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Em África, a IA ajuda a proteger o raro gato-dourado-africano, facilitando o seu estudo e conservação.

Dois investigadores em uniforme registam e analisam imagens de gato-do-mato num ambiente de floresta tropical.

Numa floresta tão cerrada que a luz mal toca o solo, câmaras automáticas registam, sem ruído, a passagem de sombras felinas que raramente alguém consegue avistar a olho nu.

Fora do circuito dos safáris clássicos, investigadores africanos - apoiados por uma nova geração de algoritmos - estão a mudar a forma como se estuda um dos felinos mais discretos do planeta: o gato-dourado-africano, um predador reservado que se mantém escondido nas florestas tropicais da África Central e Ocidental.

Um felino raro, mas quase invisível para a ciência

O gato-dourado-africano é um felino selvagem com um porte que pode enganar à primeira vista: lembra um gato doméstico, mas é, em média, quase duas vezes mais pesado e mais comprido do que o animal que vive em casa. A pelagem oscila entre o castanho-dourado e tonalidades mais acinzentadas, por vezes com manchas muito ténues, difíceis de distinguir num relance.

A espécie ocupa florestas tropicais densas, quentes e húmidas, distribuídas por países como o Uganda e o Gabão. São locais de acesso complicado, com trilhos fechados, chuva frequente e visibilidade limitada - um conjunto de condições que ajuda a explicar porque é que este felino se tornou um dos menos observados no seu habitat natural.

A própria União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) continua sem conseguir indicar quantos indivíduos existem. O relatório mais recente dedicado à espécie, publicado há mais de uma década, traz poucos dados robustos de população. Persistem lacunas essenciais: onde se concentram, com que densidade ocorrem e como ajustam o comportamento quando a presença humana aumenta.

O gato-dourado-africano é frequentemente descrito como um dos felinos menos estudados e menos compreendidos de África, apesar de ocorrer numa área muito extensa.

O registo inesperado nas câmaras-armadilha

Esta história começou a ganhar outra dimensão quando o biólogo ugandês Mwezi Mugerwa, especialista em fauna florestal, instalou câmaras-armadilha no Parque Nacional da Floresta Impenetrável de Bwindi, no Uganda. A intenção inicial era acompanhar outras espécies, mas, no meio de milhares de registos, surgiu um felino cuja silhueta não encaixava no que a equipa esperava encontrar.

As imagens - pouco nítidas e captadas em condições difíceis - não permitiram uma identificação imediata. Era claramente um gato selvagem, mas diferente de leopardos, servais e outros pequenos felinos mais conhecidos na região. Para resolver a dúvida, Mugerwa recorreu a um recurso nem sempre valorizado na investigação científica: o conhecimento das comunidades.

Em conversas com caçadores e famílias que vivem nas proximidades da floresta, a resposta apareceu depressa. Várias pessoas reconheceram o animal e chamaram-lhe “Embaka”, o nome usado em línguas locais para o gato-dourado-africano. Ou seja, a espécie era conhecida por quem vive no território - o que faltava eram registos sistemáticos e dados formais.

Uma carreira dedicada ao gato-dourado-africano

A partir desse achado, Mugerwa redefiniu completamente as prioridades. Há cerca de 16 anos que concentra grande parte do seu trabalho no gato-dourado-africano, que descreve como “o felino menos conhecido de África”. O objectivo é responder ao básico, mas decisivo: quantos são, onde vivem, que ameaças enfrentam e de que forma coexistem com as pessoas.

Em 2019, criou a Aliança para a Conservação do Gato-dourado-africano (AGCCA), uma rede que junta 46 conservacionistas distribuídos por 19 países africanos. A meta é exigente: promover o primeiro grande censo da espécie em toda a sua área de distribuição, combinando tecnologia, trabalho de campo e envolvimento comunitário.

O grande entrave, porém, estava no método tradicional. Cada câmara-armadilha pode produzir dezenas de milhares de fotografias. Grande parte não é útil: folhas movidas pelo vento, ramos que caem, pessoas a passar, espécies comuns. Encontrar, nesse volume, os poucos registos do gato-dourado-africano pode exigir meses de triagem manual.

Mugerwa descreveu a revisão de fotografias uma a uma como “verdadeiramente penosa”: milhares de imagens para muito poucos registos do felino raro.

Um aspecto adicional - e muitas vezes subestimado - é a logística em zonas de floresta tropical: transportar equipamento, manter baterias, proteger cartões de memória da humidade e garantir que as câmaras não são danificadas. Pequenas falhas no terreno multiplicam o tempo necessário até se obter um conjunto de dados minimamente comparável entre regiões.

A inteligência artificial chega à floresta

Para ultrapassar este bloqueio, a organização Panthera (Estados Unidos), que colabora com a iniciativa liderada por Mugerwa, desenvolveu um algoritmo de inteligência artificial treinado especificamente para analisar imagens de armadilhas fotográficas. A ferramenta distingue rapidamente espécies diferentes e, no caso do gato-dourado-africano, consegue até separar indivíduos com base em padrões únicos da pelagem.

Na prática, a IA substitui horas de atenção humana por um processo automatizado: varre enormes conjuntos de fotografias, filtra o que é relevante e assinala potenciais registos do felino. Só depois os investigadores validam e refinam os resultados.

  • Triagem rápida de milhões de imagens;
  • Identificação de indivíduos através do padrão da pelagem;
  • Mapeamento de presença por região e por tipo de habitat;
  • Avaliação do impacto da caça e da ocupação humana;
  • Estimativa de densidade populacional em áreas protegidas e não protegidas.

Com este salto, Mugerwa sublinha um ponto decisivo: passa a ser possível discutir números e densidades, e não apenas hipóteses. No Uganda e no Gabão, por exemplo, os dados apontam para cerca de 16 gatos-dourados-africanos por 100 km², mesmo em zonas com algum nível de protecção.

O que os algoritmos mostram sobre caça, risco e medo (gato-dourado-africano)

Os modelos de inteligência artificial também permitiram comparar áreas com fiscalização mais efectiva com regiões sujeitas a forte pressão de caça. Em locais onde o uso de armadilhas e armas é mais controlado, surgem até mais 50% de indivíduos de gato-dourado-africano, além de uma distribuição mais ampla na paisagem.

As imagens revelaram ainda um padrão inquietante: onde a presença de caçadores é intensa, os gatos tornam-se muito mais nocturnos. A interpretação dos investigadores é directa: os felinos ajustam o horário de actividade para reduzir a probabilidade de encontro com pessoas - um comportamento moldado pelo medo.

Os dados indicam que, quando a caça é melhor controlada, há mais gatos e uma ocupação menos fragmentada do território, sugerindo maior segurança ecológica.

Curiosamente, este felino nem sempre é o alvo principal. Muitas capturas acontecem por acidente: o gato-dourado-africano fica preso em armadilhas não selectivas colocadas para espécies de carne de caça, como porcos-do-mato e alguns antílopes. São dispositivos que ferem ou matam qualquer animal que passe.

“Embaka”: conservação com as comunidades no centro

Ao perceber que a tecnologia, por si só, não resolveria o problema, Mugerwa lançou o projecto Embaka, uma iniciativa de conservação comunitária com foco explícito no gato-dourado-africano. O projecto envolve mais de 8 000 famílias que vivem dentro ou nas imediações da área de ocorrência do felino.

O trabalho assenta numa combinação de medidas:

  • Campanhas de sensibilização sobre a espécie e a sua função ecológica;
  • Apoio a alternativas económicas que reduzam a dependência da caça;
  • Monitorização participativa de armadilhas e indícios de caça ilegal;
  • Formação de moradores para colaborarem no registo de fauna.

A lógica é pragmática: quando as comunidades ganham participação real e benefícios concretos ao protegerem a floresta, a pressão sobre o ecossistema tende a baixar. Em paralelo, a IA continua a processar dados, a identificar indivíduos e a afinar decisões de conservação com base em evidência.

A longo prazo, esta abordagem também reforça capacidades locais: formar equipas no terreno, criar rotinas de recolha de dados e estabelecer canais de comunicação entre parques, universidades e comunidades torna o esforço menos dependente de missões pontuais e mais sustentável ao longo dos anos.

O que quer dizer “densidade de 16 indivíduos por 100 km²”?

Para quem não está habituado a métricas de conservação, estes valores podem soar abstractos. Uma densidade de 16 indivíduos por 100 km² significa, de forma simples, que numa área aproximada à do município de Lisboa (cerca de 100 km²) existiriam pouco mais de uma dúzia de gatos-dourados-africanos, dispersos e difíceis de detectar.

Esta baixa densidade aumenta a vulnerabilidade da espécie. Se a caça crescer, se a floresta encolher ou se conflitos com pessoas se intensificarem, as populações podem ficar isoladas, perder conectividade genética e desaparecer localmente com maior facilidade. Por isso, indicadores como densidade e distribuição são centrais para orientar políticas públicas e estratégias de protecção.

Aspecto Situação observada
Densidade em áreas protegidas Cerca de 16 indivíduos por 100 km² em países como o Uganda e o Gabão
Impacto do controlo da caça Até mais 50% de gatos em zonas com fiscalização mais forte
Padrão de actividade Maior nocturnidade em regiões com presença humana intensa
Principal ameaça indirecta Armadilhas destinadas a outras espécies, que capturam o felino de forma acidental

Benefícios, riscos e próximos passos da IA na conservação

A aplicação de inteligência artificial na conservação tem vantagens claras. Ao reduzir o tempo gasto em tarefas repetitivas, os investigadores podem concentrar-se em questões de maior alcance, como o efeito a longo prazo da caça, das estradas e da expansão agrícola sobre o gato-dourado-africano. Além disso, os algoritmos criam oportunidades para acompanhar outras espécies discretas, incluindo pequenos felinos, civetas e mustelídeos.

Ao mesmo tempo, a tecnologia traz riscos que não podem ser ignorados. Modelos treinados com conjuntos limitados de imagens podem falhar quando são aplicados em novos contextos. Em florestas pouco estudadas, a IA pode confundir espécies parecidas ou não detectar animais parcialmente ocultos. Sem validação humana constante, pequenos erros transformam-se em estatísticas enganadoras.

Há ainda uma questão sensível relacionada com dados espaciais: informação detalhada sobre a localização de espécies ameaçadas deve ser protegida. Se cair em mãos erradas, pode facilitar caça furtiva ou tráfico. Projectos como o de Mugerwa precisam, por isso, de equilibrar transparência científica com segurança no tratamento de dados de campo.

Para quem acompanha este tema de fora, estas iniciativas ajudam também a clarificar conceitos frequentemente usados, mas nem sempre explicados:

  • Caça furtiva / caça ilegal: qualquer actividade de caça que viole leis locais ou acordos, incluindo a utilização de armadilhas proibidas.
  • Câmara-armadilha (armadilha fotográfica): câmara automática accionada por movimento ou calor, usada para registar animais sem interferir no seu comportamento.
  • Conservação comunitária: modelos em que as populações locais participam activamente na protecção da fauna e da floresta.
  • Densidade populacional: número de indivíduos de uma espécie numa área específica; um indicador-chave para avaliar risco e orientar medidas.

Se a combinação entre IA, alianças internacionais e liderança das comunidades continuar a consolidar-se, o gato-dourado-africano poderá deixar de ser apenas uma presença rara e quase invisível nas florestas da África Central - e passar a ocupar um lugar mais seguro nas estratégias globais de conservação de felinos.

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