À medida que o Halloween se aproxima, voltam a circular histórias de bruxas e das suas poções, quase sempre acompanhadas por plantas sinistras como a beladona, a mandrágora e a artemísia.
Envoltas em mito e folclore, estas espécies foram, durante séculos, associadas a encantamentos e feitiçaria. No entanto, por detrás da fama assustadora existe uma história farmacológica rica - e, em alguns casos, uma relevância médica que ainda hoje se mantém.
Beladona: alcaloides tropânicos, toxicidade e aplicações na medicina moderna
A beladona (Atropa belladonna), também conhecida como solanácea-mortal, tem um passado longo e paradoxal: tanto foi temida como veneno, como valorizada enquanto remédio. O próprio nome - que significa “mulher bonita” - remete para um uso cosmético no período do Renascimento, quando se aplicava o sumo das bagas para dilatar as pupilas e criar um olhar considerado mais sedutor.
Esse “encanto”, porém, tem um custo elevado. A beladona é extremamente tóxica: a ingestão de apenas algumas folhas ou bagas pode ser fatal, e o simples contacto pode provocar irritação cutânea. Em diferentes culturas, também foi procurada pelos seus efeitos alucinatórios.
A força farmacológica da planta deve-se aos alcaloides tropânicos, nomeadamente a atropina e a escopolamina. Estas substâncias bloqueiam a acção da acetilcolina, um mensageiro químico que transmite sinais entre células nervosas no sistema nervoso parassimpático.
É este sistema que contribui para regular o movimento muscular e funções essenciais do organismo, como a frequência cardíaca, a respiração, a memória, a aprendizagem, a transpiração, a digestão e a micção.
Na prática clínica actual, a atropina é utilizada para dilatar a pupila durante exames oftalmológicos, tratar bradicardia (frequência cardíaca lenta) e actuar como antídoto em intoxicações por organofosforados - exposição que pode ocorrer com certos pesticidas e com agentes de guerra química. Já a escopolamina é prescrita para o enjoo de movimento e para náuseas no pós-operatório.
A investigação científica continua a reforçar a relevância médica da beladona, mas as preocupações de segurança não desaparecem. Várias entidades de saúde emitiram alertas sobre produtos homeopáticos com beladona, sobretudo os dirigidos a bebés para dentição e cólicas, após notificações de convulsões e dificuldades respiratórias.
Também é prudente ter cautela quando a beladona é usada por pessoas que tomam outros medicamentos capazes de aumentar o risco de efeitos adversos, incluindo anti-histamínicos, antidepressivos e antipsicóticos.
Um ponto adicional importante é reconhecer sinais típicos de intoxicação por substâncias com efeito anticolinérgico (como os alcaloides tropânicos): boca seca marcada, visão turva, batimentos acelerados, confusão, agitação e retenção urinária. Perante suspeita de ingestão ou exposição significativa, a prioridade deve ser procurar ajuda médica urgente - e não recorrer a “remédios caseiros” -, porque a evolução pode ser rápida e grave.
Mandrágora: mitos antigos, usos tradicionais e limites da evidência científica
Outra planta da família das solanáceas é a mandrágora (Mandragora officinarum), célebre pela raiz que muitas vezes lembra uma figura humana e que alimentou lendas durante séculos, desde textos da Grécia antiga até referências bíblicas.
Segundo o folclore, arrancar uma mandrágora do solo libertaria um grito mortal - um motivo tão persistente que acabou por entrar na cultura popular moderna, em particular numa conhecida série literária e cinematográfica sobre feitiçaria.
Na tradição de bruxaria, acreditava-se que a mandrágora era ingrediente central de unguentos “voadores”, que podia ser usada como amuleto de fertilidade e protecção e que integrava poções amorosas - possivelmente por causa dos seus efeitos alucinatórios. Em termos históricos, foi empregue como anestésico, sedativo e auxiliar de fertilidade.
Tal como a beladona, a mandrágora contém alcaloides tropânicos, incluindo atropina e escopolamina, com propriedades psicoactivas. Um estudo de 2022 reuniu 88 usos medicinais tradicionais atribuídos à mandrágora, que vão desde alívio da dor e sedação até problemas cutâneos e perturbações digestivas.
Ainda assim, a ciência não confirma necessariamente todas essas alegações. A escopolamina pode actuar como antiespasmódico, reduzindo espasmos dos músculos do intestino e ajudando em queixas digestivas.
No cérebro, ao bloquear receptores antimuscarínicos M1, também pode provocar sonolência. Já os extractos de folhas de mandrágora apresentam resultados inconsistentes: há indícios de que podem, em vez de tratar, desencadear dermatite.
Artemísia (mugwort): tradição, moxabustão e compostos com interesse terapêutico
A artemísia (espécies de Artemisia) é outra erva frequentemente associada tanto à magia como à cura. Em várias tradições, era usada para intensificar sonhos e afastar espíritos malignos. Em 2015, a atribuição de um Prémio Nobel destacou a descoberta da artemisinina, um composto antimalárico obtido de Artemisia annua (artemísia-anual).
Na medicina tradicional chinesa, a artemísia é central na moxabustão, uma prática em que a erva é queimada perto de pontos de acupunctura para estimular processos de recuperação. Em contextos de herbalismo, também é utilizada para lidar com irregularidades menstruais e problemas digestivos.
A artemísia-comum surge ainda como ingrediente homeopático na Farmacopeia Europeia, onde é referida para auxiliar em ciclos menstruais irregulares, sintomas da menopausa e condições nervosas como sonambulismo, convulsões, epilepsia e ansiedade.
As partes aéreas da artemísia servem para produzir óleo essencial, rico em compostos como cânfora, pineno e cineol. Estes componentes são conhecidos por apresentarem propriedades antioxidantes, antibacterianas e antifúngicas.
A artemisinina presente na planta poderá estimular suavemente o útero e contribuir para regular o ciclo menstrual. Estudos em animais sugerem que o extracto de folhas de Artemisia pode ajudar em doenças inflamatórias da pele, ao reduzir a libertação de substâncias pró-inflamatórias por células do sistema imunitário.
Apesar disso, a evidência clínica continua a ser limitada, sendo necessária investigação mais rigorosa para confirmar segurança e eficácia. Além do mais, a artemísia pode desencadear reacções alérgicas, como irritação cutânea e dificuldades respiratórias, e deve ser evitada durante a gravidez, uma vez que pode induzir contracções uterinas.
Vale ainda sublinhar que “natural” não é sinónimo de “seguro”. A composição de óleos essenciais e extractos varia com a espécie, o método de preparação e a dose, o que pode afectar tanto o efeito como o risco. Em especial, combinar preparados de plantas com fármacos deve ser feito com orientação profissional, devido a potenciais interacções e a efeitos cumulativos.
Entre lenda e laboratório: a verdadeira “magia” da beladona, da mandrágora e da artemísia
À primeira vista, os relatos sobre estas plantas podem soar a fantasia, mas a realidade é igualmente cativante. Não se trata de feitiçaria - trata-se de química: moléculas complexas que moldaram tanto práticas antigas de cura como intervenções da medicina contemporânea.
À medida que os investigadores continuam a explorar o seu potencial, a beladona, a mandrágora e a artemísia lembram-nos que muitas lendas nasceram de efeitos farmacológicos reais. Por isso, quando este Halloween surgir a tentação de “mexer o caldeirão”, convém recordar que a verdadeira magia destas ervas não está na superstição, mas na ciência.
Dipa Kamdar, docente sénior de Prática Farmacêutica, Universidade de Kingston
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