Aqui ficam as soluções (reescritas e explicadas) para o quiz de matemática natalícia publicado a 23 de Dezembro. A ideia destes desafios não é apenas “fazer contas”: é treinar estratégias, reconhecer padrões e usar lógica com rigor - competências tão úteis na matemática como no dia a dia.
Antes de começar, uma nota geral: em muitos destes desafios há uma “chave” escondida - dividir em partes iguais, procurar uma invariância (algo que não muda) ou organizar a informação de forma a eliminar hipóteses. Quando se encontra essa chave, o problema deixa de parecer um labirinto e passa a ter uma rota clara.
Desafio 1 - Nove moedas de ouro e uma falsa mais leve
Tens nove moedas de ouro indistinguíveis à vista. Uma delas é falsa e sabe-se que a moeda falsa pesa menos do que as verdadeiras. Com uma balança de dois pratos (daquelas clássicas), qual é o menor número de pesagens necessário para identificar a moeda falsa?
Solução (em apenas duas pesagens)
É possível resolver com duas comparações na balança:
1) Separar em três grupos iguais
Divide as 9 moedas em 3 conjuntos de 3. Escolhe dois conjuntos e pesa-os um contra o outro:
- Se um dos conjuntos ficar mais leve, a moeda falsa está nesse conjunto de três.
- Se houver equilíbrio, então a moeda falsa está no terceiro conjunto (o que não foi pesado).
2) Isolar a moeda falsa dentro do grupo suspeito
Do conjunto de 3 onde está a falsa, pesa duas moedas entre si:
- Se uma ficar mais leve, essa é a falsa.
- Se ficarem iguais, a falsa é a terceira moeda (a que não foi pesada).
Desafio 2 - Ampulhetas de 4 e 7 minutos para medir 10 minutos
Foste “atirado” para o passado para ajudar a preparar a ceia de Natal. Tens de controlar o tempo de forno de uma tarte, mas só dispões de duas ampulhetas: uma mede exactamente 4 minutos e a outra mede exactamente 7 minutos. Como cronometrar 10 minutos com precisão?
Solução (pensando em cozinhar o mais depressa possível)
Há várias formas, mas uma sequência eficiente é:
- Inicia as duas ampulhetas ao mesmo tempo.
- Quando a ampulheta de 4 minutos terminar, a de 7 minutos terá 3 minutos por escoar. Nesse momento, coloca a tarte no forno.
- Quando esses 3 minutos restantes terminarem (ou seja, quando acabar a ampulheta de 7), vira novamente a ampulheta de 7 minutos.
- Deixa a ampulheta de 7 correr até ao fim e retira a tarte imediatamente.
Como a tarte esteve no forno durante 3 + 7 = 10 minutos, o tempo fica certo.
Desafio 3 - Vinho quente: dois barris de 10 L e duas garrafas (5 L e 4 L) para obter 3 L em cada
Tens dois barris cheios de 10 L de vinho quente. Dão-te duas garrafas vazias: uma de 5 L e outra de 4 L. Recebes a ordem de ficar com exactamente 3 L em cada garrafa, sem desperdiçar uma gota. Como fazer?
Solução (uma sequência possível em 11 movimentos)
Abaixo vai uma forma de o conseguir em 11 movimentos. Em cada movimento, assume-se que se verte sempre até esvaziar o recipiente de origem ou até encher o recipiente de destino (o que acontecer primeiro).
Notação: B1 e B2 são os barris de 10 L; g5 é a garrafa de 5 L; g4 é a garrafa de 4 L.
| Movimento | Operação | B1 (L) | B2 (L) | g5 (L) | g4 (L) |
|---|---|---|---|---|---|
| 0 | Estado inicial | 10 | 10 | 0 | 0 |
| 1 | Encher g5 a partir de B2 | 10 | 5 | 5 | 0 |
| 2 | Encher g4 a partir de B1 | 6 | 5 | 5 | 4 |
| 3 | Verter g4 para B2 (até g4 esvaziar) | 6 | 9 | 5 | 0 |
| 4 | Encher g4 a partir de B1 | 2 | 9 | 5 | 4 |
| 5 | Verter g4 para B2 (até B2 encher) | 2 | 10 | 5 | 3 |
| 6 | Verter g5 para B1 (até g5 esvaziar) | 7 | 10 | 0 | 3 |
| 7 | Encher g5 a partir de B2 | 7 | 5 | 5 | 3 |
| 8 | Verter g4 para B2 (até g4 esvaziar) | 7 | 8 | 5 | 0 |
| 9 | Verter g5 para B2 (até B2 encher) | 7 | 10 | 3 | 0 |
| 10 | Verter g5 para g4 (até g5 esvaziar) | 7 | 10 | 0 | 3 |
| 11 | Encher g5 a partir de B1 até ficar com 3 L (complementando e ajustando com os recipientes já a 3 L) | 4 | 10 | 3 | 3 |
No fim, ficas com 3 L na garrafa de 5 L e 3 L na garrafa de 4 L, sem perdas.
Nota: é bem possível que exista uma sequência mais curta; o ponto essencial é usar os barris como “reservatórios” para criar espaço e forçar paragens exactas quando um recipiente fica cheio.
Desafio 4 - “100 dias de Natal”: somar 1 € + 2 € + … + 100 € sem fazer 100 somas
Imagina que há 100 dias de Natal. No dia n, recebes n €, desde 1 € no primeiro dia até 100 € no último. Como calcular o total recebido sem somar um a um?
Solução (o método clássico associado a Gauss)
Seja ( s ) a soma:
[ s = 1 + 2 + 3 + \dots + 99 + 100 ]
Escrevendo a mesma soma ao contrário:
[ s = 100 + 99 + 98 + \dots + 2 + 1 ]
Somando termo a termo:
- No lado esquerdo fica (2s).
- No lado direito, cada par dá sempre 101: (1+100), (2+99), etc.
- Existem 100 termos, logo há 100 pares.
Portanto:
[ 2s = 100 \times 101 = 10\,100 \quad\Rightarrow\quad s = 5\,050 ]
Total recebido: 5 050 €.
Desafio 5 - Uma sequência natalícia: 9, 11, 10, 12, 9, 5, …
Eis uma sequência “com cheiro a Natal”. Os seis primeiros termos são:
9, 11, 10, 12, 9, 5, …
(Em algumas versões, o quinto termo aparece como 11.)
Qual é o próximo número?
Solução - sequência dos presentes nos Doze Dias de Natal (contagem de letras)
O padrão vem do número de letras do nome de cada presente, pela ordem, na canção tradicional dos Doze Dias de Natal (na forma mais difundida internacionalmente). O termo seguinte é 5, correspondente ao presente dos cisnes.
Lista completa (com os valores da sequência indicados):
- perdiz (9)
- rolas (11)
- galinhas francesas (10)
- aves cantoras (12)
- anéis de ouro (9 - ou 11, quando se usa a variante “anéis dourados”)
- gansos (5)
- cisnes (5)
- criadas (5)
- senhoras (6)
- lordes (5)
- tocadores de flauta (6)
- tocadores de tambor (8)
Nota final: pode parecer um desafio “pouco matemático”, mas a matemática (e, mais amplamente, o pensamento crítico e criativo) vive muito de detectar padrões que, à primeira vista, parecem frágeis. Curiosamente, durante a Segunda Guerra Mundial, a selecção para unidades aliadas de descodificação no Reino Unido valorizava precisamente este tipo de raciocínio - incluindo aptidão para resolver palavras cruzadas enigmáticas.
Desafio 6 - Qual das 100 afirmações é a única verdadeira?
Entre as 100 frases seguintes, apenas uma é verdadeira. Qual?
- Exactamente uma afirmação nesta lista é falsa.
- Exactamente duas afirmações nesta lista são falsas.
- … e assim sucessivamente até:
- Exactamente 99 afirmações nesta lista são falsas.
- Exactamente 100 afirmaações nesta lista são falsas.
Solução
A única verdadeira é a 99.ª afirmação.
Há 100 afirmações, e a afirmação na posição (n) diz que existem exactamente (n) afirmações falsas. Para haver apenas uma verdadeira, tem de haver 99 falsas - o que coincide precisamente com (n = 99).
Desafio 7 - Três chapéus (vermelho ou verde) e lógica perfeita
Tu e os teus amigos Artur e Bruno usam chapéus de Natal, cada um podendo ser vermelho ou verde. Ninguém vê o seu próprio chapéu, mas cada um vê os chapéus dos outros dois. Vês que os chapéus do Artur e do Bruno são vermelhos.
Dizem-vos ainda que pelo menos um chapéu é vermelho.
O Artur afirma: “Não sei a cor do meu chapéu.”
Depois o Bruno diz: “Também não sei a cor do meu chapéu.”
Assumindo lógica irrepreensível, consegues concluir a cor do teu chapéu?
Solução
O teu chapéu tem de ser vermelho.
Se o teu chapéu fosse verde, então o Artur veria um chapéu verde (o teu) e um vermelho (o do Bruno). Como sabe que existe pelo menos um vermelho, ao ouvir o Artur dizer que não sabe a cor do próprio chapéu, o Bruno poderia concluir de imediato que o chapéu dele só pode ser vermelho. Mas o Bruno não consegue concluir isso - logo ele não está a ver nenhum chapéu verde. Portanto, o Bruno está a ver dois vermelhos, e isso implica que o teu chapéu é vermelho.
Desafio 8 - Três caixas com etiquetas trocadas (todas erradas)
Há três caixas debaixo da árvore:
1) uma tem dois presentes pequenos;
2) uma tem dois pedaços de carvão;
3) uma tem um presente pequeno e um pedaço de carvão.
Cada caixa tem uma etiqueta a dizer o que contém - mas as etiquetas foram trocadas e, pior, todas as caixas estão mal etiquetadas.
Podes tirar apenas um objecto de uma caixa. Que caixa deves escolher para, a partir daí, conseguires corrigir todas as etiquetas?
Solução
Deves escolher a caixa cuja etiqueta diz: “um presente pequeno e um pedaço de carvão”.
Como todas as etiquetas estão erradas, essa caixa não pode ser “mista”: só pode conter dois presentes ou dois carvões.
- Se tirares um objecto e perceberes que é um presente, então essa caixa é a de dois presentes.
A caixa etiquetada como “dois carvões” terá de ser a mista (porque também está errada), e sobra a última como a de dois carvões. - Se, pelo contrário, o objecto for carvão, fazes o raciocínio simétrico.
Com uma única observação, consegues reposicionar as três etiquetas.
Desafio 9 - Sumo de laranja e sumo de maçã: o truque da invariância
Na cozinha há uma garrafa de 1 L de sumo de laranja e outra de 1 L de sumo de maçã. O João tira uma colher de sopa (cerca de 15 ml) de sumo de laranja e deita-a na garrafa do sumo de maçã, mexendo até ficar bem misturado.
A seguir, a Joana tira uma colher de sopa da mistura (da garrafa do sumo de maçã) e devolve-a à garrafa do sumo de laranja.
No fim, há mais sumo de laranja na garrafa do sumo de maçã, ou mais sumo de maçã na garrafa do sumo de laranja?
Solução - são quantidades iguais
As duas quantidades são iguais. Este é um exemplo elegante de invariância (algo que permanece constante).
Depois das transferências e da mistura, cada garrafa continua a ter 1 L - esse volume total em cada garrafa não mudou. Assim, a quantidade de sumo de laranja que acabou na garrafa do sumo de maçã corresponde exactamente à quantidade de sumo de maçã que foi “desalojada” e acabou, em compensação, na garrafa do sumo de laranja.
Pode parecer pouco intuitivo ao primeiro contacto, mas a força do argumento está em permitir a conclusão sem qualquer conta.
Desafio 10 - Notas com figuras (tarefa de selecção lógica)
Numa terra do Pai Natal, todas as notas têm:
- de um lado: Pai Natal ou Mãe Natal;
- do outro lado: Presente ou Rena.
Um duende coloca quatro notas na mesa, mostrando estas faces, pela ordem:
Pai Natal | Mãe Natal | Presente | Rena
Um duende mais experiente afirma:
“Se uma nota tiver o Pai Natal de um lado, então do outro lado tem de ter um Presente.”
Que notas é que deves virar para confirmar se a afirmação é verdadeira?
Solução
Deves virar:
- a nota com Pai Natal (para verificar se do outro lado está mesmo Presente);
- a nota com Rena (para confirmar que do outro lado não está o Pai Natal).
É tentador virar a nota “Presente”, mas a regra é do tipo “se Pai Natal, então Presente” - isso não implica “se Presente, então Pai Natal”. Por isso, a nota “Presente” não testa a afirmação. A nota “Mãe Natal” também não é relevante, porque a regra nada diz sobre notas com a Mãe Natal.
Solução do desafio bónus - velocidade média do Pai Natal (Gronelândia ↔ Polo Norte)
O Pai Natal viaja de trenó da Gronelândia até ao Polo Norte a 48,3 km/h, e regressa imediatamente do Polo Norte à Gronelândia a 64,4 km/h. Qual é a velocidade média de toda a viagem?
Solução (e o alerta do “Pensar, Depressa e Devagar”)
Este problema encaixa bem na distinção popularizada pelo psicólogo Daniel Kahneman em Pensar, Depressa e Devagar: o impulso rápido é fazer “a média” e apontar algo como 56,3 km/h. Parece plausível - mas está errado.
Para fazer bem, convém usar álgebra:
- Seja (d) a distância (em km) entre a Gronelândia e o Polo Norte.
- Seja (t1) o tempo da ida e (t2) o tempo do regresso.
Pela fórmula ( \text{velocidade} = \frac{\text{distância}}{\text{tempo}} ):
[ 48{,}3 = \frac{d}{t1} \quad\Rightarrow\quad t1 = \frac{d}{48{,}3} ]
[ 64{,}4 = \frac{d}{t2} \quad\Rightarrow\quad t2 = \frac{d}{64{,}4} ]
A distância total é (2d), e a velocidade média é:
[
\frac{2d}{t1 + t2}
\frac{2d}{\frac{d}{48{,}3} + \frac{d}{64{,}4}}
\frac{2}{\frac{1}{48{,}3} + \frac{1}{64{,}4}} \approx 55{,}2 ]
Logo, a velocidade média do percurso completo é aproximadamente 55,2 km/h. Repara como (d) desaparece do cálculo: essa é precisamente uma das vantagens da álgebra - permite manipular quantidades mesmo quando não se conhece o seu valor numérico.
Neil Saunders, docente sénior de Matemática, Departamento de Ciências Matemáticas, City São Jorge - Universidade de Londres.
Este texto é republicado ao abrigo de uma licença Comuns Criativas.
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