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Porque é que ele foi promovido - e ela não?

Mulher pensativa sentada à mesa com portátil, enquanto colegas apertam mãos e videoconferência decorre ao fundo.

A sala estava agitada daquela forma artificial que os escritórios assumem nos dias de promoções. Havia gente a fingir que não atualizava a caixa de entrada de 30 em 30 segundos. No fundo da zona aberta, a Ana fazia o que sempre faz quando está sob pressão: ajudava em silêncio outra pessoa a terminar uma apresentação para um cliente, apesar de esse trabalho nem sequer ser dela.

Quando o anúncio apareceu, ouviu-se um pequeno aplauso junto da zona comercial. O Tom tinha sido promovido. Outra vez. Fazia as mesmas funções que a Ana. Tinha os mesmos objetivos. O mesmo gestor. O mesmo número de anos na empresa.

O resultado, porém, era diferente.

Toda a gente aplaudiu, claro. Alguém lançou a piada de que o Tom estava “em grande”. A Ana sorriu, disse “muito bem” e voltou a corrigir a folha de cálculo de outra pessoa.

Não o disse em voz alta, mas a pergunta ficou a ecoar por todo o escritório.

Porque ele, e não ela?

O padrão silencioso que quase ninguém quer admitir

Entre em quase qualquer empresa e vai ouvir a mesma explicação: “Promovemos com base no desempenho.” A frase soa limpa, racional e quase científica.

Depois olha-se para a mesa da liderança e vê-se um mar de homens com camisas parecidas, piadas parecidas e a mesma convicção sobre o seu “pressentimento” acerca de quem está pronto para dar o passo seguinte.

A parte mais difícil é que isto raramente parece discriminação aberta. Parece antes uma sequência de decisões pequenas, todas aparentemente justificáveis. “Ele é mais visível.” “Ela não transmite tanta confiança.” “Ele tem mesmo perfil de liderança.” Essas frases acumulam-se até formarem uma barreira. Uma barreira que ninguém reconhece como real.

Tomemos o exemplo de uma grande empresa tecnológica que analisou em segredo as suas promoções. Mesmo cargo. Avaliações de desempenho semelhantes. Antiguidade comparável. Em média, os homens estavam a subir quase um ano mais depressa.

Quando foram a fundo, os motivos registados nas notas de Recursos Humanos eram frustrantemente vagos. “Tem potencial.” “Tem mais contacto com clientes.” “Encaixa muito bem na cultura da empresa.” E as mulheres? “Fiável.” “Contributo consistente.” “Boa colaboradora de equipa.”

Mais tarde, um gestor admitiu, em privado, que quando um funcionário pedia uma promoção, isso parecia “ambição”. Quando uma funcionária fazia o mesmo pedido, mais do que um gestor usava outra palavra: “exigente”. Mesma solicitação. Mesmo momento. História completamente diferente sobre o que foi pedido.

Isto não significa que existam homens a conspirar secretamente em salas escuras. Significa que fomos treinados para reconhecer liderança através de um filtro masculino. Durante décadas, o “líder ideal” foi descrito com palavras como decidido, assertivo e duro. Num homem, essas características são elogiadas. Numa mulher, são frequentemente lidas como “frias” ou “duras”.

Assim, a promoção deixa de depender apenas de quem entrega resultados e passa a depender de quem se aproxima da imagem antiga de chefe. Quando um homem fala com firmeza, vê-se confiança. Quando uma mulher faz o mesmo, começam os comentários sobre o tom de voz.

Os números fazem aquilo que os números fazem melhor: expõem em silêncio a narrativa que preferíamos não encarar.

O que realmente acontece entre o “bom trabalho” e a promoção

A parte que a maioria das pessoas nunca vê é esta: as promoções raramente nascem nas avaliações formais. Costumam ser preparadas em conversas de corredor, cafés rápidos e aquelas conversas de fim de tarde entre gestores em que alguém pergunta: “Tens um minuto?”

Os homens são, com mais frequência, puxados para esses círculos informais. Não porque sejam melhores, mas porque já estão dentro da sala. Vão ao copo depois do trabalho “só por uma”, são convidados para o jantar de clientes em cima da hora e estão na conversa sobre futebol junto da máquina de café.

Esses momentos descontraídos criam confiança. A confiança leva a projetos mais exigentes. Os projetos mais exigentes acabam transformados em pontos fortes numa nota de promoção. No papel, parece mérito. Na prática, começou com quem foi convidado para a mesa às 18h15.

Imagine-se a Sara, gestora de projetos numa agência com muito movimento. O trabalho dela é impecável, os clientes adoram-na e os prazos são quase religião. Às 17h30, arruma tudo depressa porque as multas da creche são pesadas e o trânsito não perdoa.

O colega Miguel fica. “Não há pressa, eu entro já nessa sessão de ideias das 18h”, diz ele. A reunião corre bem, o diretor executivo passa por ali e vê-o a liderar a conversa durante dez minutos. Um mês depois, quando se fala de promoção, o chefe comenta: “Tenho visto o Miguel a dar um passo em frente ultimamente.”

Ninguém refere que foi a Sara quem construiu a proposta que o Miguel apresentou. No papel, ele é o líder visível. Ela é o motor invisível.

Gostamos de acreditar que os locais de trabalho são modernos e orientados por dados. Ainda assim, tantas decisões de promoção continuam a ser guiadas por impressões vagas. O gestor recorda-se de quem falou na reunião importante, mas esquece-se de quem desatou o caos dos bastidores às 23h da noite anterior.

Há ainda a armadilha de “potencial” contra “desempenho”. Os homens são mais vezes promovidos com base no potencial - no que poderão vir a fazer. As mulheres são mais vezes avaliadas pelo desempenho já provado - pelo que já entregaram. Isso quer dizer que uma mulher pode ficar presa a cumprir todos os critérios duas vezes, enquanto o colega recebe um empurrão para cima porque alguém “tem boas sensações” acerca dele.

Sejamos francos: ninguém lê todos os dias, linha por linha, os sistemas de avaliação. As pessoas seguem a história que têm na cabeça, e essa história não é neutra em termos de género.

Também acontece outra coisa que raramente é dita em voz alta: quanto maior é a incerteza, mais os decisores procuram familiaridade. E a familiaridade, em muitas organizações, continua a parecer-se demasiado com o perfil de sempre. Por isso, a mudança não depende apenas de “melhorar as mulheres”, mas de tornar as decisões menos dependentes de impressões pessoais e mais ligadas a critérios definidos, comparáveis e visíveis.

Como a desigualdade nas promoções afeta as mulheres - sem elas deixarem de ser quem são

Não existe uma frase milagrosa que elimine décadas de enviesamento, mas há alavancas dentro do sistema que as mulheres podem usar. Uma das mais poderosas é surpreendentemente simples: falar do próprio trabalho em voz alta. Não num tom exibicionista, de quem quer parecer influencer. Apenas com atualizações claras e factuais.

Dizer numa reunião: “O cliente X renovou, e a proposta que liderámos trouxe 200 mil euros”, produz um efeito muito diferente de mais um e-mail discreto perdido na conversa.

Outra alavanca é pedir clareza sobre o caminho. Em vez de esperar que alguém “repare”, pergunte ao gestor: “Como seria, de forma concreta, uma promoção nos próximos 12 a 18 meses?” Quando essa resposta fica registada, a conversa deixa de ser uma apreciação vaga e passa a ser um conjunto de passos definidos.

Muitas mulheres esperam sentir-se 120% preparadas antes de levantar a mão. Os homens, em geral, não fazem isso - e não têm pudor em admitir. Candidatam-se ainda sem estar totalmente polidos, aprendem pelo caminho e, se falham, encolhem os ombros.

Se alguma vez pensou: “Peço o aumento depois de arrasar no próximo projeto”, não está sozinha. Quase toda a gente já caiu nessa lógica de esperar por mais uma prova de merecimento. O problema é que o colega do lado já está a pedir agora e volta a pedir daqui a três meses. Para ele, hesitar não é uma virtude.

A coragem, aqui, não consiste em falar mais alto. Consiste em aceitar que estar “quase pronta” já é um sinal suficiente para avançar.

“As mulheres não têm falta de ambição”, disse-me uma coach de liderança. “O que lhes falta é acesso à mesma margem de erro que os homens recebem em silêncio. O sistema perdoa nos homens aquilo que vê como potencial e castiga nas mulheres aquilo que vê como detalhe.”

  • Mantenha um ficheiro vivo de conquistas
    Guarde num documento simples os resultados, os números e os elogios por escrito. Use-o nas avaliações para que o seu caso de promoção seja uma história sustentada por factos, e não uma sensação.

  • Peça patrocínio, não apenas mentoria
    Um mentor dá conselhos. Um patrocinador diz o seu nome na sala quando você não está presente. Um bom patrocinador pode mudar completamente a sua trajetória.

  • Treine uma atualização de progresso de 30 segundos
    Uma vez por semana, diga ao seu gestor: “Isto foi o que entreguei, este foi o impacto, e é isto que quero alcançar a seguir.” É curto, consistente e difícil de ignorar.

  • Evite a armadilha da prestabilidade
    Dizer sim a tudo torna-a simpática, mas também sobrecarregada. Diga sim ao trabalho visível e estratégico. Diga não à administração invisível sem fim.

  • Declare a sua ambição com clareza
    Em vez de “gostava de evoluir”, tente: “Quero ser considerada para o próximo cargo de chefia de equipa - que lacunas devo trabalhar neste trimestre?”

O que só muda quando se fala disso

Depois de se ver o padrão, já não se consegue deixar de o ver. As listas de promoções, as fotografias da liderança no site, as pessoas que parecem subir “naturalmente”. Deixa de parecer que o talento sobe à superfície e passa a parecer que há uma corrente em que alguns nadam contra a maré, enquanto outros são simplesmente levados por ela.

Isto não quer dizer que cada homem promovido tenha roubado o lugar de uma mulher. Quer dizer que o jogo foi montado numa inclinação muito antes de qualquer pessoa se sentar para jogar. A questão é o que cada um faz quando repara no ângulo do tabuleiro.

Os gestores podem começar por fazer perguntas desconfortáveis: de quem elogio o trabalho em público? A quem atribuo os projetos de maior visibilidade? Quem descrevo como “promissor” e quem descrevo como “fiável”? Essas palavras importam. Moldam carreiras.

Os colegas podem prestar atenção a quem tem as ideias engolidas nas reuniões, até que outra pessoa mais sonora as repete. Os Recursos Humanos podem acompanhar as promoções por género e por nível, em vez de guardarem a folha de cálculo numa pasta e esquecerem o assunto. E as mulheres, sem precisarem de se transformar em versões mais ruidosas de si próprias, podem começar a criar alianças em vez de carregarem sozinhas o peso de tudo.

A verdade sobre as promoções é confusa, injusta e profundamente humana. É precisamente por isso que pode ser alterada.

Quando amanhã entrar no trabalho e olhar em volta, haverá certamente algumas pessoas que sabem, no fundo, que já deviam estar no cargo seguinte. Algumas serão homens. Muitas serão mulheres.

A diferença entre “deveria” e “estou” não tem apenas a ver com talento. Tem a ver com histórias, hábitos, atalhos e conforto social. E tudo isso pode ser nomeado. Pode ser questionado. Pode ser redesenhado.

Da próxima vez que a sua empresa anunciar promoções, repare em quem aplaude, em quem sorri para a fotografia de grupo e em quem volta, em silêncio, ao ecrã. Há uma história maior escondida nesses poucos segundos.

O que fizermos com essa história, em conjunto e individualmente, vai decidir quem se senta à mesa daqui a cinco anos.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O enviesamento esconde-se em critérios vagos Os homens são elogiados pelo “potencial” e pelo “encaixe”, enquanto as mulheres são descritas como “fiáveis” e “colaboradoras” Ajuda o leitor a identificar quando a emoção está disfarçada de objetividade nas conversas sobre promoções
A visibilidade vale mais do que a excelência silenciosa Reuniões informais, sessões de ideias ao fim da tarde e conversas casuais criam a confiança que abre portas para funções mais exigentes Mostra porque fazer bem o trabalho não chega, e onde vale a pena concentrar a energia de forma estratégica
A autoafirmação estruturada funciona Ficheiros de conquistas, pedidos claros, patrocinadores e atualizações semanais curtas mudam a narrativa da promoção Dá ferramentas concretas que o leitor pode aplicar de imediato para influenciar o seu percurso

Perguntas frequentes

Isto não será apenas uma questão de as mulheres precisarem de mais confiança?
A confiança ajuda, mas não é o problema central. Os dados mostram que até mulheres confiantes e com bom desempenho são promovidas mais lentamente. O verdadeiro problema está nas expectativas enviesadas, nos critérios vagos e em quem os líderes “vêem” naturalmente como futuros chefes.

Os homens beneficiam disto ou também são vítimas do sistema?
Os homens beneficiam no sentido em que o sistema, de forma silenciosa, joga a seu favor. Ao mesmo tempo, alguns homens que não encaixam no modelo tradicional também ficam para trás. O objetivo não é culpar todos os homens, mas questionar um modelo que filtra a liderança através de um perfil demasiado estreito.

As mulheres deviam simplesmente agir mais como homens para serem promovidas?
Imitar um estereótipo raramente corre bem. As mulheres que copiam comportamentos estereotipicamente “masculinos” são muitas vezes penalizadas por isso. O objetivo não é tornar-se noutra pessoa, mas ganhar visibilidade, clareza e apoio de forma autêntica.

O que podem fazer os colegas homens para ajudar a equilibrar as promoções?
Podem atribuir crédito às ideias das colegas nas reuniões, recomendá-las para projetos de grande visibilidade, contestar comentários enviesados e mencionar as conquistas das suas colegas em salas onde elas não estão presentes. A defesa consistente, mesmo em gestos pequenos, tem um impacto enorme.

Como posso perceber se a minha empresa tem um fosso nas promoções?
Peça dados anonimizados sobre promoções por género e por nível nos últimos anos. Compare o tempo até à promoção e a linguagem usada nas avaliações de desempenho. Se os números e as palavras penderem sempre para o mesmo lado, já tem a resposta.

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