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O colapso do El Niño em 2025 provocará seca em 19 países a partir de junho.

Pessoa a encher copo de água numa torneira, com homem a cultivar plantas em solo seco visto pela janela.

Num terça‑feira cinzenta de Março, observei um passageiro londrino à espera do comboio na plataforma, telemóvel na mão, a percorrer uma aplicação de meteorologia como se estivesse a seguir notícias de última hora. Chuva, chuva, chuva, um sol minúsculo e, logo a seguir, mais chuva. Suspirou, bloqueou o ecrã e entrou na carruagem. Ali dentro, ninguém imaginava que, a milhares de quilómetros, no Oceano Pacífico, a mesma engrenagem atmosférica que vinha a moldar discretamente aquele inverno encharcado estava a começar a desfazer-se de um modo capaz de deixar campos estalados e rios reduzidos a leitos secos quando chegasse o verão.

Quase todos já vivemos o instante em que a meteorologia deixa de ser conversa de elevador e passa a parecer uma personagem com vontade própria na nossa história. Desta vez, essa personagem tem nome: El Niño. E a forma como o colapso do El Niño em 2025 se desenrolar poderá redesenhar o verão em 19 países, a partir de Junho, quer estejam preparados ou não.

O fim silencioso do El Niño - e as consequências estrondosas

O El Niño não é uma tempestade isolada nem um episódio único; é uma alteração lenta e vasta no Pacífico que empurra o clima global para fora do seu equilíbrio habitual. Quando as águas do Pacífico central e oriental aquecem acima do normal, as correntes de jato oscilam, as faixas de precipitação deslocam-se e, algures numa exploração agrícola ou num bairro urbano, a rotina muda sem alarido. Depois, tal como parece ter “tomado conta” do mundo, o El Niño também pode enfraquecer e desaparecer - como uma maré a recuar. É precisamente essa fase de recuo, o “colapso”, que torna 2025 simultaneamente intrigante e perigoso.

Os cientistas do clima que seguem as temperaturas da superfície do mar já repetem a mesma expressão em tom contido: transição abrupta. De acordo com os modelos, o El Niño deverá perder força rapidamente durante a primeira metade de 2025, com possibilidade de passagem para condições neutras - ou até para La Niña - mais perto do fim do ano. No papel, pode parecer um regresso à normalidade. No terreno, para milhões de pessoas, pode significar semanas e meses de céu sem chuva e torneiras que começam a “tossir” mais do que a correr.

Quando o El Niño larga o sistema, não arruma tudo no lugar com precisão. A atmosfera responde com atraso, o oceano guarda “memória” e os padrões meteorológicos seguem em frente aos solavancos, como quem sai de um carrossel ainda a rodar. A tradução prática dos mapas, a partir de Junho, é um corredor de risco de seca a atravessar partes de África, da Ásia e das Américas. Nem todos os territórios serão atingidos da mesma maneira, mas a lista de países expostos é longa o suficiente para inquietar.

Dezanove países, um verão com sede

As secas raramente começam com um momento cinematográfico. Elas insinuam-se. Uma época chuvosa encurtada na Etiópia. Uma “batida” de monção que falha sobre a Índia. Um Junho estranhamente seco no sul de Espanha, seguido de um Julho em que o solo estala sob os pés como pão torrado de véspera. As equipas científicas que analisam o colapso do El Niño em 2025 estão a assinalar 19 países onde este padrão gradual tem elevada probabilidade de se instalar quando o Pacífico arrefecer e a atmosfera reorganizar as suas peças.

Antes de a seca se ver nos campos, tende a aparecer nos números: níveis de albufeiras a cair semana após semana, caudais em declínio, humidade do solo abaixo do esperado para a época. E, numa segunda fase, chega à rotina: restrições, conflitos locais por água, e decisões tomadas com pressa - quando o tempo para planear já passou.

Onde a chuva pode não aparecer

As maiores preocupações concentram-se nas zonas tropicais e subtropicais, onde o “despedir-se” do El Niño muitas vezes retira precipitação. Na América do Sul, surgem alertas para áreas do Brasil, Peru e Bolívia. No Leste de África, o foco recai sobre Quénia, Etiópia, Somália e Tanzânia. Do outro lado do planeta, Índia, Paquistão, Vietname, Tailândia e Filipinas ficam dependentes de uma monção no limite, que pode tropeçar precisamente quando as culturas mais precisam de chuvas regulares. A lista exacta varia de modelo para modelo, mas o desenho geral repete-se como um eco teimoso.

Mais a oeste e a norte, o sul da Europa também lê os gráficos com nervosismo. Espanha, Portugal, sul de Itália e Grécia guardam memórias recentes de leitos de rios transformados em caminhos poeirentos. Em 2025, se o colapso do El Niño coincidir com sistemas persistentes de alta pressão, essas memórias podem voltar - e com menos água. Em Madrid ninguém sentirá a brisa do Pacífico, mas poderá provar a sua ausência num copo de água cada vez mais caro ou racionado.

Estes 19 países não são apenas pontos “frágeis” num mapa; são também origens discretas do nosso café, fruta, cereais e roupa barata. Quando a chuva encolhe, não são só agricultores distantes a olhar para o céu. São compradores de grandes cadeias, armadores, transportadoras e, por fim, famílias a confrontarem-se com preços mais altos por bens que antes entravam no carrinho sem hesitação. Em 2025, a seca não vai respeitar fronteiras como se fosse uma questão doméstica.

Agricultores na primeira linha de uma previsão que se evapora

Falar com agricultores é receber um boletim meteorológico de outro tipo - feito de mãos, contas e risco, não de satélites. No oeste do Quénia, uma produtora de milho pode sair de casa ao amanhecer em Junho à espera do som suave da chuva no telhado, uma cadência com a qual sempre contou. Em vez disso, poderá encontrar um ar parado e quente, com plantas a murcharem cedo demais. Cada semana sem precipitação não é apenas desconforto: é rendimento perdido, refeições cortadas, propinas e material escolar que deixam de bater certo.

Na Índia, um produtor de arroz em Andhra Pradesh pode optar por adiar a sementeira “só mais uns dias”, à espera de uma monção que parece… atrasada. Depois, os dias viram semana, e o calendário começa a ameaçar. As decisões fazem-se com uma lógica quase desesperada: se a chuva chegar, a aposta pode render uma colheita aceitável; se falhar, a dívida de sementes, fertilizantes e gasóleo transforma-se num fardo para o ano seguinte. E sejamos francos: raramente alguém decide com folhas de cálculo e modelos climáticos; decide-se com instinto, conversa de vizinhança e a memória do que os pais fizeram.

Alguns governos vão emitir avisos de seca. As rádios aconselharão “variedades resistentes à seca” e “uso cuidadoso da água”. É sensato - e também soa a recomendação escrita por quem nunca teve de encarar um campo ressequido e explicar a uma criança porque é que o uniforme escolar tem de durar mais um ano. O colapso do El Niño em 2025 será medido em humidade do solo e anomalias de precipitação, mas vai ser sentido em discussões à mesa da cozinha e em mensagens nocturnas no WhatsApp a pedir ajuda a familiares na cidade.

Um detalhe frequentemente ignorado é que a adaptação custa dinheiro mesmo quando “corre bem”: mudar datas de sementeira, trocar culturas, perfurar um furo, comprar ração suplementar ou contratar transporte de água. Onde não existe acesso a crédito justo, seguros agrícolas funcionais ou apoio técnico de proximidade, a capacidade de reagir fica limitada - e a meteorologia transforma-se rapidamente num problema social.

A água que não chega à torneira

Cidades e vilas nesses 19 países também não ficam imunes. Em Lima, Nairobi ou Banguecoque, a narrativa da seca muitas vezes começa com um zumbido baixo nas estações de tratamento, bombas a esforçarem-se à medida que as reservas descem, semana após semana. Para a maioria das pessoas, os primeiros sinais são discretos: menos horas de abastecimento, um duche mais fraco, um depósito de plástico que, de repente, se torna o objecto mais valioso no telhado. Numa noite qualquer, a torneira engasga, cospe água acastanhada por um segundo e, depois, corre fina. Aí deixa de ser teoria.

A seca não esvazia apenas os campos; ela revela todas as fissuras do planeamento de um país. Canalizações envelhecidas, canais de rega com perdas, acordos injustos de partilha de água entre regiões - tudo vem ao de cima quando deixa de haver “suficiente para todos”. Em 2025, com o El Niño a colapsar e estes 19 países a entrarem na época seca, a pergunta não será só “vai chover?”, mas “quem recebe o quê quando não chove?”. É aqui que o tema deixa de ser apenas clima e passa a ser poder.

Um ponto adicional, raramente discutido fora dos círculos técnicos, é o papel da gestão de albufeiras e aquíferos: regras de descarga demasiado optimistas, captações ilegais e falta de monitorização podem acelerar o colapso do abastecimento urbano. Preparar-se não é só “pedir chuva”; é reduzir perdas, proteger nascentes e planear o uso de reservas antes de a crise obrigar a medidas bruscas.

Das correntes do Pacífico às mesas de cozinha

Há algo de surreal na diferença de escala entre a nossa vida e uma zona de oceano a aquecer com dimensões continentais. Pode estar sentado numa moradia geminada em Birmingham ou num apartamento em Berlim, preocupado com a renda, enquanto, ao fundo, um cientista aponta para um gráfico das temperaturas do Pacífico e diz: “Esta curvatura aqui - isto é problema.” Ainda assim, essas linhas acabam por decidir o preço do café da manhã e se os tomates do supermercado parecem tristes e caros.

Anos de El Niño frequentemente empurram os preços globais dos alimentos para cima, e o aperto depois do colapso pode ser igualmente duro. Se a colheita de soja no Brasil for afectada, o custo das rações sobe. Se o arroz indiano vacilar, podem surgir proibições de exportação, com ondas de choque a chegarem a África e ao Médio Oriente. Os 19 países com potencial seca não são histórias locais isoladas; são nós críticos de uma teia alimentar mundial que já está mais frágil do que gostaríamos de admitir.

Muitas vezes olhamos para uma factura um pouco maior e encolhemos os ombros: “é a inflação”. O verão de 2025 pode acrescentar uma camada diferente: inflação da seca, escondida em cereais, óleos, fruta e até água engarrafada. Entre o arrefecimento do Pacífico e o seu cesto de compras existe uma cadeia de navios, silos, intermediários e camiões que não consegue contornar um facto simples: nada cresce sem água.

O atraso emocional que ninguém põe num gráfico

Os meteorologistas falam de atraso do sistema - a forma como a atmosfera demora meses a reagir plenamente às mudanças no oceano. As pessoas também têm um atraso. Alguém numa aldeia ressequida do sul do Paquistão não se muda no dia em que o primeiro poço baixa. Espera. Confia. Convence-se de que as próximas nuvens serão diferentes. Quando percebe que não é um período seco “normal”, o gado já está magro e o dinheiro do autocarro para a cidade parece impossível.

Esse atraso emocional torna o colapso do El Niño em 2025 tão discreto e tão cruel. Os avisos já existem em artigos científicos e conferências de imprensa cautelosas, mas os pontos de decisão - semear ou não, perfurar um novo furo ou não, resistir ou partir - serão escolhidos por pessoas que recebem a informação tarde, filtrada e misturada com política local e rumores. A ciência vê o arco; as famílias vivem-no como uma sequência de pequenas surpresas dolorosas.

Preparar um verão que ainda não conhecemos

Há uma tentação, sobretudo em países mais ricos, de tratar histórias de clima como documentários distantes: importantes, inquietantes, mas a acontecer “a eles” noutro lugar. O colapso do El Niño em 2025 recusa essa narrativa confortável. Uma seca no Vietname pode interferir com cadeias de abastecimento de electrónica; um período seco no Brasil pode mexer no preço da carne; albufeiras vazias em Espanha podem alterar hábitos de férias europeus numa única estação. A teia está mais apertada do que muitos de nós preferem admitir.

Alguns países dessa lista de 19 vão correr para reagir: planos de emergência retirados da gaveta, contratos de transporte de água assinados, agências internacionais a enviar equipas de avaliação com pranchetas, dados de satélite e relatórios. Na televisão, poderá parecer organizado e até tranquilizador. Mas, por baixo desse verniz, nos locais onde a seca morde com mais força, as pessoas farão o que sempre fizeram: adaptar-se de forma imperfeita, inventiva e, por vezes, devastadora. Vender jóias. Trocar de culturas. Tirar crianças da escola “por um ano” - que afinal se transforma em três.

E sejamos honestos: quase ninguém consegue cumprir, todos os dias e para sempre, o manual perfeito das colunas de conselhos climáticos. Não andamos metodicamente a medir consumo de água, nem verificamos a pegada de carbono de tudo o que está no frigorífico. A vida é caótica demais. O que nos muda não é uma lista de dicas; é uma história que aterra perto: um primo a enviar fotografias de terra rachada, ou uma notícia a mostrar um produto familiar a desaparecer porque a quinta onde era produzido não vê chuva há meses.

Ouvir o oceano: El Niño, La Niña e os sinais antes das fendas

Os cientistas já vigiam o Pacífico como médicos de urgência a fixar um monitor cardíaco. Vêem a anomalia quente a encolher, os ventos alísios a ganhar força e os primeiros indícios de que a La Niña pode estar à espreita mais tarde em 2025 ou em 2026. Essa viragem - muitas vezes associada a cheias em alguns sítios e a secas ainda mais profundas noutros - mostra que isto não é uma história simples de “um ano mau e depois tudo volta ao normal”. É uma sequência: um ritmo de extremos por cima de um aquecimento de longo prazo que continua a empurrar a linha de base para cima.

Para os 19 países que enfrentam risco de seca a partir de Junho, a pergunta agora é directa: alguém vai escutar antes de os poços baixarem? Ajustes precoces nas datas de plantação, racionamento inteligente, avisos públicos claros - nada disso gera manchetes como imagens de resgates dramáticos. Ainda assim, pode ser a diferença entre um verão difícil e um verão mortal. O Pacífico já fala em números e anomalias; o resto de nós tem apenas alguns meses para decidir quão a sério quer levar o aviso.

Quando aquele passageiro de Londres voltar a pisar uma plataforma em Junho, a resmungar por causa de um céu carregado, noutras partes do mundo os campos poderão já estar a ganhar a cor de pergaminho antigo. O colapso do El Niño em 2025 não vai parecer um único dia nem um único acontecimento. Vai chegar como um círculo a apertar lentamente: torneiras que pingam, colheitas que falham, preços que sobem, escolhas que encolhem. A pergunta que fica no ar pesado do verão é simples: quantas vezes precisamos de viver este enredo antes de deixarmos de o tratar como surpresa?

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