Num bloco operatório de Nova Iorque, num dia de Outubro de 2025, uma equipa médica entrou para a história ao implantar, num doente vivo, um rim de porco editado geneticamente no âmbito de um ensaio clínico.
Este rim foi concebido para se aproximar do tecido humano e foi desenvolvido dentro de um porco, surgindo como alternativa à espera - muitas vezes interminável - por um dador humano. Durante décadas, a proposta pareceu saída da ficção científica; hoje, faz parte da prática experimental, no sentido mais literal.
A pessoa transplantada integra um grupo de seis participantes no primeiro ensaio clínico de transplantes de rim de porco para humano. O objectivo é claro: avaliar se rins de porco editados geneticamente conseguem substituir, com segurança, rins humanos em falência.
A necessidade urgente por detrás da xenotransplantação de rins de porco
É fácil perder de vista a aflição que está por trás destes avanços. Nos Estados Unidos, mais de 100.000 pessoas aguardam um transplante de órgão. A procura ultrapassa largamente a oferta e, todos os anos, milhares morrem antes de surgir um órgão compatível.
Há muito que a medicina procura soluções “entre espécies” - desde experiências com corações de babuíno na década de 1960 até aos porcos geneticamente alterados de hoje. O obstáculo constante tem sido o sistema imunitário: tudo o que o organismo não reconhece como “próprio” tende a ser tratado como ameaça e, por isso, atacado e destruído.
Um caso recente mostra bem como esta via continua frágil. Em Janeiro de 2025, um homem em New Hampshire recebeu um rim de porco editado geneticamente. Nove meses depois, foi necessário remover o órgão porque a sua função estava a deteriorar-se.
Esse resultado, ainda que parcialmente encorajador, também reforçou uma realidade persistente: a rejeição continua a ser o problema central quando se transplantam órgãos entre espécies - processo conhecido como xenotransplantação.
Para contornar a rejeição, investigadores tentam produzir um órgão que o corpo humano tolere melhor, inserindo alguns genes humanos e eliminando determinados genes do porco.
Ainda assim, quem recebe estes órgãos de porco editados geneticamente tem de tomar fármacos muito potentes para suprimir o sistema imunitário durante e após a cirurgia - e, mesmo assim, a rejeição pode não ser evitada. Aliás, mesmo nos transplantes de humano para humano são necessários imunossupressores para toda a vida.
Antes dos rins editados geneticamente: quimeras humano-animais e células estaminais humanas
Há cerca de uma década, a aposta científica seguia outra direcção. Em vez de editar genes em porcos para tornar os órgãos mais “compatíveis” com humanos, procurava-se cultivar órgãos humanos - feitos inteiramente de células humanas - dentro de porcos.
Nesse modelo, a ideia passava por desactivar os genes que permitem ao embrião de porco formar um rim e, depois, injectar células estaminais humanas para ocuparem o “espaço” onde esse rim deveria desenvolver-se. O resultado pretendido seria um rim geneticamente ajustado ao futuro doente, o que, em teoria, eliminaria o risco de rejeição.
O conceito é relativamente simples; já a implementação é tecnicamente exigente, em parte porque as células humanas e as células de porco evoluem a ritmos diferentes durante o desenvolvimento embrionário. Mesmo assim, cinco anos antes da pausa do NIH, investigadores já tinham demonstrado algo semelhante ao fazer crescer um pâncreas de rato dentro de uma ratazana.
Ou seja: o crescimento de órgãos entre espécies não era fantasia - havia uma prova de conceito funcional.
A pausa do NIH e as dúvidas éticas sobre quimeras humano-animais
Em 2015, os National Institutes of Health (NIH) suspenderam o financiamento para a inserção de células estaminais humanas em embriões de animais, para ponderar riscos éticos. Essa pausa mantém-se até hoje.
Enquanto bioeticista e filósofa que estudou durante anos a ética do uso de órgãos cultivados em animais - incluindo a participação num grupo nacional financiado pelo NIH para analisar mecanismos de supervisão da investigação em quimeras humano-animais - a autora do texto original ficou intrigada com esta decisão.
A lógica implícita era a de que o perigo estaria em tornar os porcos “demasiado humanos”. No entanto, os reguladores parecem hoje mais confortáveis com a ideia inversa: tornar os humanos um pouco mais “porco”, através do implante de órgãos suínos.
Isto levanta uma pergunta difícil: por que motivo é considerado eticamente aceitável colocar órgãos de porco em humanos, mas não é aceite cultivar órgãos humanos em porcos?
O estatuto moral: receios sobre o cérebro e a “linha” entre humano e animal
As preocupações que motivaram a pausa do NIH em 2015 não decorriam tanto do medo de falhas científicas, mas sim de incerteza moral.
Os decisores temiam que as células humanas se espalhassem pelo corpo do animal - incluindo para o cérebro - e que isso esbatese as fronteiras entre humano e animal.
O NIH alertou para possíveis “alterações do estado cognitivo do animal”. Já o Animal Legal Defense Fund, uma organização de defesa dos animais, argumentou que, se tais quimeras adquirissem uma consciência semelhante à humana, deveriam ser tratadas como sujeitos humanos de investigação.
No centro do debate está o estatuto moral: até que ponto os interesses de um ser contam moralmente e que nível de protecção lhe é devido. Um estatuto moral mais elevado exige melhores condições e maiores salvaguardas, porque implica vulnerabilidade a formas mais profundas de dano.
Compare-se o mal de ferir um animal senciente com o mal de ferir um animal auto-consciente. Um animal senciente - isto é, capaz de sentir dor ou prazer - sofre e tenta evitar a dor. Um animal auto-consciente - isto é, capaz de reflectir sobre as suas experiências - não só sente a dor como percebe que é ele próprio o sujeito dessa dor. Este tipo de sofrimento é mais complexo: não envolve apenas sensação, mas também consciência do que está a acontecer.
Daí a preocupação do NIH: se células humanas migrassem para o cérebro de um animal, poderiam introduzir novas formas de experiência e sofrimento, elevando o seu estatuto moral.
A lógica falha por trás da proibição do NIH
Ainda assim, a fundamentação por detrás da pausa do NIH tem falhas importantes. Se determinadas capacidades cognitivas - como a auto-consciência - fossem o que confere maior estatuto moral, então os reguladores deveriam mostrar uma inquietação semelhante perante a inserção de células de golfinho ou de primata em porcos. E isso não acontece.
Na prática, o círculo de seres cujos interesses são protegidos costuma ser traçado menos em torno da auto-consciência e mais em torno da pertença à espécie. Os reguladores protegem os humanos de investigação lesiva por serem humanos, não por terem (ou não) capacidades específicas como sentir dor, dominar linguagem ou raciocinar de modo abstracto.
De facto, há humanos que não possuem algumas dessas capacidades. A preocupação moral nasce da relação e do estatuto atribuído, não da presença de uma forma particular de consciência. E nenhum objectivo científico autoriza violar os interesses mais básicos de seres humanos.
Se um embrião de porco, ao receber células humanas, se transformasse em algo suficientemente próximo para contar como membro da espécie humana, as regras actuais de investigação exigiriam que recebesse protecção equivalente à humana. Mas a simples presença de células humanas não transforma porcos em humanos.
Aliás, os porcos preparados para transplantes já transportam genes humanos e, apesar disso, não são descritos como seres meio-humanos. Quando alguém recebe um rim doado por outra pessoa, também não passa a integrar a família do dador. No entanto, as políticas de investigação acabam por tratar um porco com componentes biológicos humanos como se isso pudesse torná-lo “quase humano”.
Podem existir razões sólidas para criticar o uso de animais como fábricas vivas de órgãos - incluindo preocupações sérias com o bem-estar animal.
Contudo, a justificação da pausa do NIH - a ideia de que células humanas poderiam tornar porcos “demasiado humanos” - assenta numa compreensão insuficiente do que dá a seres, e em particular aos seres humanos, legitimidade para reivindicar estatuto moral.
Dois pontos adicionais que também pesam na balança ética
Para além da rejeição e do estatuto moral, há uma dimensão de segurança biológica que não pode ser ignorada: o risco (mesmo que baixo) de transmissão de agentes infecciosos entre espécies. Por isso, a xenotransplantação tende a exigir rastreios rigorosos, monitorização prolongada dos receptores e, em alguns protocolos, acompanhamento por tempo indeterminado - o que também levanta questões sobre consentimento informado e privacidade clínica a longo prazo.
Acresce ainda o tema da justiça no acesso. Se rins de porco editados geneticamente vierem a funcionar, será essencial definir regras claras de distribuição, preços e prioridades, para que a inovação não beneficie apenas quem pode pagar ou quem está em centros altamente especializados. A forma como os sistemas de saúde integram estas terapias pode determinar se a xenotransplantação reduz desigualdades - ou se as amplia.
Monika Piotrowska, Professora Associada de Filosofia, University at Albany, State University of New York
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
Este artigo foi actualizado para corrigir o local e a data do primeiro ensaio clínico de transplante de rim de porco.
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