A ACAP (Associação Automóvel de Portugal) alertou que continuam a circular em Portugal dezenas de milhares de automóveis com campanhas de recolha pendentes - situações em que os próprios fabricantes já identificaram a necessidade de uma correção, mas em que o proprietário ainda não levou o veículo a uma oficina autorizada para realizar a intervenção.
Segundo números divulgados pelo Jornal de Negócios, existem 87 mil viaturas em circulação com campanhas de recolha por concretizar. Esta contagem resulta do arranque da plataforma RECALL, lançada no final de 2025, onde as marcas passaram a disponibilizar informação agregada: desde então, foram registadas mais de 300 campanhas de recolha, precisamente para concentrar estes dados num único ponto de consulta.
Plataforma RECALL da ACAP em Portugal: consulta de campanhas de recolha pendentes
A plataforma RECALL foi criada pela ACAP em colaboração com o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT) e com apoio da Direção-Geral do Consumidor. O acesso é gratuito e a pesquisa pode ser feita através da matrícula ou do número de identificação do veículo (VIN), permitindo ao utilizador confirmar se existe alguma ação corretiva por executar.
Quando há uma campanha ativa, a reparação é efetuada num concessionário oficial da marca, sem custos para o cliente, de acordo com a lógica destas ações corretivas. Ainda assim, a ACAP sublinha que Portugal permanece entre os países europeus com taxas mais baixas de execução das campanhas de recolha.
Uma parte significativa do problema está na dificuldade de localizar os proprietários - sobretudo quando a informação associada ao registo automóvel não está atualizada. Na prática, isso traduz-se em muitos veículos a circularem com anomalias já reconhecidas pelos construtores, algumas das quais podem ter impacto direto na segurança do veículo.
Este cenário torna-se ainda mais preocupante num parque automóvel envelhecido: a ACAP aponta a existência de 1,6 milhões de automóveis com mais de 20 anos. Neste contexto, cada campanha de recolha por cumprir acrescenta um fator adicional de risco para a segurança rodoviária, num universo onde a manutenção e a atualização técnica tendem a ser mais críticas.
Um passo simples, mas relevante, passa por garantir que os dados do proprietário se mantêm corretos e atualizados nos registos aplicáveis. Quando os contactos estão desatualizados, as notificações dos construtores e dos representantes oficiais podem não chegar ao destinatário, atrasando intervenções que, em muitos casos, são rápidas e preventivas.
Também é importante recordar que uma campanha de recolha não é “opcional” no sentido prático do termo: trata-se de uma correção definida pelo fabricante para repor condições de conformidade e segurança. Confirmar periodicamente a situação do veículo - especialmente após comprar um automóvel usado - ajuda a evitar que problemas conhecidos se prolonguem no tempo.
Reprovação na inspeção depende de decisão do IMT
A legislação em vigor já contempla que os centros de inspeção periódica obrigatória verifiquem a existência de campanhas de recolha pendentes. Dependendo da gravidade da deficiência associada, o veículo pode mesmo reprovar na inspeção.
No entanto, a aplicação prática desta regra continua dependente de uma deliberação formal do IMT sobre o momento exato em que o mecanismo entra efetivamente em funcionamento. Até que essa operacionalização esteja plenamente definida, a obrigação de tratar do assunto recai, na essência, sobre o proprietário.
A diminuição do número de casos pendentes dependerá, por isso, de uma coordenação efetiva entre construtores, autoridades e centros de inspeção, sem esquecer o papel decisivo de cada condutor em levar a viatura à rede autorizada assim que exista uma campanha de recolha ativa.
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