O comportamento homossexual em primatas tem uma base evolutiva sólida e tende a surgir com maior frequência em espécies que vivem em ambientes adversos, sob maior pressão de predadores ou inseridas em sociedades complexas, segundo investigadores.
Em todo o reino animal há registos de machos ou fêmeas do mesmo sexo a montar, acariciar ou estimular sexualmente outros indivíduos. No total, já foram observadas mais de 1 500 espécies a envolverem-se em comportamento sexual entre indivíduos do mesmo sexo - com alguns dos relatos mais antigos a remontarem ao filósofo grego Aristóteles.
Durante muito tempo, porém, esta conduta relativamente comum foi desvalorizada pela comunidade científica e tratada como um “paradoxo darwiniano”: a ideia de que entraria em conflito com a teoria da evolução de Charles Darwin, por não contribuir directamente para a transmissão de genes através da reprodução. Nos últimos anos, a investigação tem vindo a mostrar que este comportamento pode ser, em parte, herdado e que, em determinadas condições, pode também trazer vantagens evolutivas.
Comportamento homossexual em primatas e a sua importância na natureza
“A diversidade de comportamentos sexuais é muito frequente na natureza, entre espécies e dentro das sociedades animais - e pode ser tão relevante como cuidar das crias, repelir predadores ou procurar alimento”, explicou à AFP o biólogo Vincent Savolainen, do Imperial College de Londres.
Savolainen tem acompanhado macacos-rhesus em Porto Rico ao longo de oito anos. A equipa verificou que os machos que montam outros machos tendem a criar alianças, o que pode traduzir-se em maior acesso a fêmeas e, mais tarde, em mais descendência. Em 2023, os investigadores concluíram ainda que, em mais de 6% dos casos, os macacos exibiam comportamento entre indivíduos do mesmo sexo de forma herdada dos progenitores - embora a transmissão deste traço varie consoante diversos factores.
“Raiz evolutiva profunda” nos primatas não humanos
Num novo estudo publicado na revista Nature Ecologia e Evolução, Savolainen e colegas reuniram informação sobre 491 espécies de primatas não humanos. O comportamento sexual entre indivíduos do mesmo sexo foi identificado em 59 espécies, incluindo lémures, grandes símios e macacos distribuídos pelas Américas, África e Ásia.
O facto de o fenómeno estar tão disseminado aponta para uma “raiz evolutiva profunda”, defendem os autores. A equipa analisou, em seguida, de que modo o ambiente, a organização social e características da história de vida influenciam a probabilidade de ocorrerem actos homossexuais nos primatas.
Os resultados indicam que este comportamento é mais frequente em espécies que enfrentam condições duras e acesso limitado a alimento, como acontece com os macacos-de-gibraltar. Também aparece mais em espécies com maior risco de serem caçadas: por exemplo, os macacos-verdes têm de escapar a diversos predadores em África, incluindo grandes felinos e serpentes.
Alívio da tensão em ambientes adversos?
De acordo com os investigadores, este padrão sugere que o comportamento homossexual pode ajudar a reduzir a tensão e a gerir conflitos dentro dos grupos em períodos de stress.
A mesma tendência foi observada em espécies onde existe uma grande diferença de tamanho entre machos e fêmeas, como nos gorilas-da-montanha. Este tipo de dimorfismo sexual surge, muitas vezes, em animais que vivem em grupos sociais maiores, com competição intensa e hierarquias mais rígidas. Pelo contrário, espécies em que machos e fêmeas têm dimensões semelhantes tendem a organizar-se em pares ou em unidades familiares pequenas.
Assim, o comportamento sexual entre indivíduos do mesmo sexo “pode funcionar como uma estratégia social flexível, usada para reforçar laços, gerir conflitos ou construir alianças, dependendo das pressões ecológicas e sociais enfrentadas por cada espécie”, refere o estudo.
O que isto pode (e não pode) dizer sobre os humanos
Os autores admitem que factores semelhantes possam ter influenciado também os antepassados humanos. “Os nossos ancestrais tiveram certamente de lidar com as mesmas complexidades ambientais e sociais”, afirmou Savolainen.
Ao mesmo tempo, o investigador sublinhou que existem aspectos próprios dos humanos modernos: “Há elementos completamente únicos nos seres humanos actuais, que têm uma complexidade de orientação e preferência sexual que nós não abordamos de todo”, acrescentou.
O estudo deixa ainda um alerta contra a má interpretação ou uso indevido das conclusões, incluindo “a noção errada de que a igualdade social poderia eliminar” o comportamento sexual entre indivíduos do mesmo sexo nos humanos contemporâneos.
Limites das observações e implicações práticas
A análise comparativa entre centenas de espécies depende, inevitavelmente, da qualidade e da cobertura dos registos comportamentais disponíveis: espécies mais observadas podem parecer “mais propensas” simplesmente porque foram mais estudadas. Além disso, o mesmo comportamento pode cumprir funções distintas (vínculo social, reconciliação, redução de agressividade ou negociação de estatuto), o que exige cautela ao interpretar causas únicas.
Compreender esta variedade tem também utilidade prática: em programas de conservação, zoológicos e centros de reabilitação, reconhecer a diversidade de interacções sexuais e sociais pode ajudar a planear grupos mais estáveis, reduzir conflitos e melhorar o bem-estar - sem projectar categorias humanas de forma simplista sobre outras espécies.
Reacções ao estudo
A antropóloga Isabelle Winder, da Universidade de Bangor, no Reino Unido, que não participou no trabalho, elogiou os resultados. Segundo escreveu na revista Nature, o mais entusiasmante é a demonstração de que métodos comparativos modernos podem, talvez pela primeira vez, esclarecer de forma realista parte das complexidades da evolução de comportamentos “semelhantes aos humanos”.
© Agence France-Presse
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