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Se te sentes inquieto em períodos calmos, a psicologia explica que isso se deve à expectativa interna.

Pessoa sentada no chão a olhar pela janela com chá quente e um caderno de desenhos ao lado.

Terça-feira, 11:47.
A caixa de entrada está silenciosa, o telemóvel não vibra, e a tua vida está… normal. O trabalho não está a arder, as relações estão estáveis, o dinheiro podia estar melhor, mas não estás em pânico. Era suposto sentires alívio. Em vez disso, há uma espécie de zumbido por baixo da pele, como se o corpo estivesse à espera de um alarme que nunca toca.

Abres e fechas aplicações, vais ao frigorífico sem fome, reorganizas três apps e não apagas nenhuma. O peito fica apertado sem motivo claro.

Dás por ti a pensar: “Porque é que estou inquieto se não se passa nada?”

Esse pensamento é o verdadeiro alarme.

Why calm makes some of us deeply uncomfortable

Existe um tipo de stress silencioso que aparece quando a vida deixa de atirar problemas óbvios para cima de ti. No papel, estás a entrar numa “fase boa”: menos discussões, menos prazos, menos crises. Por dentro, porém, esse silêncio parece suspeito.

O teu cérebro, habituado a viver em alerta permanente, começa a procurar qualquer coisa para mastigar. Um e-mail aleatório vira um “sinal”, uma mensagem neutra do teu parceiro de repente parece fria, uma dorzinha nas costas transforma-se num possível drama médico. Isto não é “mania”. É um sistema nervoso que já não se lembra do que é descanso a sério.

Uma mulher que entrevistei, 34 anos, tinha acabado de conseguir um emprego estável depois de anos a trabalhar como freelancer e de ansiedade financeira. Acabaram-se as faturas por pagar, acabou-se o pânico às 2 da manhã por causa da renda.

Três semanas depois de entrar nessa estabilidade, mal conseguia dormir. Disse-me que acordava a meio da noite com um pensamento: “Vai acontecer alguma coisa má. Está demasiado calmo.” Na pausa de almoço, atualizava a app do banco de hora a hora, convencida de que havia uma despesa surpresa escondida algures. Chegou até a arranjar uma discussão sem sentido com o parceiro porque “estava tudo a correr bem demais”.

À superfície, tinha exatamente aquilo que dizia querer. Por dentro, o corpo ainda estava a viver no caos do ano anterior.

Os psicólogos descrevem isto como uma “expectativa interna de ameaça”. Quando passas meses ou anos em modo de sobrevivência, o cérebro “liga-se” a esperar o próximo golpe. A estabilidade parece falsa, como um cenário de filme que pode cair a qualquer segundo.

Por isso, quando a vida abranda, a mente não relaxa - caça. Faz varrimentos à procura de provas de que a segurança é uma ilusão. É por isso que podes sentir inquietação num domingo tranquilo, ou culpa por não estares a “resolver” nada. O teu sistema confundiu calma com perigo, porque muitas vezes a calma vinha mesmo antes da tempestade. *O teu corpo está a tentar proteger-te, mesmo quando não há nada para combater.*

How to stop waiting for the next disaster

Uma prática simples ajuda muita gente: dar nome à estação em que estás. Não de forma emocional, mas quase como um boletim meteorológico. Diz em voz alta ou escreve nas notas: “Neste momento, a minha vida está numa fase estável. O meu sistema nervoso está atrasado.”

Esta frase pequena cria distância entre o que está a acontecer fora e o que está a disparar por dentro. Deixas de tratar a inquietação como “prova” de que algo vai correr mal e começas a vê-la como um hábito. Depois, já dá para trabalhar com isso. Reserva 3 minutos, duas vezes por dia, para te sentares e observares literalmente o ambiente: “O que é realmente urgente, agora, nesta divisão?”

Na maioria das vezes, a resposta é: nada.

A armadilha em que muitos caímos é tentar esmagar esse desconforto criando urgência falsa. Inscrevemo-nos em projetos a mais. Arranjamos discussões desnecessárias. Fazemos doomscroll até à 1 da manhã só para sentir algo mais intenso do que aquele zumbido baixo de ansiedade vaga.

É assim que períodos estáveis acabam sabotados. A mente diz: “Vês? Eu sabia que não podia relaxar.” Criamos o próprio caos de que tínhamos medo. Por isso, em vez de encher a agenda, experimenta o contrário durante uma semana: deixa, de propósito, alguns espaços vazios no dia. Deixa a inquietação subir, dá-lhe um nome e deixa-a passar sem reagir.

Os primeiros dias parecem abstinência. Depois começa a abrandar.

O psicólogo e especialista em trauma Dr. Bessel van der Kolk lembra muitas vezes os seus pacientes: “The body keeps the score.” Quando a estabilidade finalmente aparece, o corpo não apaga automaticamente anos de treino em modo crise. Precisa de provas - provas repetidas - de que esta calma não é uma armadilha.

  • Micro-grounding ritual: Uma vez por dia, pressiona os pés contra o chão e diz cinco coisas que consegues ver, quatro que consegues tocar, três que consegues ouvir, duas que consegues cheirar, uma que consegues saborear. Isto prende-te ao momento atual, não a desastres passados.
  • Reality check list: Escreve uma lista curta de factos atuais: “Renda paga. Sem e-mails urgentes. Saúde dentro do normal.” Lê quando a mente começar a inventar incêndios.
  • Scheduled worry time: Dá-te um bloco de 15 minutos para escrever todos os medos e “e se” no papel. Fora desse bloco, quando surgirem, diz a ti mesmo: “Agora não. Preocupo-me às 19:00.” Curiosamente, com o tempo, o cérebro aprende.
  • Connection break: Envia mensagem a uma pessoa de confiança com uma frase simples e honesta: “Não se passa nada, mas sinto-me estranho nesta fase calma.” Ser ouvido baixa o volume do sistema nervoso.
  • Slow joy practice: Uma vez por semana, faz algo agradável a meia velocidade: caminhar, tomar banho, beber café. Estás a treinar o corpo para tolerar sentir-se bem sem culpa.

Living with an edgy brain in a calm life

Há ainda outra camada de que raramente se fala. Algumas pessoas só eram elogiadas quando estavam ocupadas, a lutar, ou a “aguentar firme”. Calma era chamada preguiça. Descanso era motivo de suspeita. Então, sempre que a vida fica mais estável, acorda um crítico interno e sussurra: “Não estás a fazer o suficiente. Vais ficar para trás.”

Esse crítico não é um monstro. Muitas vezes é uma velha estratégia de sobrevivência disfarçada de produtividade. A inquietação pode ter menos a ver com perigo e mais com identidade: “Quem sou eu se não estiver a resolver crises?” Quando vês isto com clareza, dá para, com cuidado, separar o teu valor do teu volume de trabalho.

Sejamos honestos: ninguém consegue fazer isto todos os dias, sem falhar.

Key point Detail Value for the reader
Internal expectation of threat Brain stays in crisis mode even when outside life calms down Explains why you feel restless “for no reason”
Stability sabotage Creating problems or overloading yourself to match your inner tension Helps you spot patterns that quietly drain your peace
Grounding and naming Simple daily rituals and reality checks to re-train your nervous system Gives you practical tools to finally enjoy calmer seasons

FAQ:

  • Why do I feel more anxious when things are going well?Your nervous system may be conditioned to expect danger after calm. Good phases can trigger old alarms, so your body reacts as if something bad must be coming next.
  • Is this a sign that I secretly like chaos?Not necessarily. It’s usually a sign that chaos feels familiar, not that you enjoy it. Familiar doesn’t mean healthy, it just feels safer because you know the rules.
  • Can this restlessness be a trauma response?For some people, yes. If you’ve lived through long periods of stress, neglect, or instability, your brain may have wired “constant alert” as normal. Therapy can really help untangle this.
  • What if I can’t sit still during calm moments?Start with active calm: walks, light chores, stretching, cooking. You don’t have to meditate in silence. Movement can be a bridge between high alert and genuine rest.
  • When should I seek professional help?If your restlessness turns into panic attacks, insomnia, compulsive behaviors, or it interferes with work and relationships, that’s a good time to talk to a mental health professional.

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