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Salvar mais de 100.000 elefantes para restaurar florestas em África é visto como conservação, mas críticos alertam para riscos ecológicos e impacto humano.

Dois especialistas apontam para elefantes numa reserva natural durante o pôr do sol com plantações e mapas no chão.

Logo a seguir ao nascer do sol, no norte do Botswana, o mato parece falar outra língua. O chão vibra com passos pesados e almofadados que levantam pó, e os ramos estalam como tiros quando uma manada de elefantes se enfia no bosque de mopane, transformando árvores inteiras em guarda-sóis partidos em poucos segundos. Lá em cima, ouve-se o roncar constante de um helicóptero: guardas florestais debruçam-se com câmaras de teleobjetiva, a contar dorsos cinzentos que, à distância, lembram rochedos em movimento. Dizem-nos que este ruído é o som de um triunfo da conservação - mais de 100.000 elefantes recuperados do abismo, a regressar em força por partes da África Austral e Oriental, e a alterar florestas que antes estavam mais quietas.

Mas basta caminhar com quem cultiva os campos logo para lá da vedação do parque para o enredo ganhar outra curvatura. Milho deitado por terra numa noite. Depósitos de água rasgados. Antigos corredores de migração a chocarem com aldeias recém-construídas. A pergunta que fica suspensa no ar quente e imóvel já não é só “Quantos elefantes existem?”

É: “A que preço?”

Quando salvar elefantes redesenha o mapa inteiro

Quem trabalha no terreno com ecologia repete a mesma advertência: elefantes em excesso, no sítio errado, conseguem converter uma floresta densa num matagal aberto. Uma única manada pode passar uma tarde num pequeno bosque de acácias jovens e, quando sai, a copa desapareceu - como se alguém tivesse levantado o telhado de uma casa. Se multiplicarmos isto por dezenas de milhares de animais ao longo de anos, o resultado não é apenas desgaste local: são paisagens inteiras a mudar de forma. O que, visto de cima, pode parecer um postal paradisíaco, ao nível do chão assemelha-se a uma tempestade lenta, entre cepos e troncos partidos.

É este o paradoxo que hoje molda muitas áreas protegidas em África. O continente conseguiu um dos maiores regressos da conservação à escala global, sobretudo em países como o Botswana, o Zimbabué e a África do Sul. Contudo, o êxito de salvar mais de 100.000 elefantes começa, por si só, a repintar as fronteiras entre floresta, savana e agricultura - não apenas em imagens de satélite, mas no quotidiano de quem lá vive.

No Parque Nacional de Hwange, no Zimbabué, houve um tempo em que os guardas temiam que os últimos elefantes desaparecessem sob a pressão da caça furtiva. Hoje, a ansiedade mudou de foco: a água. Furos artesianos abertos há décadas para ajudar a fauna a atravessar secas severas acabaram por criar aquilo que alguns cientistas descrevem como “ímanes de elefantes”. As manadas concentram-se nesses pontos, em vez de seguirem os movimentos de antigamente. À volta das fontes, as árvores são descascadas e desfolhadas ano após ano, até a área parecer um terreno lunar. As girafas afastam-se. Pequenos herbívoros que dependem de cobertura perdem abrigo. Aves que nidificam em árvores altas mudam-se em silêncio - se ainda houver para onde ir.

Fora do limite do parque, as famílias das aldeias próximas conhecem demasiado bem essas manadas. Campos de sorgo e de milho, semeados com dinheiro emprestado e expectativas enormes, podem desaparecer numa única noite sob trombas famintas. Um ataque chega para arruinar uma estação inteira. As crianças passam a caminhar mais longe para recolher lenha porque as árvores mais próximas já não existem. E é nesse momento que, no espaço que os elefantes ocupam, a admiração dá lugar ao ressentimento.

Os especialistas não estão totalmente alinhados sobre onde fica o ponto de viragem. Há quem sublinhe que os elefantes sempre foram “engenheiros do ecossistema”: derrubam árvores, abrem luz para as gramíneas, alimentam antílopes e impedem que os bosques engulam por completo as savanas. Em paisagens mistas, e com densidades moderadas, a sua presença pode até aumentar a biodiversidade. Outros alertam que cercas, alterações climáticas e água artificial mudaram as regras antigas. Predadores naturais, longas rotas de migração e secas sazonais limitavam números e movimentos. Agora, em certas zonas, os elefantes ficam encurralados, com pessoas e culturas agrícolas por todos os lados.

E sejamos francos: quase ninguém se senta, serenamente, a comparar a integridade de uma floresta com uma manada de crias irresistíveis numa publicação do Instagram. As decisões aparecem sob pressão, em salas de reunião longe do som de ramos a partir. Depois de uma população ser celebrada como vitória mundial, qualquer conversa sobre reduzi-la - por contraceção, translocação ou abate - torna-se dinamite política.

Ferramentas de gestão de populações de elefantes: o arsenal imperfeito de que poucos gostam de falar

Em teoria, as opções para gerir populações de elefantes em crescimento parecem organizadas e claras. É possível:

  • abrir corredores para que as manadas circulem entre países, aliviando parques sobrecarregados;
  • aplicar contraceção em fêmeas, reduzindo nascimentos em zonas com conflito elevado;
  • realizar translocação de famílias inteiras para reservas com menos animais, por vezes atravessando fronteiras, em operações complexas com gruas e aviões de carga.

As estratégias existem. O problema é que nenhuma é simples.

Criar corredores implica, muitas vezes, convencer comunidades a reconfigurar a vida em torno das rotas de gigantes. A contraceção exige dardos regulares, helicópteros, veterinários experientes e orçamentos de longo prazo. A translocação soa heroica até ao dia em que uma matriarca, sob stress, morre durante o transporte - e, de repente, aquele vídeo brilhante de conservação já não é visto da mesma forma. Em cada solução técnica há sempre uma história humana cosida por dentro.

Quem vive ao longo de rotas de elefantes na Tanzânia, em Moçambique ou no Quénia, quando fala baixinho e sem câmaras, repete um padrão: raramente é “anti-elefante”. É, acima de tudo, “anti-ser-ignorado”. Uma vedação partida pode ser comunicada cinco vezes antes de alguém do parque aparecer. As compensações por culturas destruídas chegam tarde - ou nunca chegam. As crianças dormem com um ouvido acordado, à espera do rumor grave que anuncia uma manada a aproximar-se. É a sensação conhecida de um sistema desenhado para outra pessoa, algures longe, e não para quem está ali.

Enquanto isso, organizações de conservação lançam campanhas polidas sobre “reflorestar” e devolver vida aos bosques africanos, e os agricultores escolhem entre vigiar o campo durante a noite ou aparecer descansados na escola e no trabalho. Os críticos dizem que o custo humano é tratado demasiadas vezes como nota de rodapé. Quem defende a conservação responde que receitas do turismo, créditos de carbono e boa vontade internacional dependem de manter números de elefantes altos e visíveis. Entre estas duas realidades ficam campos queimados, noites inseguras e confiança partida.

Há ainda um lado prático que ganha peso: a prevenção pode ser mais barata do que reparar danos. Em algumas zonas, combinam-se vedações reforçadas, iluminação direcionada e patrulhas comunitárias com dissuasores de baixo custo - como cercas com malagueta (piri-piri), alarmes simples e até barreiras biológicas (por exemplo, colmeias) que aproveitam a aversão dos elefantes a picadas. Não são soluções milagrosas, mas reduzem invasões quando estão integradas num plano consistente e financiado.

Outro ponto cada vez mais citado por líderes locais é a transparência. Quando as comunidades conseguem ver, de forma clara, quanto rende o turismo ou um projeto de carbono, e como esse dinheiro é distribuído, o conflito tende a diminuir. Sem regras simples e públicas, qualquer promessa vira suspeita - e nenhuma vedação, por si só, repara essa fratura social.

É neste contexto que surge uma nova geração de conservacionistas africanos, líderes comunitários e cientistas, a tentar mudar o enquadramento do debate. Insistem que contar elefantes, por si só, é uma métrica do século XX para uma crise do século XXI.

“Proteger elefantes sem proteger a dignidade das pessoas que vivem ao lado deles não é uma história de sucesso”, afirma um técnico de planeamento da conservação no Quénia, envolvido em corredores transfronteiriços. “Se perdermos o apoio das comunidades, perdemos tudo.”

Para sair do ciclo de gritos, alguns projetos vão testando, discretamente, modelos mistos que colocam florestas, elefantes e pessoas na mesma linha do orçamento. Normalmente incluem:

  • partilha de receitas do turismo ou de mercados de carbono, com regras claras e transparentes;
  • equipas de resposta rápida a ataques às culturas, usando luzes, cercas com malagueta (piri-piri) ou drones;
  • guardas comunitários recrutados nas aldeias, com pagamento e formação a longo prazo;
  • cartografia participativa para que as aldeias decidam por onde os corredores podem passar;
  • números de elefantes mais flexíveis, orientados pela saúde do ecossistema e não apenas pelo simbolismo.

A verdade nua é que isto não soa tão romântico como “salvar 100.000 elefantes”. Mas ser menos romântico não o torna menos indispensável.

Um futuro escrito em pegadas e cepos

Se, na estação seca, ficarmos à beira de uma floresta fortemente pastada, quase conseguimos ver o futuro a entrar. Árvores jovens esmagadas, troncos mais velhos marcados de branco onde a casca foi arrancada, e buracos na copa por onde a luz inunda o chão. Nesses espaços abertos, as gramíneas prosperam e chamam antílopes, zebras e os predadores que os seguem. Para algumas espécies, o aumento de elefantes é uma dádiva. Para outras, é uma erosão lenta. A mesma paisagem é banquete e escassez - depende de quem estamos a observar a tentar sobreviver.

O que ainda ninguém consegue afirmar com segurança é a velocidade a que florestas e bosques africanos conseguem adaptar-se às pressões atuais. Extremos climáticos, incêndios, vedações e expansão agrícola somam-se ao impacto dos elefantes de uma forma tão sobreposta que falar de causa e efeito simples quase soa ingénuo. Uma seca pode empurrar manadas para áreas novas, desencadeando conflito em aldeias que nunca tinham tido de pensar em ataques às culturas. Uma estrada recém-aberta pode cortar uma rota migratória ao meio, prendendo animais em lugares onde consomem as últimas árvores disponíveis apenas para se manterem vivos.

A discussão em torno destes mais de 100.000 elefantes “salvos” obriga-nos a perguntas desconfortáveis sobre o que, afinal, é sucesso. Será um número a subir num diapositivo numa conferência europeia? Uma floresta tropical a recuperar na periferia da Bacia do Congo? Ou uma avó numa zona rural do Quénia que consegue plantar feijão sem dormir com uma lanterna ao lado da cama? Diferentes intervenientes, mesmo sentados à mesma mesa, acabam por priorizar respostas diferentes - muitas vezes sem o admitir.

Ponto-chave Detalhe Valor para quem lê
Os elefantes remodelam as florestas Em densidades elevadas, podem transformar bosques de copa fechada em mato aberto, alterando que plantas e animais conseguem persistir Ajuda a olhar para além de “animais fofos” e perceber as implicações ecológicas profundas por trás das manchetes sobre conservação
O custo humano é real e contínuo Ataques às culturas, noites inseguras e sistemas fracos de compensação alimentam ressentimento junto a parques e corredores Recorda que a conservação duradoura depende do apoio local, não apenas de leis ou donativos
As soluções são complexas, mas existem Corredores, contraceção, translocação e modelos de partilha de receitas funcionam melhor quando as comunidades co-lideram Oferece uma visão mais realista e esperançosa do que pode significar, na prática, “salvar elefantes”

Perguntas frequentes

  • Há mesmo “elefantes a mais” em algumas partes de África?
    Em certos parques e regiões, sim: os números cresceram para além do que habitats cercados ou fragmentados conseguem suportar de forma sustentável. Isso não significa que existam “elefantes a mais” em todo o continente; significa, antes, que há bolsões sob pressão intensa, tanto ecológica como social.

  • De que forma os elefantes estão a alterar florestas e bosques?
    Partem ramos, derrubam árvores e arrancam casca. Em níveis moderados, isto pode aumentar a biodiversidade, criando um mosaico de áreas abertas e fechadas. Em densidades muito elevadas, sobretudo quando o movimento está limitado, os danos podem ultrapassar a capacidade de regeneração, levando a paisagens mais abertas e degradadas.

  • Porque é que algumas comunidades locais se opõem à conservação dos elefantes?
    A maioria não se opõe aos elefantes em si. O que provoca revolta é viver com riscos diários - perda de colheitas, casas danificadas, e por vezes feridos ou mortes - sem apoio justo, respostas rápidas, ou uma parte real das receitas do turismo e da conservação.

  • O abate é usado para controlar números de elefantes?
    Alguns países recorreram ao abate no passado, e a ideia ainda aparece em debates de política. Atualmente é extremamente controversa, politicamente explosiva, e muitas vezes rejeitada em favor de corredores, contraceção e relocalização - embora essas opções também tenham custos e limites.

  • O que pode fazer, de forma realista, quem vive longe para ajudar?
    Apoie organizações que trabalham com conservação liderada por comunidades, e não apenas com “resgates” que parecem bons em fotografia. Repare se os projetos falam das pessoas locais, não só dos animais. E, ao viajar, escolha alojamentos e operadores que partilhem receitas com as aldeias vizinhas e incluam trabalhadores locais na tomada de decisões.

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