Porque é que as notícias de saúde que juntam alimentação e cancro chamam tanta atenção? Porque vendem uma promessa sedutora: a ideia de que um único alimento no prato - ou uma alteração súbita no que lhe apetece comer - pode ser a chave para detetar uma doença mais cedo.
A realidade, porém, é muito menos simples. A ciência sobre apetite, paladar e cancro é bem mais confusa do que os títulos sugerem, e transformar um sinal isolado numa regra geral costuma dar mau resultado.
A versão “apelativa” da história simplifica em excesso: embora o cancro possa, de facto, alterar o apetite e o paladar, não existe evidência robusta de que um desejo repentino específico (por exemplo, uma fixação súbita por doces) seja um sinal precoce fiável de cancro ainda não diagnosticado.
No fundo, é um caso clássico em que relatos clínicos interessantes - e algumas histórias marcantes - foram esticados até parecerem uma regra de rastreio. E não são.
Cancro, apetite e paladar: o que a ciência realmente mostra
A “parte verdadeira” por trás destes títulos vem de observações em contexto clínico. Algumas pessoas com cancro relatam alterações no paladar e no apetite. Em descrições mais antigas, há doentes que referiram mudanças abruptas - como o chá passar a saber mal de um dia para o outro, ou alimentos preferidos se tornarem repugnantes - por vezes antes do diagnóstico, por vezes depois de iniciar o tratamento.
Estes relatos parecem convincentes, mas não foram concebidos para demonstrar que um desejo específico prevê cancro de forma consistente. Mostram apenas que a doença (e, muitas vezes, os tratamentos) pode mexer com a forma como provamos e comemos - não que um único sintoma substitui uma avaliação médica adequada.
A investigação mais recente aponta para um quadro muito mais complexo. Estudos sobre alterações do comportamento alimentar em torno do cancro incluem mudanças variadas: desejos (cravings), aversões, alimentação emocional e variações do apetite associadas aos tratamentos.
Além disso, os trabalhos abrangem diferentes tipos de cancro, diferentes estádios e diferentes momentos - antes, durante e após o tratamento. A mensagem global é que o comportamento alimentar pode mudar no contexto do cancro por influência de: - Biologia (inflamação e alterações do metabolismo); - Fisiologia (mudanças no paladar e no olfato); - Psicologia (stress, ansiedade e humor).
O que não aparece, de forma consistente, é um “padrão de desejo” que funcione como alarme precoce em pessoas saudáveis. Alterações do apetite podem fazer parte da história do cancro, mas não são um atalho de diagnóstico.
Também vale a pena lembrar que, na vida quotidiana, as mudanças de apetite e de gosto são extremamente comuns. Medicamentos, gravidez, stress, deixar de fumar e anemia, entre muitos outros fatores, podem alterar o que sabe bem e o que o corpo “pede”.
Um entusiasmo repentino por um alimento pode ser curioso, mas raramente aponta para uma causa única. É por isso que os médicos procuram conjuntos de sintomas e padrões persistentes, em vez de tirar conclusões a partir de uma única mudança.
Um ponto adicional: tratamentos e sintomas “da boca” também contam
Há ainda um aspeto frequentemente esquecido nos títulos: em muitas pessoas, as alterações do paladar e do apetite surgem por causa do tratamento e dos seus efeitos no organismo. Quimioterapia e radioterapia podem provocar náuseas, mucosite (feridas na boca), boca seca e alterações do olfato - tudo fatores que mudam a relação com a comida.
Nesses casos, o objetivo costuma ser prático: controlar sintomas, manter uma ingestão energética e proteica suficiente e evitar perda de peso acentuada, com apoio médico e, quando indicado, de nutrição clínica.
Mastigar gelo (pagofagia): quando um desejo aponta para uma causa tratável
Existe, contudo, uma área em que um “desejo” se liga de forma útil à saúde: mastigar gelo. Mastigar gelo de forma constante (um comportamento chamado pagofagia) pode ser um sinal de deficiência de ferro, que tem causas tratáveis e que vale a pena identificar e corrigir. Isto é completamente diferente de afirmar que tumores “programam” desejos por açúcar.
A pagofagia é um exemplo bem estabelecido de ligação entre um comportamento alimentar invulgar e uma condição específica, avaliável com análises. A própria deficiência de ferro é frequente e, não raras vezes, passa despercebida.
O ferro é essencial para produzir hemoglobina, a proteína que transporta oxigénio nos glóbulos vermelhos, e também participa em funções de energia e do sistema imunitário. Quando os níveis descem, os sinais podem ser pouco específicos: cansaço persistente apesar de dormir, pior tolerância ao esforço, falta de ar e dores de cabeça, entre outros.
Como estes sintomas se confundem com muitas outras situações, testar é mais importante do que adivinhar. O ferro pode vir de carne vermelha, aves, marisco, feijões, lentilhas, verduras de folha verde e cereais e pão fortificados. Ainda assim, uma alimentação “boa” não garante ferro suficiente se houver perdas elevadas, necessidades aumentadas ou má absorção - mais um motivo para confirmar o problema e tratá-lo com base em análises adequadas.
Sem pistas mágicas: o que fazer na prática
Voltando aos títulos, percebe-se porque é que supostos desejos “reveladores” prendem a atenção: prometem um sinal simples num tema assustador e complexo. Só que a medicina raramente oferece pistas mágicas.
Uma abordagem sensata tem dois passos:
Registar mudanças novas, persistentes e sem explicação no paladar ou no apetite - sem entrar em pânico. É importante olhar para o quadro completo: outros sintomas, infeções recentes, medicamentos, stress e estado geral. Se surgir pagofagia (mastigar gelo) ou se o cansaço se tornar teimoso, faz sentido avaliar deficiência de ferro.
Se a preocupação for risco de cancro, confiar em sinais de alarme conhecidos e em rastreios com benefício comprovado. Em geral, detetam muito mais cancros do que a perseguição de um desejo alimentar isolado.
Sinais de alarme que justificam avaliação médica incluem, por exemplo: - Perda de peso inexplicada; - Hemorragias fora do habitual; - Mudanças persistentes do trânsito intestinal; - Dificuldade em engolir; - Nódulos novos ou alterações em nódulos existentes.
Um risco extra: dietas extremas para “fazer morrer o tumor”
Este tipo de narrativa também pode empurrar para comportamentos prejudiciais, como tentar “fazer morrer” um tumor cortando nutrientes essenciais.
Restrições severas podem levar a perda de peso perigosa, desnutrição e pior tolerância aos tratamentos, prejudicando a recuperação em vez de ajudar. Tumores não “vencem” uma alimentação sensata. O que costuma ajudar mais é manter força com uma dieta equilibrada, manter atividade física quando possível, seguir rastreios e tratamentos baseados em evidência e recorrer a testes dirigidos - como estudos do ferro - quando os sintomas o sugerem.
O apetite e o paladar são indicadores sensíveis do estado de saúde e as suas mudanças merecem atenção. Mas são parte da conversa clínica - não uma bola de cristal.
Se algo parece errado e continua errado - seja uma nova aversão a alimentos habituais, uma fixação estranha que não desaparece, ou mastigar gelo constantemente - o próximo passo não é procurar significados escondidos online. É falar com um médico.
Análises simples podem excluir rapidamente problemas frequentes e, se houver algo mais sério, agir com base em sinais de alarme e recomendações de rastreio oferece a melhor hipótese de detetar a tempo.
Justin Stebbing, Professor de Ciências Biomédicas, Universidade de Anglia Ruskin
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença CC. Leia o artigo original.
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