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Plástico encontrado em mais de 50% das placas em artérias obstruídas.

Modelo tridimensional de artéria com placa de gordura, estetoscópio, garrafa de água e copo com canudo numa mesa.

Os plásticos tornaram-se omnipresentes e, hoje, já se encontraram fragmentos minúsculos em vários órgãos principais do corpo humano, incluindo a placenta.

Perante a facilidade com que estas partículas microscópicas conseguem entrar nos nossos tecidos, torna-se essencial perceber com rigor que tipos de riscos podem representar para a saúde.

O que já se sabia sobre microplásticos (e o que faltava saber)

Nos últimos anos, equipas científicas têm investigado os efeitos dos microplásticos em modelos laboratoriais que reproduzem pequenos “mini-órgãos” e também em ratos, para inferir de que forma poderiam interferir com o organismo humano. Ainda assim, as concentrações de microplásticos usadas em parte desses trabalhos podem não espelhar a exposição real do dia a dia, e continuam a existir poucos estudos conduzidos diretamente em pessoas.

Além disso, já tinham sido detetados microplásticos a circular no sangue humano - um sinal suficiente para levantar preocupações sobre possíveis impactos no sistema cardiovascular.

Microplásticos, placas ateroscleróticas e risco cardiovascular

Em março, um pequeno estudo realizado em Itália identificou fragmentos de microplásticos em depósitos gordos removidos cirurgicamente a doentes submetidos a um procedimento para desobstruir artérias entupidas - e acompanhou a evolução da sua saúde durante quase 3 anos.

A remoção de placas de gordura de artérias estreitadas através de uma endarterectomia carotídea reduz o risco de futuros AVC. A equipa responsável por este trabalho, liderada por Raffaele Marfella, investigador médico na Universidade da Campânia, em Nápoles, quis perceber como variava o risco de AVC - bem como de enfarte do miocárdio e morte - entre doentes cujas placas continham microplásticos e doentes sem microplásticos detetáveis.

Ao seguirem 257 doentes durante 34 meses, os investigadores observaram que quase 60% apresentavam quantidades mensuráveis de polietileno em placas extraídas de artérias espessadas por depósitos de gordura, e que 12% tinham também cloreto de polivinilo (PVC) nos depósitos removidos.

O PVC existe em versões rígidas e flexíveis e é usado, por exemplo, em canalização de água, garrafas de plástico, pavimentos e embalagens. Já o polietileno é o plástico mais produzido no mundo, muito usado em sacos, películas/filmes e também em garrafas.

O que os dados sugerem (e o que ainda não permitem concluir)

Trabalhos laboratoriais têm vindo a indicar que os microplásticos podem desencadear inflamação e stress oxidativo em células cardíacas, comprometer a função do coração, alterar o ritmo cardíaco e provocar cicatrização do tecido cardíaco em animais, como ratos.

Marfella e colegas acrescentam ainda que “dados observacionais de estudos sobre exposição ocupacional também sugerem um risco aumentado de doença cardiovascular entre pessoas expostas a poluição associada a plásticos, incluindo cloreto de polivinilo, quando comparadas com a população geral”.

No estudo, os doentes com microplásticos nas placas removidas cirurgicamente tiveram uma probabilidade 4,5 vezes maior de sofrer um AVC, um enfarte não fatal, ou de morrer por qualquer causa ao fim de 34 meses, face a pessoas em cujas placas não se detetaram microplásticos.

Como foi feita a deteção de microplásticos e nanoplásticos

As quantidades de microplásticos - e de partículas ainda menores, os nanoplásticos - foram medidas com pirólise–cromatografia gasosa–espectrometria de massa. A presença destes materiais foi confirmada com uma segunda abordagem, a análise de isótopos estáveis, capaz de distinguir o carbono dos tecidos humanos do carbono presente em plásticos produzidos a partir de petroquímicos.

Os investigadores também conseguiram observar microplásticos com microscopia de alta potência: viram fragmentos com bordos irregulares no interior de células do sistema imunitário chamadas macrófagos e também dentro das placas de gordura. Ao analisarem as amostras de tecido, encontraram ainda níveis mais elevados de marcadores inflamatórios nos doentes que tinham microplásticos nas placas.

Limitações importantes do estudo

É crucial sublinhar que um estudo observacional deste tipo não permite afirmar, de forma definitiva, que os microplásticos estejam a causar os efeitos cardiovasculares observados; apenas mostra que existe uma associação. Além disso, este trabalho não considerou outros fatores de risco relevantes para doença cardiovascular, como tabagismo, inatividade física e poluição do ar.

Numa nota editorial associada, o pediatra, médico de saúde pública e epidemiologista Philip J. Landrigan, da Faculdade de Boston, salientou que, “embora não saibamos que outras exposições podem ter contribuído para os maus desfechos entre os doentes deste estudo, a identificação de microplásticos e nanoplásticos em tecido de placa é, por si só, uma descoberta decisiva que levanta uma série de questões urgentes”, incluindo como reduzir a exposição.

Porque é que a relação entre plásticos e coração exige mais investigação

A produção de plástico disparou nas últimas duas décadas e apenas uma fração foi reciclada. Ao mesmo tempo, em algumas regiões do mundo as taxas de doença cardiovascular têm vindo a diminuir, o que reforça a necessidade de mais investigação para compreender, com precisão, como estas tendências se cruzam - e se o eventual impacto dos microplásticos depende de dose, duração da exposição, composição do plástico, ou vulnerabilidades individuais.

Também será importante que estudos futuros controlem melhor fatores de confusão (como hábitos de vida e exposições ambientais), incluam amostras maiores e avaliem a exposição ao longo do tempo, para esclarecer se os microplásticos e nanoplásticos são apenas marcadores de outros riscos ou se têm um papel causal direto.

Exposição no quotidiano: fontes prováveis e medidas prudentes

Embora a ciência ainda esteja a definir o peso real destes materiais na saúde humana, sabe-se que a exposição pode ocorrer por várias vias, incluindo alimentos, água e ar (por exemplo, poeiras interiores e fibras libertadas por têxteis e materiais sintéticos). Medidas simples e razoáveis podem ajudar a reduzir a ingestão e inalação: evitar aquecer comida em recipientes de plástico, preferir vidro ou aço inoxidável para bebidas e refeições, ventilar bem a casa e reduzir a acumulação de poeira com limpeza húmida e filtros adequados, sempre que possível.

O estudo foi publicado na Revista de Medicina da Nova Inglaterra.

Uma versão deste artigo foi publicada originalmente em março de 2024.

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