De capitais estaduais a salas de tribunal - e até dentro do seu próprio partido - começam a surgir bolsões de resistência a desafiar o amplo controlo de poder de Donald Trump. Isoladamente, nenhum destes choques parece capaz de deitar abaixo a sua presidência. Em conjunto, sugerem um reajuste lento e turbulento da política norte-americana, à medida que se aproximam as eleições intercalares.
Do “poder total” ao contra-ataque inesperado
Trump gabou-se, em tempos, de que enquanto presidente tinha o direito de fazer tudo o que quisesse. Essa atitude continua a moldar a sua imagem pública. Só que, na prática, o terreno está a mudar: juízes, governadores, legisladores e activistas estão a pôr à prova até onde vai, de facto, essa pretensão.
A resistência anti-Trump de hoje tem menos a ver com grandes marchas em metrópoles e mais com fricção institucional espalhada por muitos pontos do país.
O quadro é irregular. Trump continua a somar vitórias importantes, sobretudo na política externa e no uso da autoridade executiva. Ainda assim, os adversários já acumulam triunfos pequenos, mas suficientes para furar a ideia de que o seu poder é absoluto.
Minnesota transforma-se num caso de estudo
O “reforço” federal termina sob pressão
O sinal mais visível desta nova fase surgiu no Minnesota. Após semanas de protestos contra tácticas agressivas de deportação e depois do homicídio, em plena luz do dia, de dois cidadãos norte-americanos, a Casa Branca pôs fim, de forma abrupta, a um reforço muito mediático de agentes federais de imigração no estado.
O responsável pela fronteira, Tom Homan, apresentou a retirada como missão cumprida, apontando para mais de 4.000 detenções. Mas a percepção pública contou outra história: a operação tornou-se politicamente tóxica, com imagens de agentes fortemente armados em confrontos com manifestantes em Mineápolis a dominarem a cobertura noticiosa.
O governador democrata Tim Walz classificou o destacamento como uma “invasão federal sem precedentes” e tratou o seu fim como um ponto de viragem.
Walz sustentou que o Minnesota mostrou a outros estados “o que significa defender o que é certo” quando há pressão federal.
O episódio expôs uma fragilidade central para Trump: a indignação pública e o impacto económico local podem tornar insustentáveis medidas de linha-dura, mesmo quando existe margem legal para as executar.
Um efeito secundário, menos visível, também conta: quando a tensão se prolonga, autarquias, associações empresariais e sectores dependentes de mão-de-obra imigrante tendem a pressionar bastidores e a pedir previsibilidade. Essa rede de interesses locais pode não travar uma operação por si só, mas aumenta rapidamente o custo político de a manter.
Os tribunais afirmam-se como travão persistente ao poder de Trump
O poder judicial continua a ser um dos contrapesos mais robustos às ambições de Trump - inclusive através de juízes nomeados por presidentes republicanos. Na quinta-feira, em Washington, um juiz federal bloqueou a tentativa do secretário da Defesa, Pete Hegseth, de rotular o senador Mark Kelly - democrata do Arizona e antigo capitão da Marinha - como “sedicioso”.
A administração pretendia punição criminal para Kelly por causa de um vídeo em que aconselhava militares a não cumprirem ordens ilegais. Um grande júri já tinha recusado autorizar acusações contra Kelly e outros veteranos democratas. A decisão do juiz sublinhou uma limitação elementar: mesmo um Departamento de Justiça alinhado com a Casa Branca não consegue acusar alguém sem o aval de cidadãos comuns num júri.
Kelly respondeu em desafio aberto, prometendo “lutar dez vezes mais” contra tentativas de o silenciar. Esta investida falhada por sedição pode funcionar como aviso: o uso instrumental de leis de segurança nacional encontra resistência jurídica séria.
A coragem como “contágio” - resistência anti-Trump nos tribunais
Para alguns democratas, estas decisões judiciais são mais do que escaramuças técnicas. A senadora do Michigan Elissa Slotkin descreve-as como viragens psicológicas. Tem apelado a eleitores e responsáveis públicos para avançarem “uns centímetros” para lá da sua zona de conforto na resposta aos excessos de Trump.
A aposta de Slotkin é directa: quando as pessoas percebem que Trump não é imparável, o medo recua e a coragem propaga-se.
A sua tese parte da ideia de que o poder político do presidente não assenta apenas na autoridade institucional, mas também numa aura de inevitabilidade cuidadosamente alimentada.
Republicanos começam a vacilar sobre as tarifas
A oposição já não se limita a democratas e juízes. No Capitólio, um pequeno grupo de republicanos começou a contrariar a Casa Branca, de forma aberta, em matéria de comércio.
- Seis republicanos juntaram-se aos democratas para revogar as tarifas de Trump sobre o Canadá.
- Três republicanos ajudaram a bloquear uma manobra destinada a impedir futuras votações sobre essas tarifas.
Estas deserções são limitadas, mas rompem com a lealdade quase automática que marcou grande parte do segundo mandato de Trump. Deputados de círculos agrícolas e industriais estão a sentir a pressão de eleitores que dizem estar a ser atingidos directamente pelas tarifas.
Um estudo da Reserva Federal de Nova Iorque tornou o argumento difícil de ignorar: concluiu que consumidores e empresas norte-americanos suportaram quase 90% do custo das tarifas no ano passado, contrariando a afirmação do presidente de que são governos estrangeiros a pagar a factura.
A limitação prática às guerras comerciais de Trump já não é uma discussão teórica: são eleitores a ver preços a subir e exportações a cair.
O republicano do Colorado Jeff Hurd, que apoiou a revogação, descreveu a sua posição como dever constitucional e obrigação para com o seu círculo eleitoral, não como rebelião. “Olhei para o que era melhor para o meu distrito e votei em conformidade”, afirmou. Para a Casa Branca, este tipo de linguagem é um sinal de alarme: a lealdade começa a ser medida contra a sobrevivência eleitoral.
Força no exterior, limites no interior
Política externa ainda, em grande medida, nas mãos de Trump
Fora das fronteiras dos EUA, a autoridade de Trump mantém-se impressionante. A ordem para uma operação que capturou o homem-forte venezuelano Nicolás Maduro mostrou quanta margem de manobra um presidente tem como comandante-em-chefe.
O próprio Trump disse, numa ocasião, ao The New York Times que apenas a sua “moralidade” poderia realmente conter o seu poder em política externa. Essa frase, somada à operação na Venezuela, inquietou aliados já desconfortáveis com o seu estilo imprevisível.
Na Conferência de Segurança de Munique, um relatório descreveu-o como um agente de “demolição” no palco global. O líder canadiano Mark Carney apelou às “potências médias” - países que não são superpotências nem estados pequenos - para se juntarem contra intimidações de grandes actores, incluindo os EUA sob Trump.
Instituições internas continuam a oferecer resistência
Dentro dos EUA, algumas peças do sistema mantêm-se teimosamente independentes. O presidente cessante da Reserva Federal, Jerome Powell, resistiu a forte pressão da Casa Branca para cortar drasticamente as taxas de juro, protegendo a credibilidade do banco central. No sector cultural, artistas e mecenas boicotaram o Centro Kennedy depois de Trump ter colocado aliados na liderança, transformando um símbolo artístico em mais um campo de batalha político.
Ao mesmo tempo, Trump conserva um vasto alcance executivo. Recentemente, retirou à Agência de Protecção Ambiental (EPA) poderes essenciais para regular gases com efeito de estufa, desfazendo, na prática, as arquitecturas climáticas construídas sob Barack Obama e Joe Biden. Também demitiu a responsável antitrust do Governo, Abigail Slater, que defendia uma fiscalização rigorosa às gigantes tecnológicas com relações próximas do presidente.
Cada demissão e cada ordem de desregulação mostram que, embora a resistência possa abrandar Trump, ainda não encontrou uma forma de o parar.
Há ainda uma dimensão adicional, frequentemente subestimada: quando organizações profissionais, sindicatos, universidades e grandes doadores mudam hábitos de financiamento e cooperação por receio reputacional, a administração pode ver-se obrigada a recalibrar prioridades. Não é um veto formal - é um atrito contínuo que limita a margem para impor choques sucessivos sem desgaste.
Eleições intercalares, mística e os limites do medo
A taxa de aprovação de Trump mantém-se perto dos 39% nas principais médias de sondagens. Essa fragilidade começa a concentrar atenções em ambos os partidos. Os democratas vêem uma oportunidade para transformar resistências dispersas num realinhamento mais amplo. Os republicanos, perante um mapa difícil nas intercalares, receiam ser arrastados pela impopularidade presidencial.
Trump tentou manter disciplina com ameaças directas, avisando que qualquer republicano que vote contra as suas tarifas “sofrerá seriamente as consequências” nas primárias. Por agora, não existe no Congresso uma maioria à prova de veto em matérias como comércio ou imigração. No papel, Trump continua com vantagem.
Mas a lógica eleitoral funciona nos dois sentidos. À medida que mais republicanos, como Hurd, concluem que os seus eleitores valorizam mais empregos locais do que mensagens presidenciais, o custo da lealdade cega sobe. A desobediência discreta num único tema pode transformar-se num hábito.
Como a resistência funciona na prática
Grande parte do contra-ataque actual assenta em travões menos vistosos do sistema norte-americano. Três mecanismos destacam-se:
| Mecanismo | Como limita o poder |
|---|---|
| Tribunais | Podem bloquear ou atrasar ordens executivas, acusações e regulamentos que ultrapassem limites legais. |
| Federalismo | Dá aos estados margem para resistir ou abrandar operações federais no seu território. |
| Eleições | Tornam os legisladores sensíveis à reacção local, incentivando rupturas com o presidente em temas específicos. |
Nenhuma destas ferramentas garante resultados. Funcionam sobretudo ao elevar o custo político e jurídico de determinadas decisões. Um reforço de deportações pode continuar a ser tecnicamente possível; porém, se desencadear protestos em massa, boicotes comerciais e decisões judiciais, a Casa Branca pode concluir que o dano já não compensa.
O que pode acontecer a seguir
Vários cenários estão em aberto. Se a taxa de aprovação de Trump continuar baixa e as tarifas continuarem a prejudicar economias de estados decisivos, mais republicanos podem aderir a revoltas cirúrgicas em temas como comércio, vigilância e aplicação da lei de imigração. Pode surgir um bloco estreito, mas recorrente, entre partidos - não como facção formal, mas como coligação móvel de legisladores empenhados em proteger os seus distritos.
Por outro lado, uma crise de política externa ou uma ameaça de segurança percebida pode reagrupar os republicanos em torno do presidente, pelo menos por algum tempo. Trump tem mostrado habilidade para movimentos dramáticos no exterior que reorientam o debate interno. Esse risco paira sobre qualquer previsão acerca do rumo desta resistência.
Para os cidadãos que tentam interpretar o momento, vale a pena clarificar alguns conceitos. Casos de “sedição” envolvem a acusação de tentar derrubar ou minar o Governo pela força - uma imputação grave que, se for usada de forma abusiva, pode arrefecer a dissidência. “Tarifas” são impostos sobre bens importados que, muitas vezes, acabam por aumentar preços para consumidores no mercado interno. Perceber estes termos ajuda a explicar por que razão juízes e legisladores hesitam em entregar a qualquer presidente - não apenas a Trump - liberdade sem controlo para os usar.
A resistência anti-Trump em 2026 não se assemelha às marchas de massas do seu primeiro mandato. É mais lenta, mais procedimental e, muitas vezes, esconde-se em votações de comissão e em requerimentos judiciais. Ainda assim, precisamente por operar dentro do sistema, pode vir a alterar a forma como futuros presidentes entendem os limites do seu próprio poder.
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