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Alterações precisas na conectividade entre neurónios podem ligar a microbiota intestinal aos sintomas depressivos na perturbação bipolar

Jovem cientista observa ratos em jaulas com representação holográfica do cérebro e sistema digestivo.

Um novo estudo em animais indica que uma desregulação das bactérias intestinais pode estar associada a mudanças específicas na conectividade entre neurónios, ajudando a explicar sintomas depressivos na perturbação bipolar.

A perturbação bipolar afecta, ao longo da vida, cerca de 1 em cada 50 pessoas a nível mundial e caracteriza-se por oscilações extremas do humor. Como as manifestações clínicas são complexas, os autores sublinham que a taxa de diagnóstico incorrecto é muito elevada, o que torna particularmente importante clarificar os mecanismos biológicos da doença para melhorar a detecção precoce e a intervenção.

Transplantes fecais na perturbação bipolar em fase depressiva: o que os investigadores fizeram

Uma equipa da Universidade de Zhejiang, na China, recorreu a transplantes de microbiota fecal para transferir bactérias intestinais de pessoas com perturbação bipolar para ratos de laboratório. Os voluntários humanos tinham recebido um diagnóstico de fase depressiva de perturbação bipolar nas 24 horas anteriores à recolha.

Depois do transplante, os cientistas combinaram técnicas de imagem cerebral, sequenciação genética e testes comportamentais para avaliar se a alteração da microbiota poderia induzir sinais consistentes com depressão.

Comportamento depressivo observado nos animais

Os ratos que receberam microbiota de doentes com perturbação bipolar passaram a apresentar indicadores compatíveis com um estado depressivo, como:

  • menor actividade motora (moviam-se menos);
  • redução do interesse por recompensas, incluindo guloseimas.

Em contraste, os animais que receberam transplantes de microbiota fecal de voluntários saudáveis não evidenciaram estes padrões.

Conectividade sináptica e mPFC: menos ligações e um circuito de recompensa comprometido

Além do comportamento, os investigadores detectaram alterações relevantes na arquitectura neural. Em particular, no córtex pré-frontal medial (mPFC) - uma região central para tomada de decisão e regulação emocional - observou-se:

  • diminuição do número de sinapses (menos ligações entre células);
  • enfraquecimento de medidas-chave de conectividade, com impacto no modo como o centro de recompensa funciona, ficando na prática menos integrado nos circuitos relevantes.

Em termos gerais, a equipa descreve que os ratos transplantados com microbiota de doentes com perturbação bipolar manifestaram um comportamento semelhante ao da depressão associada à perturbação bipolar, acompanhado por alterações estruturais e por mudanças na conectividade sináptica no mPFC.

Fluoxetina vs. lítio: um padrão de resposta alinhado com depressão bipolar

Para explorar melhor a natureza do quadro depressivo induzido, os cientistas testaram dois fármacos:

  • fluoxetina, frequentemente usada no tratamento da perturbação depressiva major;
  • lítio, terapêutica de primeira linha para estabilização do humor, incluindo na perturbação bipolar.

O padrão foi claro: não houve melhoria comportamental com fluoxetina, enquanto o lítio produziu uma alteração significativa no comportamento. Os autores interpretam isto como coerente com a forma como a fase depressiva da perturbação bipolar pode responder ao tratamento, distinguindo-a da depressão em sentido mais amplo.

A equipa acrescenta que o lítio tem sido associado à regulação do sistema dopaminérgico e da actividade de disparo dos neurónios de dopamina, processos considerados essenciais para o processamento de recompensa.

Que bactérias se destacaram na microbiota associada à perturbação bipolar?

Uma análise adicional da microbiota transferida para os ratos identificou alguns géneros bacterianos associados a efeitos negativos para a saúde, incluindo:

  • Klebsiella (já relacionada com perturbações do humor);
  • Alistipes (associada a depressão).

Ainda assim, os investigadores alertam que, apesar de terem sido identificados géneros específicos, é necessária mais evidência para determinar com precisão o papel exacto destas bactérias na patogénese da perturbação bipolar.

O que isto pode significar (e o que não significa)

Os autores não defendem que as bactérias intestinais, por si só, sejam suficientes para provocar perturbação bipolar. A doença tem múltiplos factores conhecidos - genéticos, ambientais e de estilo de vida, entre outros - e a microbiota pode funcionar como um elemento contributivo, somando-se a outras vulnerabilidades e, potencialmente, agravando sintomas.

Perceber com maior detalhe como uma condição se desenvolve e em que diverge de perturbações próximas é um passo importante para melhorar abordagens terapêuticas. Como já foram observados desequilíbrios da microbiota intestinal em pessoas com perturbação bipolar, estes resultados reforçam a hipótese de que restaurar comunidades microbianas poderá, no futuro, ajudar a atenuar sintomas em alguns doentes.

Um aspecto adicional relevante é a necessidade de validar estes achados em humanos com estudos que controlem factores como dieta, sono, medicação, consumo de álcool e stress, todos capazes de alterar a microbiota e também de influenciar o humor. Modelos animais permitem testar mecanismos com maior controlo, mas não substituem a complexidade clínica observada em pessoas.

Em paralelo, a investigação continua a progredir na identificação de como a perturbação bipolar pode iniciar-se, incluindo diferenças na “cablagem” cerebral e na actividade das células nervosas, abrindo novas pistas para diagnóstico e intervenção mais precoces.

O estudo foi publicado na revista Psiquiatria Molecular.

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