Durante muitos anos, a Ferrari foi associada a motores V8 e V12 cheios de musicalidade e a um romantismo mecânico que, para muitos entusiastas, parece impossível de replicar. Só que a casa de Maranello está prestes a virar a página e a iniciar uma etapa inevitavelmente mais… discreta em termos sonoros.
A razão é simples: a Ferrari já revelou os primeiros dados do seu primeiro modelo 100% elétrico. Chama-se Elettrica, será apresentado no próximo ano e promete mais de 1000 cv.
A grande questão é se isto chega para a Ferrari se impor no segmento dos elétricos de luxo e convencer um mercado exigente - e, muitas vezes, céptico - perante um Ferrari sem motor de combustão. Foi precisamente esse o tema do episódio mais recente do Auto Rádio, o podcast da Razão Automóvel com o apoio do piscapisca.pt.
Alerta vermelho na Ferrari após o Dia dos Mercados de Capitais 2025
Antes de entrarmos nos detalhes do Elettrica, vale a pena perceber o enquadramento do anúncio. A Ferrari escolheu o Dia dos Mercados de Capitais 2025 para falar deste lançamento histórico, apresentado como o arranque de uma nova era. O problema é que a reação global ao plano elétrico não foi, de todo, pacífica - e os sinais ficaram à vista no próprio dia.
No momento em que expôs a sua visão para a eletrificação, a marca italiana sofreu a maior descida de sempre em bolsa: -13% em Nova Iorque e -14% em Milão, colocando a Ferrari num verdadeiro “alerta vermelho”.
Além disso, a Ferrari baixou o objetivo de vendas de elétricos de 40% para 20% do total até 2030 e divulgou projeções financeiras bastante abaixo do que o mercado antecipava. O resultado foi uma reação dura dos investidores, que esperavam uma estratégia mais agressiva na eletrificação e estimativas de lucros superiores.
Ainda assim, esta queda não deve ser lida como uma resposta direta e exclusiva ao anúncio do Elettrica. Mas o facto de a Ferrari ter revisto o investimento em elétricos até ao final da década - e de ter colocado em pausa um segundo modelo 100% elétrico - diz muito sobre a prudência (ou cautela) com que a marca está a encarar este novo capítulo.
Tecnologia do Ferrari Elettrica: o Ferrari mais tecnológico de sempre
Mesmo com quem veja um Ferrari elétrico como um sacrilégio, a marca de Maranello está a enfrentar o desafio como sempre fez: com engenharia no limite.
Nesse sentido, o Ferrari Elettrica vai recorrer a quatro motores elétricos, com tecnologia derivada diretamente da Fórmula 1, capazes de debitar mais de 1000 cv em modo de sobrepotência.
A base técnica inclui uma arquitetura elétrica de 800 V e uma bateria desenvolvida internamente. Segundo a Ferrari, a bateria terá um sistema de arrefecimento particularmente sofisticado, para garantir que o desempenho não fica condicionado mesmo quando a exigência é máxima.
No conjunto, a marca afirma ter registado mais de 60 patentes específicas para este modelo. O Elettrica contará ainda com suspensão ativa, um sistema avançado de vetorização de binário e uma solução técnica que permite desacoplar o eixo dianteiro, convertendo o carro num autêntico “tudo atrás”.
E há um detalhe que promete dividir opiniões: ao contrário de outras marcas, a Ferrari optou por não usar sons artificiais. O som que se vai ouvir deverá resultar apenas dos próprios motores elétricos e do sistema motriz, sendo depois amplificado como numa guitarra elétrica. Se a ideia funciona no mundo real? Só com o tempo (e com os primeiros quilómetros) será possível tirar conclusões.
A par da tecnologia, há ainda o desafio do peso, da gestão térmica e da sensação ao volante - pontos críticos num elétrico de alto desempenho. A Ferrari terá de garantir que a entrega de potência, a travagem e a leitura de chassis continuam a ser “Ferrari”, mesmo com uma bateria de grandes dimensões e com uma arquitetura diferente da habitual.
Também será interessante perceber como a marca vai enquadrar o Elettrica num ecossistema que, para muitos clientes, é tão importante como o carro: experiência de carregamento, aconselhamento na instalação doméstica e integração com rotas e destinos. Num produto deste nível, a conveniência tem de estar à altura do emblema.
O que esperar do novo capítulo 100% elétrico
Este poderá ser um dos lançamentos mais relevantes da Ferrari em décadas - não por ser, necessariamente, o mais potente ou o mais rápido, mas por ser aquele que empurra Maranello para um território verdadeiramente novo.
Convém lembrar que a Ferrari já convive com eletrificação há algum tempo: em modelos de produção como o SF90 Stradale, o 296 GTB e até o LaFerrari, e também em competição, tanto na Fórmula 1 como no Mundial de Resistência. Ainda assim, esta será a primeira vez que o construtor lança um automóvel de estrada 100% elétrico. E isso, goste-se ou não, é um desafio sem precedentes para a identidade da marca.
Só quando for possível conduzir o Elettrica se vai perceber se a Ferrari “acertou à primeira” no seu elétrico. Até lá, resta aguardar pela apresentação completa, marcada para a primavera do próximo ano.
Por enquanto, para lá dos dados técnicos discutidos no Auto Rádio, sabe-se apenas que será um modelo familiar de quatro lugares, com uma carroçaria que não deverá afastar-se muito do Purosangue ou do mais antigo GTC4Lusso.
Encontro marcado no Auto Rádio na próxima semana
Razões não faltam para ver/ouvir o episódio mais recente do Auto Rádio, que regressa na próxima semana às plataformas habituais: YouTube, Apple Podcasts e Spotify.
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