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Estrias escuras nas encostas de Marte: o que as *lineae* recorrentes de encosta (RSL) nos dizem

Homem a analisar imagens e dados de uma superfície marciana num ecrã e tablet com globo terráqueo ao lado.

Quando se olha para certas encostas de Marte, há marcas escuras que aparecem como se alguém as tivesse “pintado” ao longo da vertente. Estas faixas, conhecidas como recurring slope lineae (RSL), são um elemento comum no planeta vermelho. O mais intrigante é que surgem de forma sazonal - e podem resultar tanto de água salgada (salmoira) a descongelar de gelos sazonais como de areia seca a deslizar.

Apesar de ainda não haver uma explicação definitiva, a investigação mais recente tem vindo a juntar peças importantes deste puzzle. Um exemplo claro: o ExoMars Trace Gas Orbiter (TGO) da ESA captou imagens de estrias formadas por uma avalanche de poeira nas encostas do Apollinaris Mons, na noite anterior ao Natal de 2023.

A imagem foi obtida pelo Colour and Stereo Surface Imaging System (CaSSIS) do TGO e mostra um agrupamento ténue de crateras de impacto, bem como as estrias escuras no fundo da encosta.

Estas estrias foram o tema de um artigo, "Dust, sand and wind drive slope streaks on Mars", publicado recentemente na revista Nature Communications.

Segundo o autor Valentin Tertius Bickel, investigador de pós-doutoramento no Center for Space and Habitability (CSH) da Universidade de Berna, evidência geoestatística recente indica que as RSL podem ser causadas por fatores “secos”, não sazonais.

No entanto, argumenta ele, continuam a faltar medições diretas e quantitativas sobre a velocidade de formação destas estrias escuras e sobre a frequência com que ocorrem devido a fatores específicos.

Com esse objetivo, analisou a estria captada pelo TGO, que os cientistas determinaram ter sido causada por impactos de meteoritos que ocorreram entre 2013 e 2017.

Valentin recorreu a aprendizagem automática para analisar mais de dois milhões de estrias captadas pela Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) da NASA entre 2006 e 2024, e que estavam provavelmente associadas a fatores secos e não sazonais, incluindo impactos de meteoroides, sismos marcianos e ventos.

A partir daí, conseguiu desenvolver um “censo de estrias”, mostrando que a maioria destas formações ocorreu em cinco hotspots distintos ao longo dos dezanove anos analisados. Concluiu ainda que cerca de 0,1% da população formada anualmente podia ser atribuída diretamente a eventos como impactos de meteoroides e sismos marcianos.

"Dust, wind, and sand dynamics appear to be the main seasonal drivers of slope streak formation," disse Bickel num comunicado de imprensa da ESA.

"Meteoroid impacts and quakes seem to be locally distinct, yet globally relatively insignificant drivers."

Estes resultados fornecem evidência valiosa que pode ajudar a encerrar o debate sobre o que provoca a formação de estrias escuras em Marte. Também oferecem uma visão mais clara sobre os tipos de forças dinâmicas que moldam o clima marciano, tanto de forma sazonal como não sazonal.

"These observations could lead to a better understanding of what happens on Mars today," afirma Colin Wilson, cientista de projeto da ESA para o ExoMars Trace Gas Orbiter. "Obtaining long-term, continuous, and global-scale observations that reveal a dynamic Mars is a key objective of present and future orbiters."

Em particular, compreender a dinâmica do ambiente do planeta pode responder às perguntas mais fundamentais que os cientistas têm sobre Marte.

Entre elas estão como e quando a água à superfície desapareceu, para onde foi, e se a vida poderia ter prosperado lá em algum momento.

Responder a estas questões é o principal objetivo das nove missões operadas por cinco agências espaciais que atualmente exploram Marte. Estão planeadas mais missões robóticas, com missões tripuladas previstas antes de meados do século.

This article was originally published by Universe Today. Read the original article.

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