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Descobertos grandes laços de ADN na boca que podem proteger contra o cancro

Cientista jovem a observar amostras ao microscópio com holograma de DNA e bactérias numa bancada de laboratório.

Grandes anéis de ADN transportados por bactérias que vivem na nossa boca podem trazer vantagens para a saúde oral e para o funcionamento do sistema imunitário, podendo até estar associados a um menor risco de alguns tipos de cancro.

Inocles: os anéis de ADN que acompanham bactérias Streptococcus

Estes anéis de ácido nucleico, baptizados de Inocles, parecem corresponder a um tipo de plasmídeo de dimensões invulgares - isto é, elementos genéticos que existem fora do “manual” principal de ADN de muitos microrganismos.

De acordo com uma equipa liderada por investigadores da Universidade de Tóquio, os Inocles deverão ter um papel relevante na capacidade de adaptação das bactérias - neste caso, bactérias do género Streptococcus - ao ambiente biológico da cavidade oral, funcionando como autênticos “kits extra” de sobrevivência.

O que ainda não sabemos sobre o microbioma oral

“Sabemos que o microbioma oral é composto por uma enorme diversidade de bactérias, mas continuam por esclarecer muitas das suas funções e os mecanismos que usam para as desempenhar”, explica o microbiologista Yuya Kiguchi, da Universidade de Tóquio.

“Foi ao investigarmos estes mecanismos que identificámos os Inocles, um exemplo de ADN extracromossómico - fragmentos de ADN que existem dentro das células, neste caso bactérias, mas fora do seu ADN principal.”

Como foram detectados: saliva, amostras e prevalência

Os investigadores chegaram a estes grandes laços de ADN através de uma análise detalhada de amostras de saliva de 56 voluntários. Para perceberem quão comuns seriam na população, realizaram depois testes adicionais em 476 amostras. Os resultados sugerem que cerca de três quartos das pessoas poderão transportar estes elementos na boca.

Porque passaram despercebidos: o problema do tamanho e o método preNuc

Curiosamente, um dos motivos para os Inocles não terem sido identificados mais cedo pode estar ligado precisamente ao seu tamanho fora do normal. Muitas técnicas tradicionais de sequenciação de ADN implicam partir o material genético em fragmentos pequenos; apesar de facilitar a leitura, este procedimento torna muito mais difícil reconstruir sequências muito longas.

Para contornar essa limitação, a equipa criou um sistema de sequenciação à medida chamado preNuc, concebido para remover o ADN humano das amostras. Com menos “peças de puzzle” bacterianas misturadas com material humano, tornou-se mais viável reconstituir estas estruturas gigantes.

Dimensões e genes: porque os Inocles são especiais

“O tamanho médio do genoma de um Inocle é de 350 mil pares de bases (uma medida do comprimento das sequências genéticas), o que o coloca entre os maiores elementos genéticos extracromossómicos identificados no microbioma humano”, refere Kiguchi. “Os plasmídeos - outras formas de ADN extracromossómico - raramente passam de algumas dezenas de milhares de pares de bases.”

Segundo os autores, esta extensão extraordinária permite aos Inocles transportar genes associados a várias funções, incluindo: - resistência ao stress oxidativo; - mecanismos de reparação de danos no ADN; - genes relacionados com a parede celular, potencialmente envolvidos na adaptação a respostas de stress fora da célula.

Inocles e cancro da cabeça e pescoço: uma associação intrigante

Um resultado inesperado surgiu quando a equipa comparou as amostras: as pessoas com cancro da cabeça e pescoço apresentavam muito menos destes elementos de ADN na cavidade oral. Isto aponta para uma possível vantagem associada aos Inocles, embora ainda não seja claro o que está a acontecer.

Fica por determinar se os Inocles poderão contribuir para algum tipo de protecção contra o cancro ou, em alternativa, se existe outro factor que simultaneamente reduza a presença de Inocles e aumente o risco de doença.

O que vem a seguir: funções, transmissão e impacto na saúde oral

Os investigadores querem agora aprofundar a forma como os genes transportados pelos Inocles funcionam na prática, perceber se estes elementos conseguem disseminar-se entre pessoas e clarificar que efeitos podem ter na saúde oral.

“É como encontrar um livro ao qual foram agrafadas notas de rodapé adicionais - e só agora estamos a começar a lê-las para perceber para que servem”, compara Kiguchi.

Porque esta descoberta pode vir a ser útil

Se se confirmar que a presença (ou ausência) de Inocles se relaciona com determinados estados de saúde, estes elementos poderão vir a apoiar novas abordagens de monitorização do microbioma oral, por exemplo através de testes de saliva mais informativos para avaliação de risco e acompanhamento.

Além disso, compreender melhor como os Inocles ajudam bactérias como Streptococcus a lidar com agressões do ambiente oral pode abrir caminho a estratégias futuras - como intervenções no microbioma - orientadas para reforçar a resiliência da comunidade bacteriana em situações de inflamação, alterações de pH ou stress oxidativo.

A investigação foi publicada na revista científica Comunicações da Natureza.

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