Se alguma vez teve obstipação (prisão de ventre), é provável que já tenha recorrido a laxantes. São fáceis de comprar sem receita e, muitas vezes, ajudam a regularizar o trânsito intestinal.
O uso é muito comum e, em algumas pessoas - sobretudo mais velhas - os laxantes acabam por se tornar uma muleta frequente para manter o intestino a funcionar.
Ainda assim, talvez tenha ouvido dizer que não é boa ideia tomá-los durante muito tempo. Embora as complicações graves associadas ao uso crónico de laxantes sejam pouco frequentes, podem ocorrer. Por isso, sempre que possível, a utilização prolongada deve ser orientada e acompanhada por um médico.
Tipos de laxantes (via oral)
De forma geral, existem cinco grandes categorias de laxantes (todos tomados por via oral):
- Laxantes formadores de massa (também chamados laxantes de fibra): absorvem água e formam fezes mais volumosas e macias, ajudando a estimular as contracções naturais do intestino. Marcas comuns incluem Metamucil e Benefiber.
- Laxantes osmóticos: atraem água para o cólon, facilitando a passagem das fezes. Marcas comuns incluem Osmolax, Actilax e Movicol.
- Amolecedores de fezes (por exemplo, docusato; marca Coloxyl): actuam de forma semelhante a um detergente, permitindo a mistura de gordura e água com fezes endurecidas, tornando-as mais fáceis de evacuar.
- Laxantes estimulantes: provocam contracções rítmicas do músculo intestinal. Marcas comuns incluem Dulcolax, Bisalax e Senna.
- Laxantes lubrificantes: revestem o intestino e ajudam a amolecer as fezes. Uma marca habitual é Parachoc.
Antes de começar: medidas alimentares e de estilo de vida
Antes de iniciar um laxante, faz sentido apostar primeiro em mudanças simples, como:
- aumentar a ingestão de alimentos ricos em fibra, por exemplo, kiwi, milho, aveia e arroz integral;
- beber mais água ao longo do dia;
- fazer mais exercício físico.
Se, apesar destas medidas, a obstipação persistir, pode ser altura de ponderar um laxante. Em regra, é preferível começar por opções mais suaves - como os laxantes formadores de massa ou os amolecedores de fezes - mantendo em simultâneo as alterações de alimentação e hábitos referidas acima.
É sensato marcar consulta com o seu médico ao iniciar um laxante, porque a obstipação pode ser sinal de algo mais relevante, sobretudo quando surge acompanhada de outros sintomas (como hemorragia rectal).
O médico também pode confirmar se existe risco de interacções entre laxantes e outros medicamentos que esteja a tomar.
Quando a obstipação exige avaliação mais rápida
Além da hemorragia rectal, vale a pena procurar avaliação médica com maior urgência se houver dor abdominal intensa, febre, perda de peso não intencional, anemia, alteração recente e marcada do padrão intestinal, ou se a obstipação alternar frequentemente com diarreia. Estes sinais não significam necessariamente algo grave, mas justificam investigação para excluir outras causas.
Outra medida prática que costuma ajudar é criar uma rotina: reservar tempo para ir à casa de banho (sem pressa), responder ao reflexo natural após as refeições e evitar adiar a evacuação. Em muitas pessoas, estes ajustes, somados à fibra e à hidratação, reduzem a necessidade de recorrer a laxantes.
Os laxantes provocam “cólon preguiçoso”?
Provavelmente não. Então, de onde vem esta ideia?
Um relato clínico publicado na década de 1960 descreveu alterações intestinais numa pessoa que usava laxantes estimulantes há mais de 40 anos.
Ao examinar o cólon, os médicos observaram uma diminuição do número de certas células importantes. Isto gerou a preocupação de que o uso prolongado de laxantes estimulantes pudesse causar lesão intestinal e culminar num “cólon preguiçoso” (também conhecido como cólon catártico). Nesta situação, o cólon comportar-se-ia como um tubo inerte, com pouca ou nenhuma função muscular efectiva para impulsionar as fezes.
No entanto, uma revisão posterior de mais de 70 publicações, que descreviam 240 casos de abuso de laxantes estimulantes, não encontrou nenhum caso reportado de cólon catártico. Os autores concluíram que os casos antigos poderão ter estado associados a um laxante chamado podofilina, que actualmente já não é recomendado.
Uma outra revisão, com 43 publicações sobre a segurança dos laxantes estimulantes, salientou limitações importantes: muitos estudos tinham qualidade fraca e amostras pequenas. Além disso, factores de confusão - como idade e medicamentos concomitantes - nem sempre foram devidamente considerados.
No conjunto, não foi identificada evidência robusta de que o uso crónico de laxantes estimulantes cause dano intestinal.
Ainda assim, há motivos válidos para evitar o consumo regular e prolongado de laxantes sem orientação médica e sem monitorização da evolução.
Sintomas gastrointestinais e electrólitos
Fala-se em abuso de laxantes quando uma pessoa os toma repetidamente com o objectivo de perder peso.
O sintoma mais frequente do abuso é a diarreia, que pode vir acompanhada de cólicas abdominais, náuseas, vómitos e perda de peso.
Contudo, o abuso pode também desregular os electrólitos do organismo.
Um dos principais electrólitos eliminados nas fezes é o potássio. Se houver perda contínua de potássio devido à diarreia, os níveis de potássio no sangue podem descer.
Isto pode causar:
- fraqueza muscular generalizada;
- complicações cardíacas;
- alterações do ritmo cardíaco;
- em situações extremas, paragem cardíaca, com risco de morte.
Uma revisão sistemática de 2020, baseada em relatos clínicos, concluiu que o abuso de laxantes pode desencadear complicações cardíacas com gravidade variável, de ligeira a severa.
O abuso de laxantes também pode reduzir outros electrólitos, como cálcio e magnésio, originando contracções musculares dolorosas. Em alguns casos, o rim pode ser seriamente afectado por abuso crónico.
Em contrapartida, quando os laxantes são usados apenas na dose recomendada, o risco de complicações graves relacionadas com electrólitos é extremamente baixo.
Depressão, demência e saúde mental: o que se sabe sobre o uso regular de laxantes
Dois estudos no Reino Unido, que analisaram um conjunto de dados com cerca de meio milhão de participantes, observaram que o uso regular de laxantes esteve associado a um risco mais elevado de desenvolver depressão e demência.
Uma hipótese é que o abuso crónico de laxantes possa interferir com o chamado eixo microbioma–intestino–cérebro (a forma como a microbiota e o cérebro comunicam), aumentando o risco de condições como depressão e demência.
Como o abuso de laxantes é frequentemente associado a perturbações do comportamento alimentar, é importante que qualquer pessoa identificada com este padrão seja também avaliada de forma abrangente em termos de saúde mental. Muitas vezes, é necessário um plano para tratar o problema de base, e não apenas o sintoma.
Seguro quando usado correctamente
Os laxantes são fáceis de obter sem receita e são amplamente utilizados na comunidade. Podem ser muito úteis no tratamento da obstipação crónica.
Ainda assim, podem provocar efeitos indesejáveis, como diarreia e desequilíbrios de electrólitos. O uso prolongado e o uso excessivo aumentam o risco de problemas.
Por isso, é prudente falar com o seu médico antes de iniciar laxantes, sobretudo se tiver outras doenças ou se estiver a tomar outros medicamentos.
Vincent Ho, Professor Associado e Gastroenterologista Clínico Académico, Western Sydney University
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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