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Por que o gasóleo sobe três vezes mais do que a gasolina

Homem com expressão chocada a encher o depósito de gasolina com preço elevado num posto de combustível.

Quando o Estreito de Ormuz fecha e o barril dispara, é natural que os preços nos postos em Portugal sintam o impacto. O que não é tão óbvio é por que motivo o gasóleo reage com tanta mais força do que a gasolina - e por que a previsão aponta para mais 23 cêntimos por litro contra «apenas» sete cêntimos por litro, respetivamente.

A explicação não está apenas na tensão no Médio Oriente. O que está a acontecer agora expõe um problema de base, construído ao longo de décadas: escolhas europeias que foram reduzindo, pouco a pouco, a capacidade de produzir combustível no próprio continente. O gatilho veio de fora. A fragilidade é interna e estrutural.

Uma Europa que parou de investir em refinação

A capacidade de refinação europeia está há décadas praticamente parada e, tecnicamente, ficou desajustada para tratar óleos cada vez mais pesados e com maiores teores de enxofre.

O investimento no setor quase desapareceu: há mais de 30 anos que não se constroem refinarias no continente e, desde 2009, fecharam perto de 30 instalações. Outras estão a ser reconvertidas em biorefinarias, a produzir combustíveis sustentáveis para aviação e hidrogénio, numa tentativa de manter as unidades viáveis.

A isto juntou-se uma pressão política crescente, fruto das decisões em direção à neutralidade carbónica. Na prática, isso significou uma marginalização progressiva dos combustíveis líquidos, com a ambição de que, no futuro, tenham literalmente um papel nulo nos transportes rodoviários.

Esta dinâmica também travou o apetite dos investidores para produzir combustíveis: o Banco Europeu de Investimento (BEI) deixou de financiar a maioria dos projetos ligados a combustíveis fósseis, incluindo a refinação tradicional, desde o final de 2021. Sem apoio público e sob pressão regulatória, o capital privado também se afastou do setor.

A consequência prática é que refinarias europeias - hoje competitivas e entre as mais responsáveis do ponto de vista ambiental a nível mundial - podem acabar por encerrar mais cedo do que seria necessário, sem terem tido oportunidade de descarbonizar ou de se converter para combustíveis renováveis de baixo carbono.

A dependência da Rússia e o choque de 2022

Enquanto a refinação europeia diminuía, crescia a dependência de fornecimentos externos de gasóleo já refinado. Durante muito tempo, esse produto vinha, em termos gerais, metade da Rússia e metade do Médio Oriente. Parecia um modelo confortável em períodos de estabilidade geopolítica, mas revelava-se extremamente frágil no momento em que essa estabilidade falhasse.

E foi isso que aconteceu em fevereiro de 2022, com a invasão russa da Ucrânia. Por decisão própria ou por via de sanções, as compras à Rússia foram interrompidas. De um dia para o outro, o mercado europeu teve de encontrar alternativas para os enormes volumes de gasóleo que chegavam da Rússia - tanto o gasóleo refinado como o petróleo bruto destinado às refinarias europeias.

A dependência do Médio Oriente aumentou desde então, embora a Europa tenha procurado novos fornecedores (EUA, Índia, etc.), ainda que hoje não tenham o mesmo peso. Também mudou o corredor de abastecimento, do oleoduto para o transporte marítimo. E essa alternativa não é só mais cara; fica estruturalmente mais exposta a crises como a atual, aumentando a vulnerabilidade.

O gatilho atual: o Médio Oriente também falhou

Foi precisamente essa vulnerabilidade que agora se tornou evidente. O encerramento do Estreito de Ormuz à navegação - uma das principais artérias do comércio mundial de petróleo e derivados, responsável por cerca de 20% do tráfego global de crude - interrompeu de forma abrupta os fluxos de gasóleo refinado de que a Europa passou a depender após 2022.

O efeito viu-se de imediato nas cotações internacionais. O gasóleo refinado subiu muito mais do que o próprio petróleo bruto (três vezes mais), porque o problema não é a falta de crude. O que está a ser pago é a escassez do produto já transformado e o risco de não o conseguir transportar até à Europa.

A gasolina tem uma dinâmica de mercado distinta. A Europa é relativamente menos dependente de importações por esta via para abastecer gasolina, e a base de produção interna ainda consegue responder à procura com maior autonomia. Daí a diferença de subida entre os dois combustíveis.

E agora?

Não há uma solução rápida que resolva o problema de fundo: a Europa criou uma dependência de gasóleo refinado do outro lado do mundo, desmantelou parte da sua capacidade de o produzir internamente e agora percebe que, num mundo cada vez mais volátil, essa equação tem um custo.

E esse custo acaba sempre por ir parar ao mesmo sítio: à bomba, pago litro a litro por todos nós.

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