Se estes resultados vierem a ser corroborados, a Eurásia poderá ter sido ocupada muito antes do que indicavam os principais modelos paleoantropológicos actuais.
Surgido em África há cerca de 2 milhões de anos, Homo erectus antecede a nossa espécie, Homo sapiens, em mais de 1,7 milhões de anos. Foi com ele que se iniciou a primeira grande expansão humana para fora do berço africano, tornando-o o primeiro grande explorador da nossa linhagem e, ao mesmo tempo, a primeira espécie do género Homo associada ao controlo do fogo. Até há muito pouco tempo, o entendimento dominante colocava a sua chegada à Ásia oriental por volta de 1,1 milhões de anos - mas é possível que essa cronologia esteja errada.
Num estudo publicado a 18 de Fevereiro de 2026 na revista Science Advances, uma equipa internacional voltou a estimar a idade de fósseis de Homo erectus encontrados em Yunxian, um conhecido sítio de escavação na província chinesa de Hubei. De acordo com as novas análises, estes indivíduos já habitariam a região há cerca de 1,7 milhões de anos. Se esta redatação se confirmar, a presença dos primeiros humanos na Ásia oriental recuará aproximadamente 600 000 anos. À luz desta proposta, torna-se plausível que as primeiras migrações humanas tenham ocorrido substancialmente mais cedo do que se aceitava.
Homo erectus em Yunxian (Hubei): nova leitura dos sedimentos e nova cronologia
Para reconstruir a cronologia de Yunxian - um local investigado desde meados da década de 1970 - a equipa, reunindo antropólogos e geocientistas, recorreu a uma técnica conhecida como datação por isótopos cosmogénicos. Este método assenta na interacção entre radiação galáctica de alta energia e a litosfera: ao atingir os grãos de quartzo à superfície da Terra, esse fluxo de partículas desencadeia processos de espalação nuclear que transformam átomos de silício e oxigénio em isótopos radioactivos raros, o alumínio-26 e o berílio-10.
Enquanto os sedimentos permanecem expostos, vão acumulando estes isótopos de forma proporcional ao tempo de exposição. Contudo, quando as camadas ficam seladas pelo enterramento - aprisionando também os vestígios humanos de Yunxian - essa produção pára e não se formam novos isótopos.
Como o alumínio-26 decai aproximadamente duas vezes mais depressa do que o berílio-10, a relação entre ambos funciona, para os investigadores, como um “relógio” geológico. Ao medir o desequilíbrio isotópico nas camadas arqueológicas, foi possível calcular o tempo decorrido desde o isolamento dos fósseis, obtendo assim uma estimativa muito precisa da antiguidade destas populações humanas.
Os valores isotópicos obtidos nos sedimentos que envolvem os fósseis apontam para uma presença no sítio desde há cerca de 1,7 milhões de anos. Este resultado contrasta de forma marcada com as primeiras estimativas estratigráficas e paleomagnéticas produzidas desde a década de 1990, que situavam estes grupos em torno de 1,1 milhões de anos, já mais tarde no Pleistoceno inferior.
O que muda na história da nossa linhagem na Ásia oriental?
Caso a nova datação se confirme, Yunxian deixa de poder ser entendido como um registo relativamente tardio de Homo erectus na Ásia oriental. Uma ocupação com cerca de 1,7 milhões de anos coloca estas populações entre os testemunhos mais antigos da dispersão humana até ao extremo oriental do continente eurasiático.
Se Homo erectus atingiu de facto esta área numa fase tão antiga, isso implica um de dois cenários (ou uma combinação de ambos): uma propagação particularmente rápida através da Eurásia, ou a existência de populações intermédias ainda pouco documentadas entre África, a Ásia ocidental e o Extremo Oriente. São hipóteses que terão de ser aprofundadas para compreender melhor as raízes profundas da ocupação humana no continente asiático.
A importância desta revisão cronológica também expõe a fragilidade do registo paleoantropológico. Os fósseis humanos do Pleistoceno inicial continuam a ser extremamente raros e, por isso, uma única reavaliação pode alterar por completo cenários migratórios construídos a partir de um número demasiado pequeno de sítios. Soma-se ainda a questão das modalidades da expansão de *Homo erectus: estaremos perante uma única vaga migratória a partir de África, ou, pelo contrário, perante vários episódios sucessivos, dos quais o registo arqueológico preserva apenas indícios ténues? À medida que a cronologia dos sítios eurasiáticos se torna mais robusta, *ganha força a segunda hipótese**.
Um ponto adicional, frequentemente sublinhado nestes debates, é a necessidade de cruzar métodos independentes. A datação por isótopos cosmogénicos oferece uma via poderosa para estimar o tempo desde o enterramento, mas a consolidação do quadro temporal tende a beneficiar da convergência com outras abordagens geocronológicas e geoarqueológicas (por exemplo, leituras sedimentológicas detalhadas e reavaliações paleomagnéticas), reduzindo a margem para interpretações equívocas.
Por fim, uma cronologia mais antiga para Yunxian também reabre perguntas sobre as condições ecológicas e as estratégias de sobrevivência de Homo erectus durante esta expansão: que tipos de paisagem e recursos terão facilitado a progressão para a Ásia oriental, e até que ponto a flexibilidade comportamental e tecnológica terá influenciado a capacidade de ocupar territórios tão afastados do ponto de origem africano. Estas linhas de investigação serão essenciais para enquadrar a datação proposta num modelo coerente de dispersão ao longo da Eurásia.
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