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Pela primeira vez a Stellantis apresentou prejuízos anuais. E agora?

Automóvel elétrico azul exposto em sala moderna com paredes de vidro e painel informativo.

O ano de 2025 ficou assinalado como um dos períodos mais difíceis na (ainda) breve trajetória da Stellantis, grupo criado em 2021. Pela primeira vez desde a sua constituição, o conglomerado automóvel fechou o exercício com prejuízos anuais.

O prejuízo líquido anual atingiu 22,3 mil milhões de euros, um contraste evidente com os lucros líquidos de 5,52 mil milhões de euros registados em 2024. Este desfecho resulta, acima de tudo, de 25,4 mil milhões de euros em encargos extraordinários associados a investimentos na eletrificação - investimentos que, segundo a empresa, já não deverão proporcionar o retorno inicialmente previsto e que obrigaram a uma revisão da orientação estratégica.

Se se excluir essa correção contabilística do valor dos ativos ligados à eletrificação, o quadro continua negativo, ainda que substancialmente menos severo: o grupo teria apurado um prejuízo operacional de 842 milhões de euros. Para referência, em 2024 a Stellantis tinha alcançado um lucro operacional de 8648 milhões de euros. Ainda assim, trata-se de um valor relativamente contido face à escala global do grupo.

“Os resultados anuais de 2025 refletem o custo de termos sobrestimado o ritmo da transição energética e a necessidade de redefinir o nosso negócio em torno da liberdade dos nossos clientes de escolher entre tecnologias elétricas, híbridas e de combustão interna”.

Antonio Filosa, CEO da Stellantis

Apesar do resultado anual negativo, a Stellantis sublinha que a segunda metade de 2025 foi significativamente mais consistente - correspondendo ao primeiro semestre completo da nova administração. As receitas líquidas totais recuaram 2% face a 2024, para 153,5 mil milhões de euros, mas, observando apenas o segundo semestre, verificou-se um crescimento de 10%.

A melhoria também se refletiu nas entregas: o grupo reportou um aumento de 11% face ao segundo semestre de 2024, o que equivale a mais 277 mil veículos, elevando o total para 2,8 milhões de entregas.

Para além dos números, 2025 evidenciou um ponto crítico para o setor: o equilíbrio entre investimentos em novas plataformas, custos de conformidade e a necessidade de manter gamas competitivas em várias tecnologias. A capacidade de ajustar a oferta (elétrica, híbrida e combustão) ao ritmo real da procura - sem penalizar margens - tornou-se um fator determinante para a sustentabilidade financeira.

Outro aspeto relevante prende-se com a execução industrial e a cadeia de abastecimento. Uma transição tecnológica menos linear do que o esperado exige flexibilidade nas fábricas, gestão mais rigorosa de inventário e decisões de alocação de capital com menor tolerância ao risco, especialmente em mercados onde o enquadramento regulatório e os incentivos variam de forma acentuada.

Resultados por mercado da Stellantis

Num olhar regional, quase todas as geografias registaram quedas nas receitas líquidas, com a América do Sul a destacar-se como exceção. Já no indicador de vendas aos concessionários, apenas a Europa (o maior mercado do grupo) apresentou recuo, enquanto China, Índia e Ásia-Pacífico se mantiveram estáveis.

Na América do Norte, as receitas diminuíram 4%, pressionadas por tarifas e por efeitos cambiais. Ainda assim, as vendas aos concessionários aumentaram 3%, para 1,472 milhões de unidades (face a 1,432 milhões em 2024), impulsionadas sobretudo pelos Ram 1500, Jeep Wrangler, Jeep Gladiator e Chrysler Pacifica.

Na Europa alargada, a receita líquida contraiu 2%, acompanhada por uma redução de 3% nas vendas. A Stellantis atribuiu a descida a um menor volume de vendas de modelos Peugeot, Opel e FIAT, bem como à pressão de preços.

A América do Sul foi, como referido, o único mercado a combinar crescimento em vendas (10%) e em receitas líquidas (2%), com contributos relevantes de países como Argentina, Brasil e Chile. Em China, Índia e Ásia-Pacífico, o volume de vendas manteve-se estável; ainda assim, a receita líquida recuou 6,27%. Por fim, no Médio Oriente e África, a receita líquida caiu 4%, enquanto as vendas avançaram 7%.

A Maserati - a única marca do grupo com resultados divulgados em separado - também atravessou um ano difícil, com uma diminuição de 314 milhões de euros nas receitas.

Previsões para 2026

A Stellantis antecipa um 2026 tão exigente como 2025, embora com uma perspetiva mais confiante. A empresa aponta para um aumento das receitas líquidas num percentual médio de um dígito e para uma margem de lucro operacional positiva, embora reduzida - em 2025, esta margem foi de -0,5%.

Para sustentar essa evolução, o grupo deposita expectativas nos modelos que já chegaram ou estão prestes a chegar ao mercado. Na Europa, sobressaem o Citroën C5 Aircross, o Jeep Compass e o FIAT 500 Hybrid. Na América do Norte, o crescimento deverá ser liderado pelo Jeep Cherokee, pelo Dodge Charger Sixpack (com seis cilindros em linha) e pela reintrodução da Ram 1500 Hemi V8.

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