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Esta imagem do Renault 25 não foi manipulada. É mesmo assim

Carro elétrico Renault cinzento modelo Slanted25 exposto em salão moderno com janelas grandes.

A imagem deste Renault 25 pode parecer um erro - como se tivesse sido distorcida por edição digital ou por um ângulo impossível -, mas trata-se de uma peça real. Existe mesmo assim e, apesar do aspeto desconcertante, continua a poder ser conduzido.

Erwin Wurm e o Renault 25 Slanted Car: quando o conforto perde o equilíbrio

O responsável (para o bem e para o mal) é Erwin Wurm, artista austríaco conhecido por torcer e desfigurar objetos do quotidiano - não apenas automóveis, mas também casas e até peças de vestuário - com o objetivo de expor como as convenções sociais podem ser frágeis, arbitrárias e fáceis de abalar.

Em Slanted Car (2011), o título atribuído a este Renault 25, Wurm pegou num símbolo de conforto e de uma certa ambição típica dos anos 80 e inclinou-o como se a estrutura tivesse cedido sob o peso do estatuto. Aquilo que era suposto transmitir solidez passa a sugerir fadiga, colapso e excesso de expectativa.

Um automóvel que deixa de cumprir a promessa de estabilidade

Tradicionalmente, o carro funciona como sinal de estabilidade, sucesso e progressão profissional. Aqui, porém, esse símbolo surge instável, quase doente, como se o próprio objeto denunciasse a pressão de representar uma identidade.

Com esta inclinação, o Renault 25 deixa de ser apenas um meio de transporte e transforma-se numa imagem física de desconforto: a promessa de controlo e segurança é posta em causa e o propósito “normal” do automóvel fica deliberadamente comprometido.

Arte, sátira e identidade projetada nos automóveis

Pode encarar-se esta peça como arte ou como uma piada sobre a forma como projetamos a nossa identidade nos carros - a leitura fica ao critério de cada um. O que é inequívoco é que Wurm encontra no automóvel um veículo especialmente eficaz para comunicar: é um objeto carregado de desejo, vaidade, utilidade e comparação social, tudo ao mesmo tempo.

Também é por isso que este Renault 25 inclinado não é um caso isolado no seu trabalho. A estratégia repete-se: mexer no “familiar” para tornar visível aquilo que costuma passar despercebido.

A série Fat Car e o Porsche 911 “gordo”: excesso e consumo

Wurm criou ainda a série Fat Car (carro gordo), na qual surgem automóveis propositadamente volumosos e inchados. Um dos exemplos mais emblemáticos é um Porsche 911 “gordo”: uma inversão intencional da ideia de leveza e agilidade associada a este modelo, transformada num comentário direto sobre excesso e consumo.

Ao exagerar a forma, o artista sublinha uma contradição: quanto mais tentamos afirmar poder, desempenho e estatuto através de objetos, mais esses mesmos objetos podem tornar-se caricaturas do que prometem.

O impacto destas deformações: do objeto “útil” ao símbolo desconfortável

Há ainda um aspeto particularmente relevante nestas obras: elas mantêm a aparência de algo funcional, mas deslocam-nos para o campo da estranheza. Quando um carro continua reconhecível - e até conduzível -, mas parece estruturalmente “impossível”, somos forçados a repensar o que valorizamos nele: utilidade, imagem, desejo, pertença.

No fundo, tanto Slanted Car como Fat Car usam o automóvel como espelho. Não para refletir um ideal, mas para mostrar como esse ideal pode deformar-se - e como nós, muitas vezes, aceitamos essa deformação como normal.


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