Capaz de pôr a engenharia espacial no limite com a SpaceX, o empresário parece, ainda assim, ter dificuldades em fazer cumprir aquilo que nunca deveria ser negociável: as regras de segurança e saúde no trabalho.
Desde 2019, a The Boring Company (uma empresa de Musk já escrutinada por práticas ambientais controversas) está a escavar sob Las Vegas uma rede de túneis destinada a “descongestionar” o trânsito, com Tesla a circularem em corredores estreitos - um plano apresentado como o primeiro degrau rumo à “mobilidade do futuro”. Para acelerar a cura do betão recentemente projetado, as equipas aplicam nas paredes do túnel um agente de endurecimento. O risco surge quando esse produto se espalha sobre solo húmido: reage com a terra encharcada e transforma-se numa lama alcalina extremamente irritante, agressiva para a pele.
Um treino de resgate que se transforma num pesadelo
No final de 2024, bombeiros do Departamento de Bombeiros do Condado de Clark desceram aos túneis para um exercício de preparação para operações de salvamento subterrâneo. O problema é que não tinham sido informados sobre a presença da referida lama. Trabalhadores da The Boring Company tentaram removê-la, mas ficaram ainda múltiplas poças ao longo do percurso.
À medida que avançavam no túnel, vários bombeiros sofreram queimaduras químicas ao contacto com esse composto altamente corrosivo e acabaram por ser hospitalizados. O cenário que lhes foi apresentado era o de um treino “normal” em ambiente subterrâneo - não o de uma intervenção numa área contaminada por um agente industrial reativo, que exigiria, em condições regulares, equipamento de proteção individual específico e procedimentos de descontaminação.
Um dos bombeiros relatou que as suas “botas ficaram cheias desta lama química”, o que indica que caminharam literalmente dentro do produto. Segundo a Fortune, alguns foram evacuados com urgência para o hospital e tratados por lesões suficientemente profundas para deixarem cicatrizes permanentes.
Perante isto, não faz sentido falar em simples “descuido”. O ponto central é outro: a The Boring Company falhou no dever de sinalizar e comunicar o perigo, expondo profissionais de um serviço público a um risco evitável, sem informação adequada e, portanto, sem consentimento esclarecido.
The Boring Company e segurança no trabalho: uma defesa inaceitável
A Occupational Safety and Health Administration (OSHA) do Nevada abriu uma investigação e imputou à The Boring Company três infrações no escalão mais grave, classificadas como “deliberadas” - ou seja, cometidas com conhecimento prévio do perigo.
Em vez de assumir responsabilidades, a empresa optou por uma estratégia de fuga: tentou transferir a culpa para os próprios bombeiros. Numa carta enviada à OSHA e citada pela Fortune, um advogado da empresa alegou que “teriam sido as equipas do serviço de incêndio a aplicar incorretamente os procedimentos”. A narrativa é particularmente chocante porque ignora o essencial: sem aviso prévio sobre o agente e os seus efeitos, não há procedimento que compense a ausência de informação crítica.
Após análise do processo, a OSHA aplicou uma coima de 425 595 dólares, calculada com base no valor máximo previsto para cada violação considerada voluntária.
A reviravolta política que apagou as multas
No próprio dia em que as sanções foram conhecidas, Steve Davis (presidente da The Boring Company e aliado próximo de Musk) telefonou diretamente para o gabinete do governador do Nevada, Joe Lombardo. No dia seguinte, foi marcada uma reunião privada entre Davis e vários altos responsáveis do Estado. Segundo antigos elementos da agência citados pela Fortune, uma reunião deste tipo, a decorrer durante um processo sancionatório, nem sequer deveria acontecer, já que a OSHA não trata contestações em encontros políticos improvisados.
E, pouco depois, deu-se o “milagre”: em poucos dias, tudo desapareceu. As infrações registadas e as coimas associadas foram, na prática, apagadas, como se a dívida da The Boring Company tivesse sido anulada. Para agravar, a própria OSHA não registou corretamente a retirada das sanções, apesar de as regras internas o exigirem.
Mais: um ficheiro interno foi alterado para eliminar qualquer referência à reunião entre a The Boring Company e o gabinete do governador. Confrontada com o assunto, a OSHA acabou por admitir que a remoção tinha ocorrido e, mais tarde, repôs a menção original no processo.
De forma muito diplomática, a isto chama-se um “conjunto de circunstâncias”. Na prática, é um exemplo claro de um poder público a ajoelhar perante um parceiro económico de peso. Há anos que o Nevada estende a passadeira vermelha a Musk e às suas empresas: benefícios fiscais, flexibilização regulatória, exceções feitas à medida e uma complacência assumida sempre que está em causa um nome com influência.
O que este caso revela sobre obras subterrâneas e responsabilização
Projetos subterrâneos exigem uma disciplina de segurança particularmente rigorosa: ventilação, gestão de poeiras e químicos, planos de emergência e comunicação transparente de perigos a qualquer equipa externa - sobretudo quando envolve serviços de socorro. Quando a informação falha, o risco não é apenas “operacional”; torna-se uma ameaça direta à integridade física de quem entra no local para treinar ou intervir.
Também fica exposta a fragilidade da fiscalização quando existe pressão política. A credibilidade de entidades como a OSHA depende de registos completos, processos auditáveis e decisões que resistam a contactos de bastidores. Sem isso, o sistema fica vulnerável ao vento dominante - sobretudo quando sopra do Vale do Silício.
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