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Faz sentido limitar a potência e a aceleração dos carros?

Carro desportivo cinzento escuro com faróis LED brilhantes numa garagem moderna e vidro reflexivo.

Com a eletrificação, a potência deixou de ser um privilégio quase exclusivo dos superdesportivos. Atualmente, é perfeitamente plausível alguém tirar a carta de condução de manhã e, poucas horas depois, estar ao volante de um SUV familiar com mais de 1000 cv, capaz de acelerar dos 0 aos 100 km/h em menos de 3 s.

Este salto na performance dos automóveis dos últimos anos levanta, como é natural, várias dúvidas - ao ponto de alguns países já estarem a avançar com medidas para tentar gerir (ou travar) esta escalada de potência e aceleração.

A questão central é simples: fará sentido existir legislação que limite a potência e a aceleração dos automóveis novos? É exatamente sobre isso que se discute no Auto Rádio, um podcast da Razão Automóvel com o apoio do PiscaPisca.pt.

Legislação para limitar potência e aceleração: porquê agora?

Durante décadas, a performance extrema era rara, cara e (em muitos casos) limitada por compromissos mecânicos. Com os elétricos, a entrega imediata de binário e a facilidade de “libertar” desempenho via eletrónica tornaram comum aquilo que antes era exceção.

Além do lado do entusiasmo, entra também a perspetiva da segurança rodoviária e da adaptação do condutor: quando acelerações de supercarros passam a estar disponíveis em veículos comuns e relativamente acessíveis, a margem para erro encolhe - sobretudo em ambientes urbanos e em estradas secundárias, onde o espaço e a visibilidade são mais limitados.

China já tem plano em marcha

A China não está alheia a este debate e já sinalizou que prepara uma proposta de regulamentação destinada a reduzir as acelerações mais explosivas nas estradas do país.

A intenção do documento passa por determinar que todos os automóveis novos tenham de demorar, no mínimo, cinco segundos a fazer dos 0 aos 100 km/h - pelo menos no modo padrão em que o carro arranca.

Isto não significa que o condutor fique impedido de escolher outros modos de condução. No entanto, a regra prevê que o modo de origem - aquele que fica ativo sempre que o veículo é ligado - seja obrigatoriamente o modo que limita a aceleração.

Na prática, trata-se de um modo que irá “castrar” a resposta ao acelerador, numa lógica semelhante ao modo Eco que já existe em muitos veículos elétricos, reduzindo a potência disponível através de software.

A medida deverá abranger todos os veículos ligeiros de passageiros, independentemente do tipo de motorização. Ainda assim, é expectável que o impacto se faça sentir sobretudo nos elétricos de alta performance, como o Xiaomi SU7 Ultra e o BYD YangWang U9, ambos capazes de cumprir os 0 aos 100 km/h em menos de 2,5 s.

O exemplo australiano

A Austrália também avançou com ações para conter o aumento contínuo de potência e desempenho nos automóveis modernos, impondo a necessidade de uma carta de condução especial para conduzir modelos de alto rendimento.

Desde 1 de janeiro de 2025, na Austrália do Sul (o quarto maior estado australiano), passou a ser obrigatório ter essa habilitação específica para conduzir, por exemplo, um Ferrari 296 GTB, um Lamborghini Huracán Tecnica ou um Tesla Model S Plaid.

Para obter esta carta, é exigida uma formação específica realizada online, onde são abordados os riscos associados à condução de um automóvel de alta performance - classificados como UHPV (Ultra High Power Vehicle), isto é, veículo de ultra alta potência.

A formação inclui ainda um módulo inteiramente dedicado ao uso dos sistemas de assistência à condução. Entre estes, destacam-se os controlos de tração e de estabilidade, que deixam de poder ser desligados.

Quanto ao critério para integrar a categoria UHPV, abrange os veículos com uma relação potência/peso de, pelo menos, 276 kW (375 cv) por tonelada - equivalente a 2,66 kg/cv - e com peso bruto inferior a 4,5 toneladas.

Um debate antigo na indústria automóvel

Apesar do tema parecer novo por causa dos elétricos, não é a primeira vez que o setor tenta impor limites aos excessos de performance. Um caso emblemático surge na Alemanha, onde BMW, Audi e Mercedes-Benz estabeleceram um género de acordo de cavalheiros para limitar a velocidade máxima dos seus automóveis aos 250 km/h.

Também no Japão houve um entendimento semelhante: nos anos 90 do século passado, os construtores japoneses aceitaram, de forma oficiosa, que os seus modelos não deveriam ultrapassar os 280 cv de potência.

O que pode mudar (mesmo sem novas leis)

Mesmo sem legislação formal, este debate tende a influenciar outras áreas. Seguradoras podem ajustar prémios para veículos com acelerações muito elevadas; fabricantes podem redefinir o comportamento do modo padrão por defeito; e a formação de condutores pode ganhar peso, sobretudo no que toca à gestão de assistências eletrónicas e à compreensão do comportamento de um carro muito potente.

Além disso, à medida que a performance se torna mais “acessível”, cresce a importância de informar o condutor sobre a diferença entre potência disponível e capacidade real de a utilizar com segurança - especialmente em piso molhado, em manobras de ultrapassagem curtas e em cenários de baixa aderência.

Encontro marcado no Auto Rádio para a próxima semana

Razões de interesse não faltam para ver (ou ouvir) o episódio mais recente do Auto Rádio, que regressa na próxima semana às plataformas habituais: YouTube, Apple Podcasts e Spotify.

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