Uma estrela pop que se chama a si própria “feia”, uma atriz que diz que “nunca gostou” do seu corpo - apesar de milhões de fãs e de elogios. Por detrás de afirmações deste género, muitas vezes há algo mais do que um mau momento: uma perturbação psicológica séria, que deforma na mente a própria imagem e pode passar a comandar o dia a dia.
O que está por detrás da perturbação da imagem corporal
Os especialistas falam de uma perturbação da imagem corporal ou da esquematização corporal, frequentemente designada no contexto médico como perturbação dismórfica corporal. Quem sofre com isto não se vê como realmente é. O centro da atenção recai em defeitos supostos, que no próprio sentir parecem enormes, mas que, objetivamente, mal se notam ou nem sequer existem.
A perturbação não está no rosto nem na barriga, mas na imagem interior que cada pessoa constrói de si própria.
Esta perceção pode abranger todo o corpo ou apenas zonas específicas, por exemplo:
- “A minha barriga é enorme” - apesar de o peso estar dentro do intervalo normal
- “O meu nariz está deformado” - embora os outros o considerem totalmente discreto
- “As minhas rugas são insuportáveis” - mesmo sendo apenas linhas ligeiras
- “Pareço demasiado velho/a” - apesar de a idade corresponder à aparência
O resultado é uma tensão interior permanente. Muitas pessoas afetadas comparam-se constantemente com os outros, verificam a aparência ao espelho ou na câmara do telemóvel - ou fazem o contrário: evitam espelhos, fotografias e qualquer forma de atenção.
Quando as estrelas falam publicamente sobre auto-ódio e perturbação dismórfica corporal
Quando músicos, atrizes ou atletas de renome internacional contam publicamente que detestam o próprio corpo, isso parece, à primeira vista, desconcertante para muita gente. Afinal, essas pessoas encarnam supostamente os ideais de beleza dominantes, são vistas como desejáveis, bonitas e bem-sucedidas.
É precisamente aqui que se revela um problema central da perturbação da esquematização corporal: os aplausos vindos de fora embatem na imagem interior distorcida. A pessoa afetada acredita mais nos seus pensamentos críticos do que em milhares de vozes que dizem o contrário.
Quem sofre de uma perturbação da imagem corporal muitas vezes não “compra” nada com elogios - eles simplesmente não chegam à autoimagem interior.
Psiquiatras e psicoterapeutas referem que a perturbação é especialmente visível em pessoas com presença pública. Há várias razões para isso:
- As figuras públicas estão permanentemente sob o olhar das câmaras e das redes sociais.
- A sua aparência é comentada, avaliada e comparada em público.
- Vivem uma representação exagerada, muitas vezes idealizada, da própria pessoa.
- O contraste entre a “imagem pública” e a “imagem ao espelho em casa” torna-se particularmente intenso.
Quem vê constantemente fotografias retocadas de si próprio, usa maquilhagem profissional e está em estúdios perfeitamente iluminados, pode sentir um choque maior ao olhar-se no espelho da casa de banho: de repente, surgem sombras, imperfeições da pele, rugas - sinais corporais totalmente normais, mas que parecem provas do próprio “fracasso”.
Como a perturbação se manifesta no dia a dia
Uma perturbação da esquematização corporal é muito mais do que simples insatisfação com a figura. Pode atravessar todas as áreas da vida e provocar problemas graves.
Sinais típicos no comportamento
- Observar-se ou inspecionar-se ao espelho durante horas
- Fotografar de forma excessiva o próprio rosto ou corpo para manter “controlo”
- Esconder ou disfarçar supostos defeitos com roupa, maquilhagem ou penteado
- Evitar piscinas, aulas de desporto, balneários e videochamadas
- Fazer dietas sucessivas, planos de treino ou comprar produtos de cuidado por desespero
- Procurar com frequência cirurgiões plásticos - muitas vezes com “zonas problemáticas” diferentes
A isto junta-se um diálogo interior intenso e cheio de auto-desvalorização. Pensamentos como “Sou repulsivo/a”, “Assim não posso encontrar ninguém” ou “Toda a gente só olha para o meu defeito” são típicos. Muitas pessoas isolam-se, vêem os amigos com menos frequência ou cancelam encontros no último minuto porque “a aparência não está bem”.
Ligação com outras doenças psicológicas
A perturbação da esquematização corporal muitas vezes não surge sozinha. Pode fazer parte de, ou resultar de, outras doenças, por exemplo:
- depressões
- perturbações do comportamento alimentar, como anorexia ou bulimia
- perturbações obsessivo-compulsivas
- perturbações de ansiedade social
Quem odeia o próprio corpo, por exemplo, come de forma extremamente reduzida ou controla cada caloria. Outras pessoas, por sua vez, exageram no treino, passam horas por dia no ginásio ou assumem riscos para a saúde através de produtos de dieta.
Porque é que as mudanças externas raramente ajudam
Muitas pessoas afetadas esperam que uma intervenção externa ponha fim ao sofrimento: uma rinoplastia, uma lipoaspiração, botox ou preenchimentos. Durante algum tempo, pode surgir a sensação de que o problema ficou resolvido. Mas, numa verdadeira perturbação da esquematização corporal, o foco muda muitas vezes apenas de lugar.
A mensagem central dos especialistas é esta: não se corrige de forma duradoura uma imagem interior distorcida com bisturi.
A perturbação de base está na perceção e em crenças profundamente enraizadas, como “Só sou digno/a de ser amado/a se for perfeito/a”. Quando um defeito é “corrigido”, costuma aparecer o seguinte. Ou então a pessoa continua convencida de que a operação correu mal, mesmo que quem está de fora não veja qualquer erro.
Por isso, muitos psiquiatras e psicoterapeutas avisam: quem reconhecer estes padrões em si ou em familiares não deve responder com o próximo procedimento estético, mas procurar primeiro ajuda psicológica.
Como pode ser o tratamento
As boas notícias: a perturbação da esquematização corporal pode ser tratada. O caminho raramente é curto, mas existem abordagens comprovadas que aliviam de forma clara.
Componentes de uma terapia
- Psicoterapia: sobretudo terapia cognitivo-comportamental, para reconhecer e alterar passo a passo os pensamentos distorcidos sobre o próprio corpo.
- Exercícios de exposição: contacto consciente com espelhos, fotografias ou situações públicas, sem recorrer às estratégias habituais de evitamento.
- Trabalho da autoestima: separar a aparência do valor enquanto pessoa e desenvolver outras fontes de orgulho e identidade.
- Medicamentos: em alguns casos, antidepressivos, quando surgem depressões fortes ou obsessões.
- Atividades sensoriais: desporto, ioga, dança, meditação ou atenção plena, para perceber o corpo de forma mais direta e menos crítica.
Os terapeutas sublinham que, em especial, os doentes famosos muitas vezes têm mais dificuldade: para onde quer que vão, a sua aparência é comentada - seja de forma positiva ou negativa. Isso reforça a fixação no corpo. Ainda assim, a dor psíquica que descrevem é semelhante à de pessoas completamente anónimas.
Pressão social, redes sociais e auto-ódio
Segundo a avaliação de muitos especialistas, o número de pessoas que odeiam o próprio reflexo está a aumentar. Um dos fatores é as redes sociais. Filtros, aplicações de retoque e comparações constantes com corpos aparentemente perfeitos elevam a fasquia pessoal.
Quem compara diariamente o próprio espelho sem filtros com imagens editadas perde rapidamente a noção do que é normal.
Até os adolescentes passam muito tempo a editar auto-retratos, a apagar fotografias menos favoráveis e a comparar-se com influenciadores que vivem da luz, da maquilhagem e da edição profissional. O passo de “Eu gostava de ser mais bonito/a” para “Sou insuportavelmente feio/a” pode ser mais curto do que os pais imaginam.
Pode ser útil falar em conjunto sobre edição de imagem, ver exemplos de antes e depois e chamar as coisas pelo nome: o que aparece no Instagram ou no TikTok é muitas vezes um produto, não um reflexo real de uma pessoa num dia normal.
Quando é preciso ficar alerta
Muita gente conhece dias em que não gosta da própria imagem no espelho. O problema torna-se alarmante quando a questão da aparência domina a vida. Sinais de aviso típicos:
- O dia organiza-se em função de quão “apresentável” a pessoa se sente.
- Os contactos sociais diminuem e os convites são recusados de forma sistemática.
- Os pensamentos giram durante horas à volta de partes específicas do corpo.
- Surgem auto-ódio, desesperança ou pensamentos suicidas.
Nesses casos, a ajuda profissional não é um luxo, mas sim um passo que pode salvar vidas. Médicos de família, psicoterapeutas, consultas de psiquiatria ou linhas telefónicas de apoio são pontos de partida.
Quem não é afetado, mas reconhece alguém do seu meio, deve abordar o assunto com cuidado, sem julgar a aparência. Frases como “Não faças disso um drama” ou “Mas tu estás muito bem” soam muitas vezes depreciativas ou passam ao lado do problema central. É melhor mostrar interesse pelo sofrimento interior, ouvir, oferecer ajuda - e deixar claro que a relação não depende da aparência exterior.
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