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Há uma pista de Fórmula 1 enterrada em Lisboa

Carro de Fórmula 1 vermelho em exposição com vista para a ponte 25 de Abril e rio Tejo ao fundo em Lisboa.

Lisboa tem uma história feita de estratos: há marcas romanas, vestígios mouros e, menos óbvia, uma camada de asfalto que, uma única vez, acolheu a elite absoluta do automobilismo. Para encontrar esse capítulo quase secreto, é preciso recuar perto de 70 anos até ao Circuito de Monsanto, um traçado urbano improvisado que chegou a contar para a Fórmula 1, a categoria maior do desporto motorizado.

Esta viagem ao passado ganha ainda mais sentido num momento em que Portugal se posiciona para voltar a receber a Fórmula 1 em 2027. E, se ainda faltam dois anos, vale a pena gastar algum tempo a olhar para trás. Temos margem…

Circuito de Monsanto de Fórmula 1: quando Lisboa recebeu o Grande Prémio de Portugal

A data é precisa: 23 de agosto de 1959. Nesse dia, a história pode resumir-se sem rodeios, embora o que aconteceu tenha sido tudo menos simples: Stirling Moss venceu o Grande Prémio de Portugal, Jack Brabham acabou projetado contra um poste de madeira e “Nicha” Cabral, o primeiro português a alinhar na Fórmula 1, alcançou um respeitável 10.º lugar ao volante de um Cooper–Maserati.

Tudo isto aconteceu num circuito montado à pressa, arriscado e, à luz das regras atuais, praticamente impossível de repetir. O cenário foi Monsanto e é muito provável que já tenha passado por ali de carro - não a mais de 200 km/h, mas talvez a menos de 50 km/h.

Um traçado improvável no coração da capital

O percurso media 5,44 km e era, na prática, um mosaico de vias públicas. A volta começava na Estrada de Queluz, junto ao então acesso à autoestrada para o Estádio Nacional (a atual A5). A partir daí, seguia pela Estrada do Alvito, passava pela Estrada dos Montes Claros, continuava pela Estrada do Penedo e fechava o ciclo na Estrada dos Marcos, regressando ao ponto de partida.

Havia segmentos particularmente singulares: uma parte coincidia com o viaduto de acesso ao Estádio Nacional e outra atravessava vias onde existiam carris de elétrico, que ainda estavam em utilização nessa época. E o relevo não ajudava: o traçado tinha subidas e descidas acentuadas, curvas com inclinação desfavorável (a inclinar para o lado “errado”), setores com pavimento empedrado e bermas irregulares que punham à prova carros e pilotos.

O conjunto era, em suma, uma lista do que hoje seria considerado inadmissível: troços em paralelo, ausência de escapatórias, proteção praticamente inexistente para quem assistia e obstáculos fixos espalhados pelo percurso. Ainda assim, a prova contou para o Campeonato do Mundo de Fórmula 1. Eram tempos diferentes - e a tolerância ao risco também.

Um Grande Prémio de coragem

Em Monsanto, Moss repetiu a fórmula com que já tinha vencido o GP de Portugal na Boavista, no ano anterior: com autoridade total. Garantiu a pole position, manteve a liderança em todas as voltas, registou a volta mais rápida e cruzou a meta com uma volta de vantagem sobre o segundo classificado. Um autêntico recital ao volante de um Cooper-Climax da Rob Walker Racing.

Só que aquele circuito tinha pouca margem para falhas. Jack Brabham, que viria a sagrar-se campeão do mundo nesse mesmo ano, perdeu o controlo do monolugar e embateu com violência num poste de madeira. Acabou cuspido do carro. Escapou sem ferimentos graves, mas a imagem ficou gravada como retrato de uma era em que um erro podia cobrar a fatura máxima.

Vale lembrar que esta fase do automobilismo precedeu a grande transformação da segurança: barreiras, zonas de escape, capacetes e estruturas de proteção evoluíram muito nas décadas seguintes. Olhando hoje para Monsanto, percebe-se melhor porque é que certos traçados urbanos, por mais fascinantes que sejam, se tornaram incompatíveis com uma Fórmula 1 moderna.

Circuito de Monsanto: morto e enterrado (mas ainda percorrível)

Em 1960, o Grande Prémio de Portugal voltou ao Porto e o Circuito de Monsanto passou a fazer parte da prateleira da memória. Era simplesmente perigoso demais e, além disso, tornava-se cada vez menos conciliável com os padrões de segurança da F1, que começavam a mudar de forma acelerada.

Apesar disso, o espaço não ficou imediatamente silencioso: o parque continuou a receber provas locais e nacionais até aos anos 70. E, ainda hoje, é possível percorrer a Estrada do Alvito, a Estrada de Queluz ou a Estrada dos Montes Claros sem suspeitar que, naquele mesmo asfalto, já passaram monolugares de Fórmula 1.

Para quem conhece a história, aquelas estradas são mais do que simples acessos: são a silhueta de um circuito fantasma, onde parece possível imaginar o eco dos motores a cortar o ar entre as árvores. O contraste com o presente também é curioso: hoje, é o Autódromo do Estoril que convive com vizinhos que se queixam do ruído. Em 1959, em Monsanto, a inversão era total - era a Fórmula 1 a rugir no meio do silêncio do parque.

Se quiser revisitar o local com outro olhar, ajuda ir com o mapa mental do traçado: as curvas, as variações de altitude e os troços mais estreitos explicam, por si só, o caráter excecional (e perigoso) do evento. É uma forma simples de perceber como a cidade chegou a ser, por um instante, palco de uma competição que hoje exige infraestruturas muito diferentes.

O “circo” passou por Lisboa - e pode voltar a Portugal em 2027

Durante um breve momento, Lisboa acolheu o grande “circo” da Fórmula 1. E, como acontece com tantas coisas rápidas e intensas, o episódio acabou por se tornar discreto, quase esquecido - ou, se preferirmos a metáfora certa para Monsanto, enterrado.

Se o espetáculo regressar em 2027, não será naturalmente a Monsanto, mas ao Autódromo Internacional do Algarve. E ainda bem: os tempos são outros, as exigências também, e a Fórmula 1 de hoje já não vive do mesmo risco que marcou aquela tarde de agosto de 1959.

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