Num contexto em que Ottawa dá sinais de procurar um maior entendimento económico com a China, ao mesmo tempo que mantém tensões latentes com os Estados Unidos, surgem indicações de que o governo do Canadá estará a avançar com a compra de novos caças furtivos F-35 para equipar a sua Força Aérea. De acordo com relatos divulgados por meios locais, o país terá canalizado verbas para adicionar um lote de 14 aeronaves às 16 já encomendadas em anos anteriores - um movimento que reforça a intenção canadiana de modernizar capacidades de combate que, actualmente, assentam sobretudo nos CF-18 Hornet.
Canadá e os caças furtivos F-35A: investimento adicional e gestão de prazos
Fontes militares ouvidas pela Radio-Canada referem que o Canadá terá investido nesta aquisição para não perder a sua posição na fila de clientes internacionais da plataforma. O argumento central prende-se com o facto de o F-35A envolver ciclos de produção longos, exigindo encomendas com antecedência para garantir calendários de entrega e disponibilidade de aeronaves.
Até ao momento, o assunto não foi anunciado oficialmente pelo governo actualmente liderado por Mark Carney. As mesmas fontes falaram sob anonimato, por não estarem autorizadas a tornar públicas estas informações.
Programa do F-35A “em revisão” e o objectivo de 88 unidades
Apesar destes sinais, o Canadá mantém uma posição oficial segundo a qual o programa de aquisição do F-35A continua em revisão. Essa revisão poderá traduzir-se numa redução do número total de aeronaves a comprar aos EUA, um total que, na referência actualmente mais citada, aponta para cerca de 88 unidades.
Questionado pela imprensa, o Ministério da Defesa canadiano optou por não confirmar os gastos mencionados pelas fontes militares, reiterando que a operação continua a ser avaliada. Importa recordar que este processo de reavaliação ganhou força pouco depois da tomada de posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, período em que foram proferidas ameaças de anexação e aplicadas tarifas sobre produtos considerados estratégicos para a economia canadiana.
Saab e o Gripen E/F: alternativa mais acessível na mesa de Ottawa
Um dos factores que alimenta a hipótese de uma redução do número final de F-35A é o esforço da sueca Saab para promover o Gripen E/F como opção mais económica. A empresa afirmou estar preparada para fornecer até 72 novos aviões, acompanhando a proposta com a possibilidade de produzir parte da frota em território canadiano e de gerar até 10 000 novos postos de trabalho no país.
A esta oferta soma-se ainda a perspectiva de Ottawa poder assegurar um papel na produção de aeronaves do mesmo modelo destinadas à Ucrânia, o que torna a proposta mais atractiva para a actual administração.
Interoperabilidade e compromissos internacionais como variável adicional
Para além do custo e da política industrial, a escolha entre F-35 e alternativas como o Gripen E/F pode ter impacto na interoperabilidade com parceiros e em missões conjuntas, sobretudo em operações em coordenação com os Estados Unidos. A integração em redes, doutrina e procedimentos partilhados tende a pesar na avaliação estratégica, particularmente quando o objectivo é garantir prontidão e compatibilidade ao longo de décadas.
Outro ponto frequentemente associado a este tipo de programas é o investimento indirecto: infra-estruturas, formação de pilotos e técnicos, simuladores, armamento e suporte logístico. Mesmo quando o número de aeronaves varia, a decisão tem efeitos estruturais na forma como a Força Aérea sustenta a transição a partir dos CF-18 Hornet e gere o risco de lacunas temporárias de capacidade.
Críticas, incerteza e a dimensão negocial com Washington
As demoras na decisão final sobre os futuros caças canadianos já motivaram críticas entre analistas locais, que alertam para os riscos de continuar a investir num programa sem garantias claras de continuidade ao longo do tempo. Em paralelo, outros especialistas defendem que a potencial compra terá deixado de ser um dossiê estritamente militar, passando a integrar o conjunto de instrumentos de negociação de Ottawa perante Washington, no âmbito de disputas comerciais e diplomáticas.
Essa leitura acrescenta incerteza ao horizonte dos planos de modernização da Força Aérea canadiana, ao ligar a evolução do processo a variáveis externas que vão além do desempenho técnico e do calendário de substituição dos CF-18 Hornet.
Imagem de capa: Master Sgt. Mary Greenwood – USAF
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