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Esfregar o focinho pode esconder uma dor dentária grave no cão

Pessoa a escovar os dentes de um cão castanho numa sala iluminada com tapete e sofá ao fundo.

Por muito adorável que pareça o gesto, a causa pode ser tudo menos inofensiva.

Muitos tutores filmam este momento com entusiasmo no telemóvel, sem suspeitar de que o animal pode estar a sentir dores intensas. Por trás desse simples esfregar do focinho existe, com frequência, uma doença dentária subestimada, muito comum nos cães e capaz, nos casos mais graves, de afectar órgãos e reduzir de forma séria a qualidade de vida.

Porque é que esfregar o focinho pode ser um grito de dor em silêncio

Um cão que passa repetidamente as patas da frente pela cara ou rola a cabeça na relva não está, na maioria das vezes, a tentar ser “engraçado”. Está a tentar aliviar-se.

A zona que o incomoda costuma estar no interior da boca - precisamente onde ele não consegue chegar bem com a pata. Esfregar-se torna-se, então, uma tentativa desesperada de aliviar comichão ou dor que se encontra mais fundo.

Muitas vezes, por detrás do esfregar constante do focinho, está uma irritação intensa ou uma inflamação na boca - e não uma mera “disposição primaveril”.

Ignorar este comportamento pode transformar uma alteração tratável numa situação crónica. Os cães raramente mostram a dor da mesma forma que os humanos. Muitos suportam sofrimento dentário durante anos sem se queixarem de forma evidente.

A doença silenciosa e muito comum na boca do cão

Periodontite em cães: quando as bactérias atacam dentes e maxilar

Na clínica, os médicos veterinários vêem isto todos os dias: tártaro e periodontite, isto é, inflamação dos tecidos que sustentam os dentes, estão entre as doenças mais frequentes no cão. Estudos indicam que cerca de oito em cada dez cães com mais de três anos apresentam alguma forma de doença periodontal.

A evolução costuma seguir o mesmo padrão: primeiro forma-se uma película mole sobre os dentes. A partir daí surge o tártaro. É nesse depósito endurecido que as bactérias se instalam, irritando inicialmente “apenas” a gengiva. Se nada for feito, acabam por atingir estruturas mais profundas:

  • inflamação e recuo da gengiva
  • ataque às fibras que seguram os dentes
  • lesão do osso do maxilar
  • perda dentária, por fim

Embora este processo se desenvolva lentamente ao longo de meses ou anos, o cão vai dando sinais - sinais esses que muitos tutores não reconhecem. Um deles é precisamente o esfregar repetido do focinho.

Em cães de porte pequeno, de cara achatada ou com dentes muito juntos, o problema tende a instalar-se com maior facilidade, porque a limpeza natural é pior e os restos alimentares acumulam-se mais depressa. Por isso, nestes animais, a vigilância da boca deve ser ainda mais apertada.

Quando a placa bacteriana se transforma num problema perigoso

Se a inflamação persistir, bactérias e substâncias inflamatórias passam das gengivas para a corrente sanguínea. Com o tempo, o coração, o fígado ou os rins podem ficar sobrecarregados. Alguns cães mais velhos com problemas cardíacos viveram durante anos com doenças dentárias sem tratamento.

Os dentes dolorosos num cão não são “só uma questão estética”. Podem afectar o organismo inteiro e danificar órgãos.

Por isso vale a pena levar a sério sinais aparentemente pequenos, como mau hálito ou o hábito de esfregar o focinho. Muitas vezes são o primeiro aviso de um problema de saúde bem maior.

Cinco sinais de alerta: assim o seu cão pode denunciar dor de dentes

1. Esfregar o focinho e levar as patas à cara

Talvez o sinal mais evidente: o cão passa as patas da frente pela cara com frequência, coça a boca ou pressiona a cabeça de forma insistente na relva, nos tapetes ou nos móveis. Este comportamento merece atenção especial quando surge de repente ou se torna muito mais frequente.

2. Cheiro forte vindo da boca

Um ligeiro odor a carne é normal num cão. Mas se, ao abrir a boca ou ao bocejar, sentir um cheiro muito rançoso, metálico ou a podridão, é provável que exista uma inflamação. Quanto mais avançada estiver a periodontite, mais intenso tende a ser o mau cheiro.

3. Dificuldade em comer

A dor dentária altera a forma como o cão se alimenta. Entre os sinais mais típicos estão:

  • comer mais devagar do que o habitual
  • deixar de lado guloseimas duras ou mastigar apenas de um lado
  • separar certas croquetes ou voltar a cuspir-nos
  • engolir a comida depressa, sem mastigar como deve ser

Muitos tutores pensam logo que o animal está “esquisito para comer”. Na realidade, o cão está a evitar a dor causada pela pressão sobre os dentes.

4. Gengivas vermelhas, inchadas ou com sangue

Levante com cuidado os beiços do seu cão. Se as margens da gengiva estiverem vermelho-vivo em vez de cor-de-rosa suave, ou se o tecido parecer inchado e sensível, é muito provável que haja inflamação. Manchas de sangue no brinquedo de roer ou na tigela da água também encaixam neste quadro.

5. Dentes soltos ou em falta

Num estádio mais avançado, os dentes tornam-se móveis ou acabam por cair. Por vezes, o tutor só percebe quando encontra um dente na tigela ou no chão. Nessa altura, é quase certo que a doença já vinha a evoluir há bastante tempo.

Sinal O que pode estar por detrás
Esfregar o focinho com frequência Irritação ou dor na zona da boca
Mau cheiro intenso na boca Inflamação bacteriana, tártaro, periodontite
Dificuldade ao mastigar Dor dentária, dentes soltos ou danificados
Gengiva vermelha ou com sangue Gengivite, início de periodontite
Perda de dentes Destruição avançada dos tecidos de suporte dentário

O que o veterinário pode fazer - e porque os remédios caseiros não bastam

Limpeza dentária profissional só faz verdadeiro sentido sob anestesia

Quando a periodontite já existe, snacks para roer ou pós vendidos na internet deixam de ser suficientes. O tártaro tem de ser removido por um profissional. Para isso, o veterinário usa instrumentos específicos que actuam também abaixo da linha da gengiva - precisamente onde se acumulam os depósitos mais perigosos.

Para que o cão permaneça imóvel e sem sofrimento, o procedimento é feito sob anestesia geral. Só assim a equipa consegue limpar de forma completa todas as áreas afectadas. Pode soar mais dramático do que na maioria dos casos é, mas esta intervenção salva muitos dentes e melhora claramente a qualidade de vida.

Em muitas situações, o exame inclui ainda radiografias dentárias, que permitem avaliar raízes e osso abaixo da gengiva e detectar problemas que não são visíveis a olho nu.

Consoante a clínica, a região e a complexidade do caso, o custo de uma limpeza dentária costuma situar-se entre cerca de 150 e 300 euros. Se for necessário extrair dentes, o valor sobe, mas cada episódio de dor poupado ao animal compensa amplamente esse investimento.

Cinco sinais a vigiar depois do tratamento

Depois da limpeza profunda, começa o verdadeiro trabalho de manutenção em casa. Quem conhece os sinais típicos consegue agir mais cedo e evita que o tártaro volte a acumular-se em excesso. Guarde sobretudo estes pontos na memória:

  • O cheiro da boca piorou?
  • A gengiva voltou a ficar vermelha em algum ponto?
  • O cão está a comer de forma diferente?
  • Falta inesperadamente um dente ou algum parece solto?
  • O seu cão voltou a esfregar o focinho mais vezes?

Se um ou mais destes sinais surgirem, compensa marcar uma observação veterinária cedo. Assim trava uma nova fase de inflamação antes que volte a tornar-se realmente dolorosa.

Como prevenir sem sobrecarregar o seu cão

Escovar os dentes do cão: estranho no início, mas possível

A prevenção mais eficaz continua a ser a escovagem regular. Muitos tutores desistem à partida porque a ideia parece complicada. No entanto, em pequenos passos, quase todos os cães se habituam. O ideal é usar:

  • escovas de dentes para cães ou dedeiras com cerdas suaves
  • pasta dentífrica própria para cães, sem flúor e segura para engolir
  • sessões muito curtas e brincadas no início

Comece com apenas alguns segundos por dia, elogie bastante e vá aumentando o tempo e a duração de forma gradual. Muitos cães aceitam o processo surpreendentemente bem quando percebem que não acontece nada de mau.

Alimentação, mordedores e controlos de rotina

Para além da escovagem, alguns mordedores estruturados podem ajudar a reduzir a placa, como rolos de mastigação duros, certos sticks ou produtos naturais desidratados. Não substituem uma limpeza profissional, mas atrasam a formação de novo tártaro.

As consultas regulares no veterinário, pelo menos uma vez por ano, também são essenciais. Em cães com mordida muito apertada, focinho curto ou problemas dentários já conhecidos, intervalos mais curtos são ainda mais aconselháveis.

Também é importante não confiar apenas na ração seca. Mesmo cães que comem alimento seco podem acumular placa e desenvolver doença periodontal, pelo que a higiene oral continua a ser necessária.

Porque olhar para a boca pode salvar vidas

Muitas doenças dentárias graves passam despercebidas porque o cão continua a parecer forte e até a comer - de alguma forma. Quem cria o hábito de espreitar rapidamente por baixo dos beiços enquanto faz festas ao animal encontra alterações muito mais cedo.

Esfregar o focinho, mau cheiro, gengivas vermelhas ou dificuldade em mastigar não são “tiques”, manias nem motivos para brincadeira. São sinais de que algo não está bem. Levar este pedido de ajuda a sério pode significar menos dor, mais bem-estar e, idealmente, vários anos adicionais de saúde para o seu cão.

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