Hoje, na prática, apenas cerca de 10% das pessoas frequenta a igreja com regularidade. É uma mudança impressionante quando comparamos com a realidade de há apenas algumas décadas.
Então, o que aconteceu? Porque é que tantos europeus viraram as costas à igreja?
Porque é que a igreja deixou de falar a esta geração? Será que a sociedade mudou de tal forma que já não há espaço para a fé - ou será que, em alguns casos, a própria igreja se transformou em algo que nunca deveria ter sido?
A minha relação com a igreja foi tudo menos uniforme, e foi moldada por dois cenários completamente distintos.
Duas experiências muito diferentes de igreja
A primeira memória que tenho de igreja leva-me para o coração da Amazónia, no Brasil, onde os meus pais serviram como missionários durante grande parte da minha infância. Em família, seguíamos de barco pelos afluentes do Rio Amazonas, visitando pequenas comunidades de ribeirinhos - pessoas que vivem nas margens do rio.
Durante o dia, o meu pai arrancava centenas de dentes já apodrecidos para aliviar dores insuportáveis; a minha mãe ajudava a trazer bebés ao mundo e prestava apoio médico a quem precisasse. Nessa realidade, a igreja era descomplicada: bastava um abrigo feito com folhas de palmeira secas para se ter um “santuário”, e as pessoas reuniam-se ali com alegria.
Elas saíam da floresta e passavam horas juntas a cantar canções cheias de vida, com o meu pai a acompanhar ao acordeão. Depois vinha uma história simples da Bíblia, muitas vezes contada pela minha mãe de forma tão envolvente que até as crianças mais pequenas ficavam presas a cada palavra. O ambiente era leve e informal. A minha “melhor roupa de domingo” eram calções e chinelos. A igreja era quente, barulhenta e cheia de movimento - com galinhas e cachorrinhos a circularem livremente pelo meio da congregação.
A segunda experiência surgiu quando os meus pais visitaram a Irlanda do Norte. Eu devia ter uns seis anos. Chegou a manhã de domingo e eu saí de casa a sentir-me preso, como se estivesse embrulhado numa camisa de forças, enfiado num fato de três peças. Nunca tinha sequer visto uma camisa com gravata, quanto mais usá-la. A minha irmã parecia tão desconfortável quanto eu, arranjada como uma boneca em tamanho real.
A igreja (o edifício) e a atmosfera
O edifício era enorme, em tijolo vermelho, com vitrais. Ao entrar, o que me atingiu primeiro foi a penumbra e um cheiro húmido a bolor. O chão estava coberto por uma alcatifa azul-escura, e as paredes tinham madeira escura do chão ao tecto. Os bancos eram particularmente duros, com encostos num ângulo tão direito que parecia feito para impedir qualquer relaxamento.
Os homens vestiam fatos escuros, e as mulheres davam a impressão de terem saído directamente de um retrato da família real. As crianças permaneciam rígidas ao lado dos pais, quase sem ousar mexer-se. Depois, a música irrompeu por todo o espaço a partir de um enorme órgão de tubos - tão alto que as notas graves faziam vibrar o chão e pareciam subir-me pelas costelas. Todos cantavam a partir de um livro, mas a melodia era pesada e triste.
Hoje, ao recordar, sei perfeitamente qual destas experiências marcou o meu coração. Apesar do calor da selva, continuo muitas vezes a desejar aquela igreja simples nas margens do Rio Amazonas.
Igreja no Algarve e o que aprendi com o tempo
Agora, já nos meus cinquenta e muitos anos, continuo a amar a igreja. Aliás, sou pastor de uma igreja aqui no Algarve há dezoito anos, e a minha vida gira literalmente à sua volta. Embora a minha caminhada com a igreja tenha sido, por vezes, irregular - incluindo momentos negativos e até traumáticos - permaneci firme, porque fui compreendendo, com o tempo, o que a igreja realmente é.
É verdade que, em muitos lugares da Europa, a igreja perdeu influência por várias razões: rotinas cada vez mais aceleradas, individualismo, desconfiança em instituições, e também feridas causadas por incoerências, disputas internas ou escândalos. Ainda assim, reduzir tudo isto a “as pessoas já não querem Deus” é demasiado simples. Em muitos casos, o afastamento não é rejeição de Jesus, mas cansaço de formas vazias, falta de acolhimento ou ausência de sentido.
Ao mesmo tempo, há um aspecto que raramente se destaca: quando uma igreja vive a sua vocação de forma saudável - com serviço, amor prático e verdade - ela volta a tornar-se um lugar de cura. Em Portugal, tem-se visto isso em comunidades que apoiam famílias, combatem a solidão, cuidam dos mais frágeis e ajudam pessoas a reencontrar esperança, sem espectáculo nem pressão.
Encontrar respostas na Bíblia: a igreja bíblica
Não cheguei às respostas a olhar para edifícios, estilos arquitectónicos ou tradições religiosas. Encontrei-as ao regressar à Bíblia e ao deixar que a própria Escritura definisse o que é uma igreja verdadeira - e já a vi expressa tanto em contextos formais como informais. No fim de contas, a igreja não é uma invenção humana nem um projecto institucional: ela nasceu no coração de Deus.
A igreja é uma forma de Deus se relacionar com a humanidade. Pode acontecer debaixo de uma palmeira ou dentro do edifício mais elaborado. De acordo com a Bíblia, a igreja não pertence a uma pessoa, a uma denominação ou a uma tradição. A igreja é feita de pessoas - pessoas imperfeitas que seguem Jesus. Na verdade, a igreja parece menos um museu para santos e mais um hospital para doentes, onde a Palavra de Deus (a Bíblia) é o remédio e Jesus é a cura.
A Bíblia recorre a várias imagens para explicar a igreja, e algumas podem surpreender. Quando paramos para pensar nelas, percebemos que a igreja real é bem diferente da ideia que muitos aprenderam. Ela é um corpo, um edifício espiritual, a Noiva de Cristo, entre outras analogias. Mas há uma que me toca de forma especial: a igreja é a família de Deus - uma comunidade unida pelo amor. É composta por pessoas de todas as raças, línguas e nações, reunidas como um só povo.
E a Escritura resume isso de forma belíssima:
Efésios 2:19–22 (Nova Tradução Viva)
19 Portanto, agora vocês, que não eram judeus, já não são estrangeiros nem forasteiros. São cidadãos juntamente com todo o povo santo de Deus e membros da família de Deus. 20 Juntos, somos a sua casa, edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, e tendo o próprio Cristo Jesus como pedra angular. 21 Nele, todo o edifício é bem ajustado e cresce para tornar-se um templo santo no Senhor. 22 E nele também vocês estão a ser edificados, juntamente com os demais, para se tornarem morada de Deus por meio do seu Espírito.
Isto é a igreja bíblica - não um prédio, não um conjunto de costumes, mas um corpo vivo, uma família, uma casa espiritual, cheia de propósito, amor e graça. A morada de Deus.
E se voltasses a dar uma oportunidade à igreja?
Seja qual for a tua experiência passada com igreja, porque não experimentar novamente? Há um número crescente de igrejas por todo o Portugal, e uma pesquisa no Google pode orientar-te rapidamente. Umas são mais informais, outras mais tradicionais, mas há muitas comunidades que podem ser uma bênção para ti.
E se neste momento não consegues participar numa igreja, porque não começar por ler a Bíblia e descobrir como é, afinal, uma igreja verdadeira?
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário