Muitas pessoas, ao fim do dia, pegam automaticamente no telemóvel ou no comando da televisão. Outras preferem perder-se em melodias, romances ou jogos de tabuleiro. É precisamente aí que se esconde uma chave interessante: certas actividades de lazer não servem apenas para relaxar - também moldam a mente de forma mensurável. Quem mantém um destes três passatempos com regularidade treina o cérebro a um nível surpreendentemente elevado, sem precisar de caderno de vocabulário nem de livro de matemática.
Fazer música: quando tocar um instrumento remodela o cérebro
Ouvir música sabe bem; tocar vai muito mais fundo. Ao tocar um instrumento, o cérebro é obrigado a trabalhar no limite. Mãos, ouvidos, olhos e sensibilidade têm de funcionar em conjunto e em sintonia. Esse esforço coordena várias áreas cerebrais, transformando-as numa equipa muito mais coesa.
Partituras, ritmo e dedos: um ginásio para a memória de trabalho
Quando se toca guitarra, piano ou trompete, decorrem dezenas de processos ao mesmo tempo. É preciso reter sequências de notas, contar mentalmente o compasso e ajustar continuamente os movimentos dos dedos para corrigir pequenas imprecisões.
Na neurociência, tocar um instrumento é considerado um dos programas mais intensivos e completos de treino para o cérebro.
A investigação indica que quem faz música com regularidade melhora a chamada memória de trabalho - isto é, a capacidade de manter informação por instantes e processá-la de imediato. É exactamente esta competência que entra em acção quando precisa de:
- no trabalho, gerir várias tarefas em simultâneo,
- ao conduzir, reorganizar decisões de forma repentina,
- ordenar mentalmente uma discussão complexa.
Exames de imagem ao cérebro de musicistas mostram frequentemente um maior volume de substância cinzenta em áreas associadas à audição, à atenção e ao planeamento. Em pessoas mais velhas, isto pode ajudar a abrandar o declínio cognitivo, ao criar uma espécie de “reserva” mental.
Além disso, a prática regular tende a exigir disciplina e repetição com objectivos claros (por exemplo, dominar uma passagem difícil). Mesmo sem ser esse o propósito, esta rotina reforça hábitos de foco e de auto-correcção que acabam por se reflectir noutras tarefas do dia-a-dia.
Duas mãos, dois hemisférios: coordenação como impulso de inteligência
Quem toca piano, violino ou bateria conhece bem o desafio: a mão esquerda tem de fazer algo diferente da direita. O que, no início, parece um nó na cabeça, na realidade altera as ligações no cérebro.
Entre o hemisfério direito e o esquerdo existe um feixe de fibras responsável pela comunicação entre ambos. Estudos mostram que, em pessoas que tocam um instrumento há anos, essa ligação tende a ser mais densa. Isso traduz-se em:
- tempos de reacção mais rápidos.
Este tipo de coordenação bimanual também obriga o cérebro a gerir melhor a alternância entre tarefas e a sincronização de movimentos finos. Mesmo quando o objectivo é apenas tocar uma peça musical, o treino de coordenação e de atenção sustentada pode trazer benefícios práticos, como maior agilidade a reagir a mudanças inesperadas e mais precisão em actividades que dependem de timing.
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