A cobertura vacinal contra o papilomavírus humano (HPV) continua a ser insuficiente entre os rapazes em muitos países e, em determinados contextos, isso pode estar a dificultar o objectivo de eliminar o cancro do colo do útero.
Investigadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, defendem que aumentar a vacinação de rapazes com a vacina Gardasil poderá evitar inúmeras mortes associadas a cancros provocados pelo HPV - incluindo cancro do colo do útero, cancro anal, cancro do pénis e cancros da cavidade oral.
HPV, transmissão e impacto na saúde pública
O HPV é um vírus extremamente contagioso, capaz de se transmitir por via sexual, mas também através do contacto pele com pele e da exposição a fluidos. É responsável por praticamente todos os casos de cancro do colo do útero, uma doença que provoca mais de 300 000 mortes por ano em todo o mundo.
A primeira vacina contra o HPV recebeu autorização em 2006 e foi inicialmente introduzida para proteger contra estirpes de alto risco associadas ao cancro do colo do útero.
Da prevenção nas mulheres à protecção de todos: o enviesamento de género na vacinação
Numa fase inicial, a comunicação e a promoção da vacinação foram orientadas sobretudo para as mulheres, como se se tratasse de uma medida preventiva “exclusivamente feminina”. E, de facto, os resultados foram muito expressivos: ao longo das últimas duas décadas, em algumas regiões, os casos de cancro do colo do útero diminuíram quase 90%.
Ainda assim, há mais vidas a proteger - incluindo as dos homens. Vários investigadores chamam a atenção para um persistente enviesamento de género nas políticas de vacinação e nas mensagens de saúde pública, que pode estar a limitar ganhos adicionais.
Hoje sabe-se que homens e mulheres podem desenvolver cancros associados ao HPV, como cancro anal, cancro do pénis, cancro vaginal e cancros da cabeça e pescoço. Apesar disso, em muitos países, a proporção de rapazes vacinados é muito inferior à das raparigas, criando uma disparidade que os especialistas em saúde pública pretendem corrigir.
Vacinação contra o HPV em rapazes: o que mostram os modelos para a Coreia do Sul
A equipa liderada pelo matemático Abba Gumel desenvolveu um novo modelo matemático que sugere que, num país como a Coreia do Sul, onde a vacinação tem sido dirigida essencialmente às raparigas, a cobertura actual pode não chegar para atingir imunidade de grupo contra estirpes do HPV que impulsionam o aparecimento de cancro.
Segundo o modelo, vacinar 65% dos rapazes no país poderia alterar substancialmente esse cenário.
“Vacinar rapazes reduz a pressão de ter de vacinar uma proporção muito elevada de mulheres”, explica Abba Gumel. “Torna a eliminação mais realisticamente alcançável.”
As simulações indicam que, se o programa de vacinação contra o HPV na Coreia do Sul passasse a incluir rapazes, o país poderia eliminar os cancros relacionados com o HPV em cerca de 70 anos.
Porque a cobertura actual pode não chegar
De acordo com as simulações, mantendo-se o programa tal como está, seria necessário imunizar 99% das raparigas para alcançar imunidade de grupo. No entanto, a cobertura actual entre jovens mulheres está nos 88%, o que significa que o HPV e os cancros associados ainda podem persistir na população.
O efeito combinado: raparigas + rapazes
O cenário melhora quando os rapazes também são incluídos:
- Se 65% dos homens forem vacinados e a vacinação das mulheres se mantiver, o modelo aponta para a possibilidade de a Coreia do Sul atingir imunidade de grupo.
- Mesmo que a cobertura entre mulheres desça ligeiramente para 80%, o país poderia ainda assim alcançar a eliminação do cancro do colo do útero se 80% dos homens também forem imunizados.
Além disso, nos últimos 20 anos, os casos de cancro masculino associado ao HPV na Coreia do Sul triplicaram. A vacinação de rapazes poderá, por isso, evitar mortes futuras também por estes tumores.
O que isto pode significar noutros países, incluindo os Estados Unidos
Embora o modelo tenha sido ajustado com dados oncológicos da Coreia do Sul, os autores indicam que a ferramenta pode ser usada para avaliar a eficácia de programas de vacinação noutros países.
Para um país como os Estados Unidos, Gumel estima que uma cobertura de cerca de 70% entre homens e mulheres poderá ser suficiente para alcançar imunidade de grupo.
Reforço da vacinação e recuperação de oportunidades perdidas
À luz destes resultados, os autores defendem que rapazes entre os 12 e os 17 anos devem ser vacinados em simultâneo com raparigas e com mulheres mais velhas que não tenham sido vacinadas quando eram mais novas.
Evidência recente sugere também que vacinar pessoas mais velhas pode continuar a oferecer algum grau de protecção contra este vírus altamente transmissível.
Uma peça adicional: rastreios e prevenção a longo prazo
Mesmo com elevada vacinação contra o HPV, os rastreios do colo do útero continuam a ser um complemento decisivo para reduzir doença e mortalidade, porque ajudam a detectar lesões antes de evoluírem para cancro. Estratégias que combinam vacinação elevada com rastreio consistente tendem a acelerar os ganhos em saúde pública.
Também é crucial assegurar comunicação clara para famílias e adolescentes: incluir rapazes nos programas de vacinação não “retira” protecção às raparigas - aumenta a protecção colectiva e reduz a circulação do vírus, aproximando o objectivo de eliminação do cancro do colo do útero.
Metas globais: eliminar o cancro do colo do útero em grande parte do mundo
Algumas estimativas indicam que, se o mundo conseguir uma cobertura vacinal ampla contra o HPV e expandir os rastreios do colo do útero, poderá ser possível eliminar o cancro do colo do útero em 149 dos 181 países até ao final do século.
Aumentar a vacinação entre rapazes poderá ser um factor determinante para concretizar essas metas.
“Não temos de continuar a perder 350 000 pessoas por ano, a nível global, por cancro do colo do útero”, afirma Gumel.
“Podemos ver o fim do HPV e dos cancros associados ao HPV se melhorarmos a cobertura vacinal.”
O estudo foi publicado no Boletim de Biologia Matemática.
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