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“Criada para o apocalipse”, a Tesla Cybertruck torna-se um dos piores carros já fabricados.

Veículo elétrico futurista com design angular e corpo metálico exibido em espaço interior moderno.

A Tesla acaba de emitir o décimo recall do Cybertruck. Cerca de 10% de toda a frota está abrangida - um sinal preocupante para a marca e um potencial prenúncio de um problema industrial de grande dimensão.

As promessas de Elon Musk de um veículo “indestrutível”, capaz de resistir ao pior cenário imaginável, colidem com a experiência real de muitos proprietários. Desta vez, 6 197 unidades são chamadas à oficina por causa de uma barra luminosa opcional de tejadilho, conhecida como “Off Road Lightbar”. O componente, pensado para melhorar a visibilidade em utilização fora de estrada, acaba por ter um ponto fraco difícil de justificar: a fixação depende apenas de cola.

De acordo com a National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA), a entidade norte-americana responsável pela segurança rodoviária, os técnicos terão aplicado uma combinação de adesivos inadequada, deixando a peça com risco de se soltar durante a condução. Até ao momento, a Tesla afirma ter registado 619 reclamações de garantia e um relatório de campo, sem acidentes conhecidos. Ainda assim, o recall avança - e, ao contrário de outras correções da marca, não se resolve com uma simples atualização de software.

A solução proposta é claramente “mecânica”: a Tesla terá de inspecionar as unidades afetadas e voltar a fixar as barras defeituosas recorrendo a uma ancoragem mecânica e a fita adesiva reforçada. Não é exatamente o tipo de intervenção que se espera num produto desta categoria e preço.

Rappels em catadupa no Tesla Cybertruck

Este episódio não é isolado. Em março, praticamente todos os Cybertruck entregues já tinham sido alvo de recall porque painéis em aço inoxidável podiam literalmente desprender-se em andamento - novamente devido a uma cola descrita como sensível às condições ambientais. Noutras campanhas, o modelo foi chamado por questões como acelerador a ficar preso, faróis com encandeamento excessivo e peças de carroçaria com tendência a soltar-se. Tudo isto num veículo com menos de dois anos de comercialização.

Produção abrandada e recursos desviados na gigafactory de Austin (Texas)

O contexto industrial também ajuda a perceber a dimensão do problema. A produção do Cybertruck já terá sido interrompida em dezembro de 2024, por falta de procura. Em paralelo, parte dos colaboradores dedicados à pick-up elétrica na gigafactory de Austin, no Texas, foi redirecionada para o desenvolvimento do Model Y, um modelo significativamente mais rentável para a empresa.

Os números de vendas reforçam a tendência: no terceiro trimestre de 2025, apenas 5 385 Cybertruck foram vendidos, face a mais de 14 000 no mesmo período do ano anterior - uma queda de 63%. Se a trajetória se mantiver, poderá ficar na história como uma das decisões industriais mais penalizadoras do sector automóvel.

Consequências para proprietários: confiança, valor de revenda e assistência

Uma sequência tão longa de recalls tende a ter efeitos que vão além do custo direto de reparação. A confiança do consumidor é posta à prova, o valor de revenda pode degradar-se e a perceção pública do produto fica marcada por dúvidas sobre controlo de qualidade. Para os proprietários, há ainda o inconveniente logístico: marcações em oficina, indisponibilidade do veículo e incerteza sobre prazos - especialmente quando a solução implica intervenção física e não apenas software.

Também é inevitável o impacto na gestão pós-venda: campanhas repetidas pressionam a capacidade das oficinas e podem aumentar tempos de espera por peças e componentes, sobretudo quando se trata de um modelo com cadeia de abastecimento ainda em estabilização.

Porque é que o Cybertruck está proibido na Europa (UE)

Importa recordar que o Cybertruck é proibido na Europa. A sua carroçaria angulosa e extremamente rígida não cumpre as normas de segurança da União Europeia (UE) relacionadas com a proteção de peões e ciclistas. Além disso, o seu peso total superior a 3,5 toneladas impede que seja enquadrado na categoria de veículos ligeiros de passageiros, criando barreiras adicionais de homologação e utilização.

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