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Comercial a HIDROGÉNIO é o futuro? Ao volante do Peugeot e-Expert Hydrogen

Carro elétrico branco com design futurista exposto em plataforma circular numa feira tecnológica.

O próximo ano vai ser, para a Peugeot, o ano da eletrificação. A marca do leão prepara uma ofensiva de 24 propostas eletrificadas, que arrancam nas duas rodas, passam pelo 9X8 que vai correr em Le Mans e terminam no furgão Peugeot e-Expert a hidrogénio.

Este é um modelo inédito no alinhamento da Peugeot. Trata-se do primeiro veículo de célula de combustível da marca do leão e nós não só o pudemos ver ao vivo no Salão de Paris, como também o conduzimos durante breves instantes.

Foram poucos quilómetros, é verdade, mas chegaram para perceber o que a Peugeot pretende com esta proposta pensada para utilização profissional: combinar emissões nulas com autonomia elevada e um reabastecimento muito rápido, sem penalizar a capacidade de carga.

Peugeot e-Expert a hidrogénio explicado por quem decide

Depois de conduzirmos este furgão a hidrogénio, tivemos oportunidade de entrevistar Xavier Peugeot, responsável pelos veículos comerciais da Stellantis, que nos explicou: “Os elétricos são uma tecnologia em crescimento e, na Stellantis, temos cerca de 45% do mercado dos furgões elétricos. Mas conseguimos disponibilizar uma oferta adicional a hidrogénio porque ela responde a diferentes necessidades dos clientes”.

“Dou-te um exemplo concreto: sabemos que 83% dos condutores de furgões percorrem, em média, 200 km. E isso não é um problema para um elétrico. Mas também sabemos que 44% destes condutores nunca fazem mais de 300 km, o que significa que os restantes esperam emissões nulas, mas com maior autonomia.”

“Com a tecnologia a hidrogénio, conseguimos oferecer quatro vantagens: emissões nulas, 400 km de autonomia, apenas três minutos para reabastecer e zero compromissos em termos de capacidade”, explicou Xavier Peugeot.

Até 50 km de autonomia elétrica

Na base deste modelo está a mesma plataforma que serve de base ao Peugeot e-Expert exclusivamente elétrico. Na frente encontramos um motor elétrico que debita um máximo de 100 kW, o equivalente a 136 cv, e 260 Nm, bem como uma célula de combustível a hidrogénio, onde o hidrogénio e o oxigénio se combinam para produzir energia.

Por baixo dos bancos mantém-se a mesma bateria que encontramos nos híbridos recarregáveis da Peugeot, com 10,5 kWh de capacidade útil. Mais atrás, sob o piso - onde na versão elétrica convencional está a bateria principal - passam agora a existir três depósitos de armazenamento de hidrogénio, com capacidade total para 4,4 kg.

No conjunto, o novo Peugeot e-Expert a hidrogénio anuncia até 400 km de autonomia, segundo o ciclo WLTP, sendo que 350 km são assegurados pela célula de combustível e os restantes 50 km resultam da energia armazenada na bateria.

Tal como acontece num elétrico convencional ou num híbrido recarregável, esta bateria pode ser carregada externamente, aceitando potências de carregamento até 11 kW. Naturalmente, também é recarregada pela energia recuperada nas desacelerações e travagens.

Para quem gere uma frota, esta solução tem uma leitura muito prática: permite manter o veículo em circulação durante mais tempo sem longas paragens para carregar, algo particularmente útil em serviços de entregas, assistência técnica ou distribuição urbana intensiva. E, ao contrário do que muitas vezes se pensa, o hidrogénio não substitui necessariamente a eletrificação clássica; neste caso, complementa-a onde a utilização diária exige outra combinação entre autonomia, tempo de imobilização e produtividade.

“Não houve compromissos”

Como nos explicou Xavier Peugeot, a autonomia deste furgão podia ter chegado aos “700 km”, mas a Peugeot não quis fazer “qualquer compromisso” no que diz respeito ao espaço de carga.

“Se abrires a porta deste furgão a hidrogénio, percebes que tem exatamente a mesma capacidade de carga da versão elétrica. E esta é a base dos nossos produtos: zero compromissos ao nível da capacidade e ofertas elétricas complementares, todas elas com emissões nulas”, adiantou Xavier Peugeot.

Ou seja, a Peugeot e-Expert a hidrogénio, na versão média - a versão longa só chegará mais tarde - disponibiliza um volume de carga até 6,1 m³, uma carga útil de 1100 kg e uma capacidade de reboque até 1000 kg.

Como funciona?

A tecnologia que está na base deste furgão, que a Peugeot descreve como “elétrico de célula de combustível a hidrogénio com potência média e carregamento externo”, funciona em quatro fases distintas.

No arranque, em manobras e a velocidades mais baixas, é a bateria que fornece a energia necessária para mover o motor elétrico. Já a velocidade estabilizada, a energia que chega ao motor passa a ser fornecida diretamente pela célula de combustível.

Nas acelerações ou em situações de maior exigência de potência, como ultrapassagens ou subidas, a célula de combustível assume a maior parte do esforço.

Por fim, nas fases de travagem e desaceleração, a energia elétrica é recuperada e o motor elétrico consegue carregar a bateria, para que o nível de carga nunca desça abaixo dos 50%.

Já é possível comprar? Quanto custa?

O Peugeot e-Expert a hidrogénio já está em produção e pode ser encomendado em mercados como França e Alemanha. Segundo Xavier Peugeot, já existem “centenas de encomendas de empresas”.

“Vamos fazer as entregas de forma progressiva. Temos capacidade para produzir cerca de 1000 furgões a hidrogénio por ano em 2022 e 2023 e esperamos aumentar para 5000 em 2024 e para 10 000 em 2025. Por isso, esperamos um crescimento forte. Isto - o mercado para propostas a hidrogénio - vai acelerar e nós estamos preparados”, referiu Xavier Peugeot.

Quanto ao preço: “Neste momento, o preço de um furgão a hidrogénio depende muito dos incentivos, que ainda recentemente eram muito elevados na Alemanha. Para teres uma ideia, com incentivos, podias comprar um furgão na Alemanha por 46 000 euros. Já um furgão elétrico como este custa cerca de 40 000 euros. Em França, o preço varia entre os 55 000 euros e os 61 000 euros”.

A diferença face a uma proposta elétrica convencional equivalente continua a ser significativa, mas Xavier Peugeot é taxativo ao afirmar que essa distância tenderá a diminuir e que os preços irão baixar: “Isto vai mudar, vai evoluir. Acreditamos que todos os governos estão muito interessados no desenvolvimento do hidrogénio”.

A infraestrutura tem de acelerar…

Independentemente de tudo, Xavier Peugeot confessou-nos que a base de toda esta estratégia está na infraestrutura de estações de abastecimento de hidrogénio, que ainda é muito reduzida na Europa.

“Neste momento existem cerca de 200 estações de abastecimento de hidrogénio na Europa, sendo que metade estão na Alemanha e cerca de 25% estão em França”, contou-nos.

Ainda assim, Xavier Peugeot acredita que a situação mudará em breve: “Muitos outros países também estão interessados. Os Países Baixos, a Itália e outros países já levantaram a mão. Tenho a certeza de que em Portugal também vai acelerar”.

“Esperamos que, em 2030, já existam 2500 estações de abastecimento de hidrogénio. Isto vai acelerar”, avançou.

Hidrogénio só para uso profissional?

Terminámos esta breve entrevista com Xavier Peugeot a perguntar-lhe sobre a possibilidade de o hidrogénio passar a ser usado de forma mais frequente em propostas de passageiros. Xavier fechou a porta a essa hipótese, ainda que tenha admitido que esse não é o foco imediato.

“Neste momento, estamos concentrados nos furgões. A questão dos automóveis de passageiros ainda não está em cima da mesa. Mas, como podes imaginar, estando prontos para os profissionais, se tivermos de passar para os automóveis de passageiros, isso deverá ser simples. Mas, por agora, isso não está decidido”, afirmou.

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