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Renault Scénic. O MPV compacto que criou um segmento

Renault Scenic MPV dourado e branco estacionado numa sala ampla com janelas grandes e luz natural.

Com a Renault Espace a afirmar-se como um verdadeiro caso de sucesso, colocou-se a questão: conseguiria a Renault aplicar a mesma receita num modelo mais compacto e com um preço mais ao alcance de mais famílias? A resposta viria a ser clara. O Renault Scénic - apresentado inicialmente como Mégane Scénic - foi um dos primeiros MPV compactos a chegar ao mercado europeu e acabaria por se transformar num fenómeno comercial.

O nome Scénic tinha sido mostrado ao público bem antes do modelo de série: em 1991, no Salão Automóvel de Frankfurt, a Renault levou um protótipo que já apontava o caminho para aquilo que viria a ser um monovolume compacto moderno, centrado na funcionalidade e na vida familiar.

Curiosamente, Scénic nasce como acrónimo, construído a partir das iniciais de uma expressão em inglês que, em português, pode ser entendida como Conceito de Segurança Integrada num Novo Automóvel Inovador.

O que tornou o Renault Scénic (MPV) tão relevante

A proposta do Scénic destacou-se por transportar para um segmento mais acessível várias ideias que, até então, eram mais associadas a modelos maiores: espaço bem aproveitado, modularidade, conforto em viagem e uma forte atenção à segurança. Numa altura em que muitos familiares ainda eram, sobretudo, berlinas e carrinhas, o formato monovolume oferecia uma utilização diária mais prática, com melhor aproveitamento do habitáculo e um acesso facilitado aos lugares.

Também ajudou o facto de o Scénic ter sido pensado como “carro de família” sem pedir grandes compromissos: combinava uma condução simples com soluções úteis para quem transporta crianças, bagagens e tudo o que vem com a rotina. Essa clareza de missão foi, durante anos, uma das suas maiores vantagens.

Renault Mégane Scénic (1996–2003)

Foi em 1996 que a primeira geração chegou aos concessionários. Diferente do protótipo de 1991, integrou-se na gama através do nome Mégane Scénic, alinhando-se com a família Mégane. Na prática, trouxe para um formato mais compacto as mesmas bases que tinham feito da Espace uma referência - conforto, versatilidade, habitabilidade e segurança - mas num patamar de preço e dimensão mais acessível.

Apesar de ser um conceito ainda relativamente novo (foi um dos pioneiros entre os MPV compactos), o mercado reconheceu-lhe rapidamente valor como automóvel familiar - ao ponto de nem a própria Renault antecipar a dimensão do sucesso. Em 1997, a primeira geração conquistou, naturalmente, o título de Carro do Ano Europeu.

Esta viria a ser, também, a geração mais vendida de toda a linhagem: 2,8 milhões de unidades encontraram comprador. As gerações seguintes nunca voltariam a aproximar-se destes números, sobretudo porque a concorrência se multiplicou e o segmento se fragmentou com propostas como a Citroën Picasso e a Opel Zafira.

Nesta fase, merece destaque o Scénic RX4, que combinava tração às quatro rodas com suspensão mais elevada e reforçada - um prenúncio da futura vaga de SUV que acabaria por dominar o mercado.

A primeira geração do Renault Scénic foi eleita Carro do Ano Europeu em 1997.

Renault Scénic II (2003–2009)

A segunda geração manteve uma coerência visual com a segunda geração do Mégane e, ao mesmo tempo, evoluiu a identidade do Scénic I. O Renault Scénic II distinguiu-se por ser o único monovolume do segmento a apresentar três configurações: uma versão curta, com cinco lugares e 4,30 m, e duas versões longas, com 4,50 m, disponíveis com cinco ou sete lugares.

Além de novas soluções de conforto e de entretenimento possibilitadas pela tecnologia, este familiar francês podia incluir um conjunto de equipamentos muito valorizado na época: travão de estacionamento automático, faróis bi-xénon, cartão mãos-livres, sistema de controlo da pressão dos pneus, regulador e limitador de velocidade e assistência ao estacionamento.

Um elemento particularmente marcante foi a alavanca de velocidades, que passou a estar montada numa espécie de ponte ligada ao painel de instrumentos - uma solução que reforçava a sensação de espaço e a ergonomia.

Em 2003, o Renault Scénic de segunda geração alcançou cinco estrelas nos testes Euro NCAP, sendo então considerado o automóvel mais seguro da categoria.

Renault Scénic III (2009–2016)

Na terceira geração, a Renault manteve a estratégia de duas carroçarias, diferenciadas por dimensão e desenho: Scénic e Grand Scénic. A apresentação aconteceu em março de 2009, no Salão de Genebra. Um dos detalhes mais fáceis de reconhecer estava na traseira: no Grand Scénic, as luzes traseiras surgiam em forma de bumerangue e pareciam “apontar” para a frente do automóvel; no Scénic, a orientação visual dessas luzes era mais dirigida para trás.

Em ambos, a marca anunciava 92 litros de capacidade total em espaços de arrumação distribuídos pelo habitáculo, a par de uma zona multimédia e de assistência ao estacionamento com indicação sonora e visual. Também a oferta de motores foi revista, com uma gama renovada a gasóleo e a gasolina. No essencial, esta geração afastou-se do estilo mais “lúdico” e aproximou-se de uma imagem mais sóbria e elegante.

De forma pouco habitual, esta geração sofreu duas reestilizações: a primeira em 2012, com novos faróis e para-choques; a segunda em 2013, quando o para-choques dianteiro foi novamente alterado, passando a integrar um símbolo de maiores dimensões e uma nova grelha frontal, elemento que reforçou a identidade visual da Renault.

Foi, porém, durante estes anos que o declínio dos monovolumes se tornou mais evidente, ao mesmo tempo que os SUV cresciam rapidamente. A isto juntou-se o facto de a geração ter sido lançada num período marcado por uma das crises económicas mais severas de que há memória, algo que se refletiu nas vendas. Ainda assim, foram comercializadas mais de 600 mil unidades - um valor bem abaixo dos 1,3 milhões da geração anterior e muito distante dos 2,8 milhões da original.

Renault Scénic IV (2016–)

Antes da quarta geração, a Renault apresentou em 2011, no Salão de Genebra, o R-Space, um protótipo que procurava empurrar o Scénic para uma nova fase: um automóvel pensado para a família contemporânea, diversa, que pede pragmatismo, mas não abdica de um desenho com personalidade.

Segundo Laurens van den Acker, diretor de desenho da Renault, a quarta geração do Renault Scénic funcionava como uma espécie de “última oportunidade” para o MPV. Tal como aconteceu com a Espace, a ideia passou por reinventar o conceito, introduzindo mais estilo e incorporando características associadas aos SUV e ao universo crossover, cujo domínio do mercado continuava a crescer.

Nesta geração, a distância ao solo aumentou e as rodas também: o modelo passou a estar disponível apenas com jantes de 20 polegadas. Mantiveram-se duas carroçarias e duas capacidades - cinco e sete lugares. Continuaram presentes os argumentos que tinham tornado a primeira geração tão forte como familiar - espaço, versatilidade, acessibilidade e visibilidade -, mas a verdade é que a ascensão dos SUV reduziu drasticamente o espaço de manobra dos monovolumes.

Depois de ter chegado a vender mais de 300 mil unidades por ano, em 2018 o Scénic ficou-se por 91 mil - permanecendo no ar a dúvida sobre o futuro do Renault Scénic e, de forma mais ampla, sobre a sobrevivência dos MPV no mercado europeu.

Legado do Scénic e o impacto na indústria

Mesmo com a perda de protagonismo do segmento, o Scénic deixou uma marca difícil de ignorar: ajudou a normalizar a ideia de que um automóvel familiar podia ser compacto por fora e extraordinariamente eficiente por dentro, com soluções de arrumação, flexibilidade e segurança a definirem o padrão esperado. Em muitos aspetos, o sucesso inicial do Scénic pressionou o mercado a responder - e a rapidez com que surgiram rivais diretos é, por si só, um indicador do seu impacto.

Ao mesmo tempo, a mudança de preferências do público para os SUV não apaga o valor do conceito monovolume: em eficiência de espaço e facilidade de utilização no dia a dia, o Renault Scénic continua a ser uma referência histórica entre os familiares europeus.

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