À medida que se desenha um reforço relevante de capacidades para a Armada da Indonésia, o Senado italiano deu um passo decisivo no processo de doação do porta-aviões Garibaldi, já retirado de serviço, após uma sessão realizada ontem pela Comissão de Negócios Estrangeiros e Defesa. Com este parecer favorável, a proposta apresentada pelo Ministério da Defesa segue agora para votação em plenário, cabendo à câmara alta tomar a decisão final sobre a transferência do navio para o país do Sudeste Asiático sem custos de aquisição.
A aprovação agora alcançada tinha, na verdade, sido adiada a 10 de março, quando a mesma comissão optou por travar o avanço do dossiê devido a objecções de partidos da oposição. Esses senadores sustentavam que o Governo deveria fornecer informação adicional antes de se poder deliberar com segurança. Nos últimos dias, foram feitas várias apresentações com o objectivo de clarificar pontos pendentes, incluindo a audição recente do almirante Giacinto Ottaviani, na qualidade de Direttore Nazionali degli Armamenti (DNA).
Contestação política e dúvidas sobre a doação do porta-aviões Garibaldi
A oposição mais visível à doação, entretanto aprovada em comissão, foi protagonizada pelos senadores Marton e Delrio, dos partidos M5S e PD-IDP, respectivamente. Antes de votarem contra a medida, ambos intervieram em nome das suas bancadas e defenderam que continuavam a existir lacunas substanciais na informação disponível. Sublinharam ainda que uma parte significativa dos elementos conhecidos resultaria de reportagens da imprensa, que por sua vez analisavam documentos oficiais anteriores e diversas fugas de informação.
De acordo com os relatos divulgados a partir de Roma, uma das dúvidas centrais prendia-se com o papel da Drass enquanto intermediária escolhida pelo Governo indonésio para operacionalizar a transferência do Garibaldi. A empresa surgiria como beneficiária directa no contexto de um novo contrato, no qual a Armada da Indonésia se comprometeria a adquirir seis novos submarinos por cerca de 480 milhões de euros. Outra crítica apontada por estes partidos foi o próprio formato da operação - uma doação - por contraste com o que consideram ser um activo histórico avaliado, segundo as suas estimativas, em mais de 50 milhões de euros.
Nas palavras apresentadas pelos opositores, a exigência foi clara:
“Queremos saber porque é que o Ministério da Defesa optou por oferecer um activo histórico da Marina Militare, cujo valor ultrapassa os 50 milhões de euros e que, por isso, poderia ter sido vendido em vez de doado. Exigimos total transparência sobre as relações entre (NdE: o ministro da Defesa) Crosetto e o presidente da Drass, Sergio Cappelletti, sobre a alegada reunião em Dubai nos últimos dias e sobre a ligação entre a empresa e o partido de Crosetto, ao qual a própria empresa tem dado apoio financeiro nos últimos anos. Esperamos respostas claras.”
Tanto a empresa como o Ministério da Defesa rejeitaram as acusações de eventuais entendimentos pouco transparentes, sustentando que a decisão não depende exclusivamente do titular da pasta, mas sim de diferentes estruturas administrativas e dos procedimentos formais aplicáveis.
Porquê avançar com a doação: contratos, influência industrial e modernização
Conforme já tinha sido indicado numa análise publicada em fevereiro, a opção do Governo italiano por avançar com a doação do porta-aviões Garibaldi à Armada da Indonésia não seria uma iniciativa isolada ou aleatória. A leitura subjacente é a de um movimento para aprofundar relações bilaterais e, ao mesmo tempo, posicionar empresas italianas para vencerem contratos de grande dimensão no vasto processo de modernização em curso em Jacarta. Na altura, falava-se de valores que poderiam atingir 1 530 milhões de euros, muito acima do valor actual atribuído ao navio.
Ao detalhar essa componente industrial, não está apenas em causa o contrato dos submarinos DGK associado à Drass, que foi precisamente o ponto mais visado por Marton e Delrio. Entram também em jogo potenciais acordos ligados à introdução de novas aeronaves na Indonésia. Num primeiro eixo, foi mencionado um entendimento até 600 milhões de euros, no qual a Leonardo poderia fornecer aviões M-346. Em paralelo, um contrato adicional para aeronaves de patrulha marítima poderia representar mais 450 milhões de euros. Além disso, a transferência do Garibaldi pode abrir espaço para a Fincantieri assumir trabalhos de revitalização e adaptação - incluindo, em cenário futuro, uma eventual conversão do navio para funções de porta-drones.
Parágrafo adicional: desafios de integração do porta-aviões Garibaldi na Armada da Indonésia
Mesmo com a aquisição a custo zero, a incorporação de um porta-aviões como o Garibaldi implica um esforço significativo em formação, doutrina e logística. A criação de equipas especializadas para operações de convés, manutenção naval avançada, segurança e coordenação de missões exige tempo e investimento continuado, especialmente se a plataforma for usada com frequência em operações de resposta a crises.
Parágrafo adicional: impacto económico e planeamento de ciclo de vida
Existe também uma dimensão de planeamento de ciclo de vida: uma plataforma desta natureza tende a exigir contratos regulares de manutenção, disponibilidade de peças, e períodos de docagem programada. Para Jacarta, a equação custo-benefício dependerá tanto das obras iniciais de colocação a ponto como da capacidade de sustentar a operação ao longo de anos, assegurando que o navio não se transforme num activo de baixa disponibilidade.
Custos evitados por Roma e enquadramento legal invocado
Caso o processo se concretize, a operação permitirá também ao Ministério liderado pelo ministro Crosetto evitar despesas adicionais com a manutenção e, mais tarde, com o abate/desmantelamento de um navio já desactivado. Em documentos do Ministério da Defesa italiano, foram indicados custos de cerca de 5 milhões de euros ao longo de 2025 associados ao Garibaldi, incluindo manutenção para garantir a integridade estrutural, vigilância e permanência em porto, bem como consumo de electricidade. Em termos acumulados, se a opção fosse o desmantelamento, Roma ficaria ainda vinculada a um investimento adicional estimado em 18,7 milhões de euros.
O Governo italiano sustenta, por outro lado, que existem bases legais suficientes para avançar sem entraves relevantes. Entre os argumentos apresentados, está a classificação da Indonésia como país em desenvolvimento de acordo com padrões da OCDE, bem como a existência de acordos de cooperação com a União Europeia e outros instrumentos assinados por Itália que facilitariam a transferência. Foi igualmente referido que o porta-aviões foi concebido para fins defensivos e que o seu historial inclui missões de segurança naval e de gestão de emergências, reduzindo o risco de conflito com normas que restringem o envio de material de carácter ofensivo.
Emprego previsto pela Armada da Indonésia e vida útil estimada
Em linha com este enquadramento, a Armada da Indonésia teria como intenção utilizar o Garibaldi sobretudo como plataforma de apoio em situações de catástrofes naturais e noutras missões humanitárias, estimando-se que o navio possa manter 15 a 20 anos de vida útil se for alvo de obras de colocação a ponto. Esta orientação foi confirmada pelo próprio ministro da Defesa indonésio, que afirmou não existir intenção de empregar a unidade em operações ofensivas - uma posição que também reflecte as limitações práticas para equipar o navio com aeronaves de combate capazes de operar a partir do convés.
Imagens utilizadas a título meramente ilustrativo.
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