAP). O embaixador mostrou-se pouco convicto quanto à necessidade imediata dessa medida, sublinhando que o Paraguai já dispõe de capacidade para cumprir essa missão com os meios existentes.
“Até onde sabemos, o Paraguai tem capacidade para operar ambulâncias aéreas. Existe um acordo entre o Ministério da Saúde e a Força Aérea, que está a utilizar o equipamento disponível para adaptar aeronaves ao papel de ambulância aérea. Neste momento, não há necessidade de uma ambulância aérea. Continuamos a estudar de que forma podemos ajudar.”
Também foi aventada a hipótese de a FAP adquirir caças com apoio taiwanês, cenário que o embaixador considerou improvável, tendo em conta a situação actual entre Taiwan e a China e as necessidades de defesa de Taipé.
“Existe interesse, mas temos de continuar a conversar, porque Taiwan é um país sob uma ameaça séria. Não temos capacidade para disponibilizar apoio aéreo com caças a uma nação amiga; continuamos a precisar desse equipamento. Além disso, um caça exige recursos muito significativos para manutenção e operação. O Paraguai já possui boas aeronaves; o Super Tucano é uma boa aeronave, muito conceituada a nível mundial”, referiu o diplomata.
Apoio inabalável e actores geopolíticos
O Paraguai tem mantido, de forma consistente, o seu apoio a Taiwan, chegando inclusive a limitar o acesso da China em diferentes momentos. Para Taipé, essa opção reforça a relação bilateral e acrescenta relevância política ao parceiro sul-americano.
“A amizade do Paraguai com Taiwan vem de longe. Houve uma fase em que Taiwan foi ignorada pelo mundo, mas o Paraguai manteve-se firme até hoje. Graças a esta aliança com Taiwan, atualmente não existe presença chinesa no Paraguai, o que evidencia o valor do país para os seus aliados. Esta persistência confere ao Paraguai um valor estratégico ainda maior nos planos global e regional”, sublinhou Chih-Cheng Han.
O embaixador apresentou ainda a sua leitura do contexto internacional, enquadrando o relacionamento no confronto de grande escala entre potências.
“A geopolítica funciona à escala global. A arquitectura geopolítica é um conflito entre os Estados Unidos e a China. Do lado dos Estados Unidos, existe um conjunto de países que partilham valores democráticos semelhantes; do lado da China estão países autoritários, incluindo a Rússia, o Irão, a Coreia do Norte e outros aliados”, analisou.
Na mesma linha, apontou o alinhamento paraguaio com Washington e o valor simbólico do apoio a Taiwan num momento que classificou como decisivo.
“O Paraguai identifica-se fortemente com os Estados Unidos e, dada a nossa amizade próxima com o Paraguai, estamos muito gratos por o Paraguai ter expressado o seu apoio a Taiwan neste momento crucial. A China deve ser impedida de o fazer. Se a China tomar Taiwan, romperá a primeira cadeia de ilhas do Pacífico Ocidental, o que alterará significativamente a geopolítica. Estamos na linha da frente.”
Sobre a postura de Taipé, o diplomata explicou que a dissuasão e o reforço defensivo são pilares essenciais, sublinhando também a importância do apoio internacional.
“A nossa estratégia é manter-nos sempre em alerta e procurar fortalecer as nossas forças armadas. Taiwan não pode derrotar a China sozinha; os nossos aliados terão, certamente, de nos ajudar, e estamos confiantes de que temos aliados muito fortes e sólidos: os Estados Unidos, o Japão, as Filipinas, a Coreia do Sul, a Austrália e a União Europeia. A intervenção de cada país tem o seu próprio grau, mas temos aliados muito fortes. Estamos a tentar fazer a China perceber que o custo de invadir Taiwan seria imenso, podendo até destruir a sua economia.”
- A Zona Militar agradece ao Embaixador José Chih-Cheng Han, representante de Taiwan no Paraguai, pela entrevista. Agradece também a Daniel Lee, assessor de imprensa da Embaixada de Taiwan em Assunção, pelo apoio prestado.
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