Os fabricantes europeus vivem um período de instabilidade como há muito não se via. E, num cenário já pressionado por margens mais curtas e por consumidores mais cautelosos, prepara-se uma nova ofensiva chinesa no mercado automóvel francês: chama-se Chery.
Depois de BYD, MG Motor, Leapmotor e Xpeng, é a vez do grupo Chery avançar para França. Criada em 1997, em Wuhu (China), a empresa apresenta-se como o maior exportador automóvel chinês, referindo mais de 12 milhões de veículos vendidos fora do seu país e presença em dezenas de mercados.
Chery, Omoda e Jaecoo: duas submarcas para conquistar França
A entrada é feita através de duas submarcas concebidas para exportação. A Omoda posiciona-se em crossovers com foco em design e tecnologia, enquanto a Jaecoo aposta em SUV de perfil mais robusto e orientado para a aventura. Para dar suporte ao arranque, a filial francesa - sediada em Paris - planeava abrir 70 pontos de venda já nesta primavera, com o objectivo de ultrapassar os 100 numa fase posterior.
Um mercado automóvel francês fragilizado desde a pandemia
A lógica por trás do plano é assumida sem rodeios. Em declarações à BFM Business, Lionel French Keogh, director comercial da Chery France, enquadra a estratégia como resposta a uma mudança estrutural no mercado automóvel francês. Segundo o responsável, historicamente o país movia-se em torno de 2 milhões de automóveis por ano.
Com a Covid-19, esse patamar terá descido para cerca de 1,5 a 1,6 milhões. Na leitura do dirigente, um dos factores determinantes foi a escalada do preço médio de um automóvel novo: de aproximadamente 25 000 € para perto de 35 000 € em poucos anos. Um salto que, na prática, afastou uma parte dos compradores do “novo” - e que a Chery pretende transformar numa oportunidade.
Nesse contexto, a Jaecoo surge como a ponta de lança da investida francesa do grupo. O plano passa por híbridos plug-in com autonomia eléctrica que pode ultrapassar os 100 km, dependendo da versão e dos ciclos de homologação, apresentados com preços mais acessíveis do que os praticados por muitos concorrentes.
“Voltar a dar acesso a um automóvel novo”
A abordagem não é inédita na Europa. Em 2025, o Jaecoo 7 conseguiu entrar no top 10 dos híbridos plug-in no continente, com uma quota de mercado a crescer de forma expressiva à medida que as entregas ganharam ritmo.
Para Lionel French Keogh, a chegada da Chery deverá “voltar a dar acesso a um automóvel novo” a quem ficou de fora, permitindo “deslocar-se com total liberdade”. Para executar esse plano, o grupo montou uma equipa de 50 pessoas dedicada ao mercado francês.
Um ponto sensível, sobretudo para marcas em lançamento, será a confiança no pós-venda. A expansão rápida de pontos de venda tende a ser apenas a primeira etapa: a consolidação passa por assistência, gestão de peças, tempos de reparação competitivos e uma experiência consistente entre concessionários - factores que pesam tanto como o produto quando o objectivo é convencer clientes habituados a redes europeias históricas.
Também a transição energética e a evolução da regulamentação terão impacto directo na receptividade do público. Num período em que o custo de aquisição é decisivo, propostas híbridas plug-in com autonomia eléctrica relevante podem atrair quem quer reduzir consumos no dia-a-dia sem depender exclusivamente do carregamento público - ao mesmo tempo que aumentam a pressão sobre os fabricantes já instalados.
Metas ambiciosas e pressão acrescida sobre os fabricantes europeus
Para o primeiro ano de operação, a Chery aponta a 10 000 entregas em França - um volume que ficaria claramente acima do alcançado pela BYD no mercado francês em 2024. É um objectivo exigente, mas sustentado pelo historial internacional do grupo. Para os construtores europeus, já fragilizados, a equação torna-se progressivamente mais desconfortável à medida que novos actores ganham escala e visibilidade.
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