Pouco antes de amanhecer, num pomar de maçãs em França, o ar costumava parecer vivo.
Havia um zumbido leve e quase invisível de asas, uma nuvem em movimento de abelhas e sirfídeos, besouros discretamente presentes no início do turno.
Hoje, segundo os produtores, é possível percorrer as mesmas filas no começo da primavera e ouvir quase apenas o som dos próprios passos.
As árvores continuam a florir.
As flores continuam a abrir.
Mas o murmúrio familiar que antes anunciava uma colheita generosa está a diminuir, ano após ano.
No papel, fala-se em “tendências populacionais” e “declínio de biomassa”.
No terreno, a sensação é de um silêncio lento e desconcertante.
E os cientistas começam a admitir que esse silêncio pode alterar a cadeia alimentar global de formas para as quais ainda estamos muito mal preparados.
A quebra silenciosa que os cientistas já conseguem medir
Em vários continentes, equipas de investigação estão a acompanhar os insetos com a mesma atenção com que os economistas vigiam os mercados bolsistas.
Há armadilhas de queda em prados alemães, armadilhas luminosas em florestas da Costa Rica e cartões adesivos em campos de milho do Centro-Oeste norte-americano.
Os métodos variam, mas o resultado repete-se: as linhas dos gráficos descem.
Um estudo marcante realizado na Alemanha deixou os ecologistas em choque quando revelou uma queda de 75% na biomassa de insetos voadores em áreas protegidas ao longo de apenas 27 anos.
Trabalhos posteriores no Reino Unido, nos Estados Unidos, na Austrália e em partes da Ásia apontam na mesma direção.
Os detalhes mudam; a tendência mantém-se.
Os cientistas não usam a expressão “apocalipse dos insetos” de ânimo leve.
Reverificaram cálculos, voltaram aos locais de amostragem antigos e discutiram, uma a uma, todas as fontes possíveis de enviesamento.
Mesmo assim, a descida continua a verificar-se.
Quando uma monitorização se prolonga durante décadas, aquilo que parecia uma impressão ganha peso de prova.
E isso é importante porque as pequenas alterações no número de insectos podem anunciar mudanças muito maiores na polinização, no controlo de pragas e até na saúde das aves que deles dependem.
Da Costa Rica às explorações agrícolas: o que já mudou no terreno
Olhemos para a Costa Rica, um ponto quente de biodiversidade que deveria estar cheio de actividade.
Num estudo de longa duração, os investigadores regressaram a uma floresta de montanha célebre, estudada nos anos 70.
Usaram as mesmas armadilhas, os mesmos protocolos e as mesmas épocas do ano.
O resultado?
A recolha trouxe apenas entre 10% e 60% dos insetos registados décadas antes, consoante o grupo analisado.
Borboletas e mariposas, polinizadores essenciais e alimento para aves, sofreram uma quebra tão profunda que a equipa teve dificuldade em completar coleções de referência básicas.
Os agricultores já sentem esta mudança de forma muito prática.
Os produtores de amêndoa na Califórnia, que dependem da polinização, estão a alugar mais colmeias e a pagar preços mais altos apenas para manter os mesmos níveis de produção.
Em zonas da China, algumas árvores de fruto já são polinizadas à mão com pincéis porque os polinizadores locais desapareceram.
Isto não é ficção científica; é uma linha no orçamento.
Porque razão os insetos estão a desaparecer?
Então, o que está a empurrar os insetos para fora do mapa?
Não existe um único culpado capaz de explicar uma tendência global tão ampla, mas há suspeitos que aparecem repetidamente.
A perda de habitat fragmenta prados de flores silvestres em pequenos retalhos de verde.
Os pesticidas, sobretudo os neonicotinóides, enfraquecem ou matam os polinizadores que conseguem sobreviver.
As alterações climáticas deslocam estações e temperaturas mais depressa do que muitas espécies conseguem acompanhar.
À noite, a iluminação artificial espalha-se das cidades e das autoestradas como uma lua cheia permanente, confundindo insetos nocturnos e consumindo a sua energia.
As monoculturas oferecem breves períodos de alimento e, depois, longos meses de vazio.
Quando a vida depende de néctar e abrigo, meses sem nada podem ser fatais.
A isto junta-se outra pressão muitas vezes ignorada: a fragmentação do território por estradas, urbanização e superfícies impermeabilizadas.
Mesmo quando um habitat não desaparece por completo, pode ficar dividido em áreas demasiado pequenas e isoladas para sustentar populações saudáveis ao longo do tempo.
Não se trata apenas de uma história sobre bichos pequenos.
Trata-se de arrancar fios minúsculos, mas indispensáveis, da teia alimentar global.
O que pode ser feito, para além de se sentir impotente?
Comece pequeno, mas comece perto.
Se tiver uma varanda, um quintal ou um pátio escolar, esse espaço pode transformar-se num refúgio minúsculo numa paisagem fragmentada.
Investigadores e organizações de conservação apontam para uma receita simples: diversidade, ausência de pesticidas e algum grau de desordem.
Plante flores autóctones que floram no início da primavera, no meio do verão e no fim do outono, para que haja sempre alimento disponível.
Deixe um canto com erva alta, caules secos ou um tronco, onde besouros e abelhas solitárias possam nidificar.
Nas explorações agrícolas, vários ensaios mostram que faixas floridas entre campos e sebes nos limites das parcelas aumentam os polinizadores e os controladores naturais de pragas, como joaninhas e vespas parasitas.
As colheitas não precisam necessariamente de cair; em alguns casos, até sobem graças a uma melhor polinização e a menos surtos de pragas.
Isso não é romantismo ambiental, é dado de campo.
Também ajuda acompanhar a evolução local de forma colectiva.
Registar os polinizadores do bairro, participar em inventários de biodiversidade ou apoiar planos municipais de gestão de bermas e espaços verdes pode dar visibilidade a espécies que, de outra forma, passam despercebidas.
Quando muitas pessoas observam e reportam o que veem, os decisores deixam de poder fingir que o problema é abstracto.
Sejamos honestos: ninguém faz isto de forma impecável todos os dias.
Ninguém cuida do jardim como se fosse uma reserva natural, lê todos os ingredientes de cada pulverização e escreve ao deputado antes do café.
A vida já é suficientemente exigente.
Os cientistas que estudam insetos sabem isso.
Muitos são pais, arrendatários e pessoas que também se esquecem de regar as plantas da varanda.
A mensagem deles não é “salve o mundo sozinho”; é “puxe um pouco pelo sistema, a partir do lugar onde está”.
Esse “puxão” pode ser tão simples como perguntar à câmara municipal por que motivo corta as bermas em plena floração.
Ou escolher produtos provenientes de explorações que reduzam a utilização de químicos.
Pequenas alavancas, repetidas por milhões de pessoas, acabam por somar.
“Chamar a isto uma ‘crise dos insetos’ não serve para assustar as pessoas”, explica a Dr.ª Sofia Li, ecologista que trabalha no declínio dos polinizadores na Ásia Oriental.
“Serve para nos lembrar que a segurança alimentar assenta em biliões de pequenas asas e patas que quase nunca reparámos.
Se os protegermos, estamos na verdade a proteger o nosso próprio prato.”
- Troque relvado por vida: substitua uma parte do relvado uniforme por uma faixa mista de flores e ervas autóctones.
- Reduza o uso de químicos: opte primeiro por tratamentos localizados e soluções não químicas antes de recorrer a pesticidas de largo espectro.
- Ilumine com cuidado: mude a iluminação exterior para lâmpadas LED de tom quente e baixa intensidade e desligue-as durante a noite sempre que possível.
- Crie abrigo: deixe um pequeno monte de madeira, uma área de lama ou blocos de madeira perfurados para nidificação de abelhas e besouros.
- Pergunte e partilhe: fale com vizinhos, escolas e responsáveis locais sobre espaços “amigos dos insetos” e partilhe o que resulta.
O declínio dos insetos e a cadeia alimentar global
A parte mais difícil de compreender é o grau de dependência da cadeia alimentar em relação aos insetos.
Cerca de três quartos das principais culturas alimentares do mundo dependem da polinização por animais, grande parte dela realizada por abelhas, moscas, besouros e borboletas.
Se uma fatia desses polinizadores desaparecer, não é apenas o mel ou os jardins bonitos que deixam de existir.
Fruta, frutos secos, sementes, café, chocolate, especiarias e culturas oleaginosas sentem o impacto.
As colheitas podem diminuir, os preços podem subir e as dietas podem tornar-se mais pobres e menos variadas.
Os insetos predadores também funcionam como controlo biológico vivo nas explorações agrícolas.
Quando desaparecem, a utilização de químicos tende a aumentar, o que volta a pressionar os insectos que ainda resistem.
É um ciclo de retroacção que pode acelerar muito depressa na direcção errada.
Ainda assim, a história não está fechada.
Onde as paisagens são renaturalizadas, onde o uso de pesticidas baixa e onde habitats floridos são reintroduzidos entre parcelas agrícolas, os números dos insetos muitas vezes recuperam.
Numa exploração recuperada no sul de Inglaterra, sebes abandonadas durante anos foram replantadas e as margens de flores silvestres foram deixadas crescer.
Ao fim de uma década, os levantamentos registaram o regresso de borboletas, sirfídeos e abelhas que quase não se viam na zona há anos.
As aves seguiram os insetos e, literalmente, o lugar passou a soar de outra forma.
É aí que reside a esperança silenciosa desta tendência inquietante.
Já conhecemos alguns dos motores do problema.
Já testámos algumas das soluções.
A questão deixou de ser “será possível?” e passou a ser “vamos fazê-lo à escala que conta?”
Da próxima vez que vir uma traça a rondar um candeeiro ou uma abelha atrapalhada entre as flores que brotam de um passeio rachado, vale a pena parar um instante.
Essas criaturas pequenas, tantas vezes ignoradas, sustentam muito mais do nosso sistema alimentar do que alguma vez nos ensinaram.
Isto não é apenas nostalgia por campos de verão cheios de zumbidos na infância, embora isso também importe.
É decidir se a cadeia alimentar global de 2050 continuará a ter estas peças todas em movimento ou se olharemos para estes avisos como o momento em que poderíamos ter mudado de rumo.
Talvez a verdadeira pergunta não seja “Porque é que os insetos estão a desaparecer?”
Talvez seja “Que tipo de mundo queremos ter no prato - e com quem, ou com o quê, estamos dispostos a partilhá-lo?”
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| O declínio dos insetos é mensurável e generalizado | Estudos de longa duração mostram que a biomassa e a diversidade caíram de forma acentuada em várias regiões | Ajuda a enquadrar as notícias e a perceber a gravidade real por trás da expressão “crise dos insetos” |
| Não estão em risco apenas “bichos” | A polinização, o controlo natural de pragas e a alimentação das aves dependem de populações de insetos saudáveis | Liga a mudança ecológica a preocupações quotidianas, como preços e disponibilidade de alimentos |
| As ações locais podem aliviar a pressão | Criar habitat, reduzir pesticidas e influenciar políticas locais ajuda na recuperação dos insetos | Oferece alavancas concretas e realistas para quem se sente impotente perante o declínio global |
Perguntas frequentes
Todos os insetos estão a diminuir ao mesmo ritmo?
Não. Alguns grupos, como muitas borboletas, abelhas e efémeras, mostram quedas acentuadas, enquanto algumas espécies praga e espécies generalistas se mantêm estáveis ou até aumentam. A crise diz respeito à perda de diversidade e de funções essenciais na teia alimentar, não a uma descida idêntica em todos os insetos.De que forma isto afecta o que chega aos supermercados?
Muitas frutas, frutos secos, legumes e sementes oleaginosas dependem da polinização por insetos. À medida que os polinizadores diminuem, as colheitas podem baixar e a produção torna-se mais cara, o que pode resultar em preços mais altos, qualidade inferior e menos variedade nas prateleiras ao longo do tempo.As alterações climáticas são a principal causa?
As alterações climáticas são um factor importante, mas actuam em conjunto com a perda de habitat, os pesticidas e a poluição luminosa. A maioria dos cientistas vê isto como uma “tempestade perfeita” de pressões, e não como um único culpado.As cidades podem mesmo ajudar os insetos a recuperar?
Sim. Jardins urbanos, parques, telhados verdes e bermas não cortadas podem albergar comunidades de insetos surpreendentemente ricas, sobretudo quando usam plantas autóctones e poucos produtos químicos. As cidades podem tornar-se refúgios importantes em regiões muito agricultadas.Qual é a mudança mais útil que posso fazer?
Se tiver acesso a qualquer espaço exterior, transformar mesmo uma pequena área numa zona rica em flores e sem pesticidas ao longo das estações é uma das medidas mais eficazes. Se não tiver, apoiar produtores e políticas que reduzam o uso de químicos e recuperem habitats é uma alternativa muito poderosa.
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