A construtora automóvel alemã apresentou agora os seus resultados financeiros de 2025 - e o retrato é tudo menos animador, explicado por uma combinação de pressões internas e externas.
O clima, de resto, não tem sido favorável para a indústria automóvel europeia. A Volkswagen registou uma queda de 44% no lucro líquido em 2025, que desceu para 6,9 mil milhões de euros. Também o lucro operacional sofreu um forte recuo, encolhendo para 8,9 mil milhões de euros, abaixo dos 9,4 mil milhões esperados pelos analistas. É um nível que o grupo não via há quase uma década, desde a crise associada ao dieselgate (2015).
Apesar disso, as receitas pouco mexeram: o volume de negócios manteve-se perto de 322 mil milhões de euros. Já as entregas globais abrandaram ligeiramente, fixando-se em 8,98 milhões de veículos.
A gravidade do momento fica ainda mais evidente ao olhar para a Porsche (filial do grupo): o seu lucro operacional colapsou 98%, passando de 5,3 mil milhões de euros para apenas 90 milhões de euros.
Volkswagen em 2025: um contexto mundial desfavorável
As razões apontadas são várias. O director financeiro Arno Antlitz descreve um “ambiente fundamentalmente diferente”, marcado por tensões geopolíticas e por uma concorrência mais agressiva em praticamente todos os mercados relevantes.
Nos Estados Unidos, os direitos aduaneiros aplicados pela administração Trump penalizaram as vendas. Em paralelo, a redução das ajudas governamentais à compra de veículos eléctricos travou a procura, criando incerteza adicional e colocando pressão sobre projectos em curso.
Na China, tradicionalmente o mercado mais importante da Volkswagen, o cenário também se deteriorou. Marcas locais como BYD, Geely e Nio têm ganho quota a grande velocidade. A Volkswagen perdeu a liderança para a BYD em 2024 e, em 2025, caiu para terceiro lugar ao ser ultrapassada também pela Geely. Para tentar virar o jogo, o grupo está a apostar numa abordagem “na China, para a China”, com desenvolvimento e cadeias de abastecimento totalmente locais - resta perceber se será suficiente para recuperar terreno.
Pressão adicional: electrificação, custos e confiança do consumidor
Para lá dos factores já identificados, o sector vive uma transição dispendiosa para a electrificação: desenvolvimento de plataformas, software, baterias e adaptação de fábricas exigem investimento elevado antes de os volumes compensarem. Quando a procura por eléctricos abranda (ou quando os incentivos diminuem), as marcas ficam expostas a margens mais apertadas e a inventários difíceis de gerir.
Acresce que a incerteza económica internacional tem pesado no comportamento do consumidor, que adia compras de maior valor e privilegia opções mais baratas. Num mercado onde os construtores chineses competem com preços agressivos e ciclos de produto rápidos, os fabricantes europeus sentem mais dificuldade em proteger margens sem comprometer volumes.
Plano de reestruturação massivo
Perante este enquadramento, a Volkswagen está a acelerar medidas de contenção. O CEO Oliver Blume anunciou um corte de 50 000 postos de trabalho na Alemanha até 2030, um plano que ultrapassa largamente as 35 000 reduções inicialmente previstas. A decisão está a gerar tensão, sobretudo porque, em contraste, os bónus da gestão se mantêm: o conselho de administração recebeu cerca de 13,6 milhões de euros em prémios no total.
Perspectiva para 2026: recuperação gradual, mas com prudência
Ainda assim, para 2026 o grupo aponta para uma recuperação lenta. A margem operacional deverá subir para entre 4% e 5,5%, depois de 2,8% no ano anterior. O volume de negócios poderá crescer ligeiramente, numa faixa de 0% a 3%.
São previsões cautelosas, que sugerem uma possível saída de crise - mas apenas se o contexto internacional, a evolução dos direitos aduaneiros e a procura por veículos eléctricos não voltarem a deteriorar-se.
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