Um novo exame poderá vir a ajudar a detetar problemas de memória associados à doença de Alzheimer em apenas três minutos.
De acordo com resultados publicados recentemente, o teste Fastball EEG poderá, no futuro, permitir que os médicos identifiquem rapidamente quem deve avançar para avaliações mais aprofundadas da doença de Alzheimer - evitando esperas desnecessárias e procedimentos demorados.
Porque é tão difícil diagnosticar precocemente a doença de Alzheimer
A doença de Alzheimer afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Trata-se de uma doença progressiva: as células do cérebro vão sendo lentamente danificadas e acabam por morrer, o que se traduz em perda de memória, confusão e dificuldades no raciocínio e nas tarefas do dia a dia.
O processo patológico começa muito antes de surgirem sintomas evidentes. Proteínas como a amiloide e a tau vão-se acumulando no cérebro, formando placas e emaranhados que perturbam a comunicação entre neurónios. Quando os problemas de memória já são suficientemente marcados para suportar um diagnóstico, uma parte substancial do dano pode já ter ocorrido.
Importa sublinhar que os sinais e sintomas da doença de Alzheimer não evoluem da mesma forma em todas as pessoas. Por isso, a quantidade de placas de amiloide e de emaranhados de tau no cérebro nem sempre corresponde diretamente à gravidade clínica da doença.
Além disso, a presença de placas e emaranhados tende a ser estimada através de exames de imagem ou análises ao sangue. Em conjunto, estes fatores tornam a doença de Alzheimer difícil de diagnosticar e ainda mais desafiante de prever quanto à progressão - razão pela qual os investigadores procuram testes capazes de identificar alterações mais cedo.
Testes atuais: úteis, mas demorados e nem sempre práticos
Tradicionalmente, o diagnóstico tem assentado em testes de rastreio cognitivo, nos quais o médico pede ao doente que memorize palavras, copie desenhos ou resolva tarefas de raciocínio. Embora estes instrumentos sejam úteis, exigem tempo e profissionais com formação específica. Podem também ser stressantes e ser influenciados por fatores como o nível de escolaridade, as competências linguísticas ou a ansiedade perante a avaliação.
Há ainda opções de diagnóstico mais avançadas - como exames cerebrais e análise laboratorial do líquido cefalorraquidiano (o fluido que protege o cérebro e a medula espinhal) - que podem indicar a presença de alterações compatíveis com Alzheimer no cérebro. No entanto, estes métodos tendem a ser caros e invasivos.
Como funciona o teste Fastball EEG (e porque é diferente)
O teste Fastball EEG segue uma abordagem distinta: em vez de exigir que a pessoa recorde ativamente informação ou resolva problemas, mede a forma como o cérebro reage a imagens apresentadas rapidamente num ecrã.
Primeiro, os participantes observam um conjunto de oito imagens e são convidados a nomeá-las, mas sem a instrução de as memorizar.
Depois, durante o teste propriamente dito, são apresentadas centenas de imagens em sequência rápida - cerca de três por segundo. A cada cinco imagens, surge uma das oito imagens vistas anteriormente. Um capacete de EEG (eletroencefalografia) regista a atividade elétrica cerebral e capta sinais muito subtis que indicam se o cérebro reconhece aquelas imagens familiares.
Em pessoas saudáveis, a resposta de reconhecimento é nítida. Já em pessoas com compromisso cognitivo ligeiro (CCL) - dificuldades de pensamento, memória ou resolução de problemas que muitas vezes antecedem a doença de Alzheimer - e, em particular, naquelas com queixas de memória, essa resposta tende a ser mais fraca.
Um ponto relevante é que o EEG não “lê pensamentos” nem mede memória de forma direta: capta padrões elétricos associados ao processamento de informação. A vantagem desta estratégia é reduzir a dependência de esforço consciente, o que pode tornar o resultado menos vulnerável a fatores como nervosismo, fadiga ou diferenças culturais e educacionais.
O que o estudo encontrou: CCL amnésico vs. CCL não amnésico
Para avaliar a adequação do método, os investigadores recrutaram 106 participantes: 54 adultos saudáveis e 52 pessoas com CCL. Dentro do grupo com CCL, alguns apresentavam problemas centrados na memória (CCL amnésico), enquanto outros tinham dificuldades que não se focavam na memória - por exemplo, alterações de atenção (CCL não amnésico).
Os resultados indicaram que o teste Fastball foi suficientemente sensível para distinguir estes grupos. As pessoas com CCL amnésico mostraram uma redução significativa da resposta cerebral às imagens familiares quando comparadas com adultos saudáveis e com participantes com CCL não amnésico. Em termos práticos, o exame conseguiu identificar rapidamente o tipo de alteração de memória mais associado às fases iniciais da doença de Alzheimer.
Repetição ao fim de um ano: sinais promissores, mas ainda com cautela
Os investigadores repetiram o teste um ano depois. Entre os participantes que inicialmente tinham apenas CCL, alguns evoluíram para demência da doença de Alzheimer ou para outro tipo de demência, a demência vascular, que pode apresentar sintomas semelhantes aos do Alzheimer.
Aos participantes que desenvolveram demência foi também pedido que realizassem os testes cognitivos padrão atualmente usados no diagnóstico de Alzheimer.
Nesses testes tradicionais, estes participantes revelaram pouca ou nenhuma diferença, sugerindo que tais instrumentos não foram suficientemente sensíveis para captar a transição de CCL para demência. No entanto, no teste Fastball EEG, o desempenho foi ligeiramente pior do que no ano anterior.
Ainda assim, entre os 42 participantes com CCL que repetiram o teste Fastball ao fim de um ano, apenas oito tinham transitado para demência. Por isso, apesar de os resultados serem encorajadores quanto à precisão do teste, devem ser interpretados com prudência, dado o número reduzido de casos que evoluíram.
O futuro do diagnóstico com o teste Fastball EEG e outros biomarcadores
Um aspeto decisivo é a rapidez: o exame demora apenas três minutos. Além disso, não depende tanto do empenho, do humor ou da “capacidade de fazer testes”, fatores que podem enviesar avaliações cognitivas. Em teoria, poderia ser realizado em casa ou numa consulta de medicina geral e familiar, o que poderá diminuir a ansiedade e facilitar o acesso de mais pessoas ao rastreio.
Apesar disso, o estudo não incluiu outras situações em que também pode existir défice de memória - como depressão ou problemas da tiroide. Por esse motivo, o teste não pode ser encarado como ferramenta de diagnóstico única para a doença de Alzheimer. Serão necessários estudos futuros, em populações mais diversas e com controlo destas condições, para clarificar melhor forças, limitações e potencial de utilização.
Em paralelo, existem outros testes em desenvolvimento que poderão ser mais específicos para a doença de Alzheimer. Por exemplo, análises ao sangue poderão transformar o diagnóstico quando estiverem mais amplamente disponíveis. Estes testes quantificam proteínas associadas ao Alzheimer e oferecem uma visão do que está a acontecer no cérebro. Algumas abordagens em estudo exigiriam apenas uma pequena picada no dedo; se se confirmarem fiáveis, poderiam permitir colheitas em casa e envio para análise.
Uma implementação realista no sistema de saúde passará, provavelmente, por combinar ferramentas: métodos rápidos como o teste Fastball EEG para triagem e estratificação de risco, seguidos de exames mais específicos (incluindo biomarcadores no sangue e, quando indicado, exames de imagem). Esta lógica poderá ajudar a deslocar o foco dos cuidados na doença de Alzheimer do diagnóstico tardio para a intervenção precoce.
Ao identificar pessoas em risco anos mais cedo, os médicos poderão recomendar mudanças no estilo de vida, acompanhar com maior proximidade e iniciar terapias adequadas numa fase em que ainda podem ter maior impacto.
Eleftheria Kodosaki, bolseira de investigação em Neuroimunologia, UCL
Este artigo foi republicado a partir da plataforma The Conversation ao abrigo de uma licença CC. Leia o artigo original.
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