O Governo italiano deu mais um passo no processo de transferência do porta-aviões Garibaldi para equipar a Marinha da Indonésia, ao remeter ao Parlamento um decreto destinado a viabilizar a operação sob a forma de doação gratuita ao país do Sudeste Asiático. De acordo com Roma, esta opção poderá reforçar a posição industrial italiana junto de Jacarta e abrir caminho a um conjunto de contratos que ultrapassa 1,53 mil milhões de euros, associados à aquisição de novas aeronaves e submarinos no âmbito do programa de modernização indonésio.
Cooperação industrial e contratos: o porta-aviões Garibaldi como catalisador
O documento citado enquadra a iniciativa como uma continuidade da cooperação já em curso. Num excerto, é referido:
“Do ponto de vista industrial e económico, a recente venda à Indonésia de dois navios de guerra da classe PPA, por um valor total aproximado de 1,25 mil milhões de dólares norte-americanos, abriu uma via particularmente significativa para a cooperação industrial. Esta poderá ser ainda mais reforçada pela transferência do navio da classe Garibaldi, com potenciais benefícios económicos para o sistema industrial nacional.”
Seguindo esta lógica, é apontada a possibilidade de serem celebrados acordos para até seis novos submarinos da classe DGK, produzidos pela DRASS, em Livorno, o que implicaria um investimento superior a 480 milhões de euros. Em paralelo, no domínio da aviação, a Itália poderia assegurar contratos adicionais até 600 milhões de euros com o fornecimento de aeronaves Leonardo M-346. A isto somar-se-ia ainda a vertente de aeronaves de patrulha marítima, cuja produção poderia representar mais 450 milhões de euros.
Quanto ao próprio navio, seriam necessários trabalhos de adaptação e modernização, que poderiam ser executados pela Fincantieri, empresa que promove esta solução e que, desde 2025, tem vindo a posicionar-se como candidata natural para realizar essa intervenção.
Vida útil, modernização e hipótese de conversão em porta-drones
Sobre o estado da plataforma, Mauro Manzini, responsável de vendas da Unidade de Negócios Navais, já assinalou que o Garibaldi mantém uma vida útil potencial de 15 a 20 anos, considerando as condições gerais do navio, ainda que dependa da reforma considerada necessária.
Ao mesmo tempo, e sugerindo um possível emprego operacional na Marinha da Indonésia, a Fincantieri avançou também com a hipótese de conversão do navio num porta-drones. Esta leitura ajuda a enquadrar o modelo apresentado durante a Indodefence, feira realizada em Jacarta em 2025.
Enquadramento indonésio: uso humanitário e limites operacionais
Ainda assim, o Ministério da Defesa da Indonésia afirmou recentemente que não pretende utilizar o porta-aviões Garibaldi em missões de carácter ofensivo, mas antes como plataforma de apoio em emergências, nomeadamente em resposta a catástrofes naturais e em operações humanitárias semelhantes. Esta posição levanta dúvidas sobre as limitações práticas que a Marinha indonésia poderá enfrentar para manter uma operação regular, incluindo as exigências de manutenção e de disponibilidade, bem como a complexidade de integrar aeronaves de combate que proporcionem uma capacidade ofensiva significativa - mesmo que, com isso, a Indonésia passasse a integrar o restrito grupo de países da região com este tipo de meio.
Um factor adicional a considerar é o esforço de formação de guarnições, a criação de rotinas de sustentação logística e a adaptação de infra-estruturas portuárias e de apoio. Mesmo quando o foco é humanitário, operar uma plataforma desta dimensão implica planeamento prolongado, cadeias de abastecimento consistentes e disponibilidade de equipas técnicas especializadas.
Também é relevante ponderar que, em cenários de assistência em desastres, um navio com capacidade de transporte, comunicações, coordenação e apoio aéreo (incluindo drones) pode tornar-se um centro móvel de comando e de distribuição de ajuda. Contudo, para cumprir esse papel de forma eficaz, será determinante definir claramente o conceito de operações, as aeronaves a embarcar e a interoperabilidade com outros meios navais e aéreos indonésios.
Imagens utilizadas apenas para fins ilustrativos.
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