A organização de conservação da natureza SEO/BirdLife elegeu o pintassilgo-comum como “Ave do Ano 2026”. Por trás desta escolha existe muito mais do que simpatia por uma pequena ave de jardim vistosa: está em causa uma agricultura sem venenos, cidades mais verdes e a pergunta sobre quanta natureza a Europa ainda quer preservar.
Uma ave muito querida vence a votação
Desde 1988 que a SEO/BirdLife decide anualmente, através de uma votação pública online, qual será a ave do ano. Em 2026, a eleição registou uma participação recorde e o vencedor foi o pintassilgo-comum (Carduelis carduelis).
- Votos emitidos: 11.515
- Votos no pintassilgo-comum: 6.519 (56,61 %)
- Segundo classificado: corvo-marinho-pequeno, com 2.524 votos (21,92 %)
- Terceiro classificado: cotovia-dos-campos, com 2.472 votos (21,47 %)
Mais de metade dos votos foram, assim, para este fringilídeo de plumagem colorida. Para a SEO/BirdLife, trata-se de um sinal claro vindo da população: muitas pessoas querem proteger as aves que fazem parte do seu quotidiano - e não apenas espécies raras em reservas naturais remotas.
O pintassilgo-comum simboliza, em 2026, campos vivos e cidades verdes onde vale a pena viver - e também a pressão que o nosso modo de produzir exerce sobre esses habitats.
Um cantor colorido, com milhões de exemplares - e problemas reais
À primeira vista, o pintassilgo-comum parece um vencedor da modernidade. Só em Espanha, com uma população estimada entre 14 e 15 milhões de indivíduos, é uma espécie abundante e ocupa praticamente todo o território, incluindo as Canárias e as Baleares. A nível europeu, a Lista Vermelha classifica-o como espécie de “pouco preocupante”.
Quem o observa com atenção dificilmente o esquece: a máscara facial vermelha viva, as asas negras com uma faixa amarela intensa e o dorso castanho tornam-no inconfundível. O seu canto é rápido, trinado e fragmentado, e muitas pessoas associam-no à infância, aos jardins e ao verão.
Mas essa imagem agradável é enganadora. O pintassilgo-comum enfrenta hoje pressão de vários lados.
Redes de captura ilegais e veneno nos campos
A SEO/BirdLife assinala duas ameaças centrais:
- Redes de captura ilegais e manutenção em cativeiro: o pintassilgo-comum sempre foi uma ave muito apreciada para cativeiro, sobretudo por cantar bem. Em algumas regiões, apesar da proibição, continua a ser capturado, comercializado e mantido em privado. Em cada época, segundo estimativas da organização, perdem-se assim muitos milhares de aves.
- Uso massivo de pesticidas e herbicidas: o pintassilgo-comum alimenta-se sobretudo de sementes de ervas espontâneas e de plantas agrícolas. Onde os pesticidas “limpam” grandes áreas, o alimento desaparece. As monoculturas e as margens de cultivo “impecáveis” empobrecem as paisagens agrícolas outrora cheias de cor.
O paradoxo é evidente: uma espécie pode figurar como “pouco preocupante” em listas nacionais ou europeias e, ainda assim, sofrer quebras graves a nível local quando o habitat se degrada ou é sistematicamente envenenado.
A ave do ano como sinal de alerta para a paisagem agrícola
Com a campanha da “Ave do Ano 2026”, a SEO/BirdLife coloca deliberadamente a paisagem agrícola no centro da discussão. O pintassilgo-comum passa grande parte da sua vida precisamente nestes espaços, que muitas vezes são vistos apenas como áreas de produção.
Os territórios típicos do pintassilgo-comum incluem, por exemplo:
- olivais com ervas e flores silvestres no subcoberto
- dehesas - paisagens de pastoreio semiabertas com carvalhos
- pastagens e prados extensivos com árvores
- margens de campos, taludes e zonas em pousio
Quando a agricultura aposta na máxima rentabilidade, estas estruturas desaparecem: as faixas de bordadura são cortadas ou mobilizadas, as sebes são removidas e cada planta considerada “daninha” é eliminada quimicamente. O que, a curto prazo, pode parecer vantajoso para as contas da exploração, retira lentamente a base de sobrevivência a aves como o pintassilgo-comum.
O pintassilgo-comum levanta uma questão decisiva: os campos devem ser fábricas sem vida - ou paisagens habitadas, onde se produz e se vive em simultâneo?
Uma ponte entre a aldeia e o parque urbano
Uma das maiores forças do pintassilgo-comum é a sua capacidade de viver em dois mundos. Não habita apenas os campos; encontra-se também no coração das cidades. Em Espanha, quem passeia com atenção por parques, hortas urbanas ou cemitérios vê-o muitas vezes em pequenos grupos, a alimentar-se de cardos e de outras sementes.
Com isso, esta pequena ave liga dois universos:
| Habitat | Importância para o pintassilgo-comum | Oportunidade para a conservação |
|---|---|---|
| Campos e espaços abertos | Locais de nidificação, alimentação e refúgio | Agricultura com menos venenos, mais estruturas naturais |
| Aldeias e cidades | Fontes adicionais de alimento, presença ao longo do ano | Planeamento mais verde, menos espaços estéreis |
A SEO/BirdLife quer aproveitar esta dupla presença para mobilizar cidadãos não só nas zonas rurais, mas também nas áreas urbanas, em favor de mais espaços verdes e de outra forma de gestão: menos relvados cortados ao milímetro, mais cantos floridos, mais arbustos e mais árvores antigas.
Além disso, o pintassilgo-comum pode funcionar como uma espécie sentinela: quando ele desaparece de uma zona, isso costuma indicar que o ambiente perdeu diversidade, sementes e abrigo. Por isso, protegê-lo significa também acompanhar a saúde ecológica de todo um território.
Porque é que a proteção legal ficou para trás
Apesar de ser uma espécie tão visível, o pintassilgo-comum só beneficia, em Espanha, de proteção especial em duas regiões: Aragão e La Rioja. É precisamente isso que a organização quer alterar. Estão previstas campanhas, ações de sensibilização e contactos políticos para reforçar o estatuto da espécie a nível nacional e para impor regras claras contra a captura e o comércio.
No entanto, a proteção legal, por si só, não chega se os habitats continuarem a empobrecer. Por isso, a organização quer também aumentar a pressão para que a política agrícola e o planeamento urbano sejam mais orientados para a biodiversidade.
Projetos para trazer mais vida aos olivais e às vinhas
A SEO/BirdLife não se limita a apelos; desenvolve também projetos concretos. Entre os que destaca estão:
- Agroestepas Ibéricas: um programa destinado a valorizar as paisagens esteparias e agrícolas da Península Ibérica, por exemplo através de rotações de culturas mais diversificadas, maior quantidade de pousios e uso mais extensivo dos pastos.
- Modelo “Campos Vivos”: aqui, a organização trabalha com explorações de olival, cereais e vinha, bem como com produtores de avelã e castanha. O objetivo é integrar mais natureza no sistema sem comprometer a viabilidade económica.
Segundo a SEO/BirdLife, este tipo de iniciativas traz benefícios concretos para as explorações. Produtos provenientes de uma gestão favorável à biodiversidade podem ser mais fáceis de comercializar, estar mais ligados ao território e diferenciar-se da oferta padronizada.
A transição ecológica como oportunidade, não como entrave
A mensagem da ONG é clara: agricultura e biodiversidade não se excluem mutuamente. Pelo contrário, ecossistemas estáveis tornam as explorações mais resistentes ao stress climático, a surtos de pragas e a oscilações de preços.
Exemplos de medidas que beneficiam o pintassilgo-comum e podem, ao mesmo tempo, ajudar os produtores:
- faixas floridas e pousios como reservatórios de auxiliares naturais
- sebes em vez de vedações para cortar o vento e reduzir a erosão
- rotações de culturas que aliviam o solo e o balanço hídrico
- uso direcionado e reduzido de produtos fitossanitários em vez de tratamentos de área total
Passos concretos: o que campos e cidades podem fazer já
Para o pintassilgo-comum, a SEO/BirdLife propõe um conjunto de medidas muito práticas, que municípios, agricultores e até empresas com áreas verdes podem implementar com relativa facilidade:
- Cortar menos vezes: quem reduz a frequência de corte de relvados e bermas dá tempo às ervas silvestres para florescerem e produzirem sementes - o alimento mais importante do pintassilgo-comum.
- Semear áreas com misturas de espécies autóctones floridas: estas superfícies beneficiam não só os insetos, como também fornecem alimento abundante ao pintassilgo-comum no fim do verão e no outono.
- Aproveitar terrenos em pousio e espaços devolutos: parcelas por construir, bermas de estradas ou linhas ferroviárias podem, com gestão inteligente, tornar-se pequenos habitats valiosos para fringilídeos e outras espécies.
- Reduzir pesticidas: quanto menos veneno entrar em parques, campos de golfe ou explorações agrícolas, mais plantas e insetos permanecem disponíveis na cadeia alimentar.
Em paralelo, a organização olha com preocupação para a política europeia. A eventual redução das exigências ambientais na política agrícola da UE ameaça desfazer vários progressos já alcançados. Em particular, isso poderia afetar a estratégia “Do Prado ao Prato” do Pacto Ecológico Europeu, que prevê uma redução acentuada dos pesticidas perigosos e mais agricultura biológica.
O que esta ave tem a ver com a nossa saúde
À primeira vista, a proteção de um pequeno fringilídeo parece apenas uma causa sentimental para amantes da natureza. Mas, olhando melhor, está em jogo muito mais. Quando as cidades permitem mais árvores, arbustos e flores, a poluição por partículas e o stress térmico diminuem, as pessoas passam mais tempo ao ar livre e os níveis de stress baixam de forma comprovada.
Na paisagem agrícola, estruturas diversas e menos veneno significam não só mais aves, mas também solos e cursos de água mais saudáveis. No longo prazo, isso traduz-se em benefícios para o tratamento da água potável, para a proteção contra cheias e, não menos importante, para a qualidade dos alimentos que consumimos.
O pintassilgo-comum pode ser pequeno, mas, como ave do ano 2026, carrega consigo uma agenda grande: lembra-nos que as decisões sobre o uso do solo, os pesticidas e o planeamento urbano se refletem diretamente no que ouvimos de manhã à janela - ou no silêncio que substitui esse canto.
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