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94 anos e ainda a pagar leasing do carro no lar? Saiba como proteger os seus familiares.

Carro desportivo elétrico cinzento metálico em showroom com grandes janelas e reflexos no chão de mármore.

O caso do leasing do homem de 94 anos: o contrato continua até 2027

O caso de um homem de 94 anos do sul de França está a causar espanto neste momento: o idoso já não consegue conduzir há muito tempo, mas um contrato de leasing mantém-no preso durante anos a uma berlina de gama média. A família está desesperada para sair do acordo e pondera avançar com medidas legais. O episódio mostra com grande clareza quão depressa as pessoas mais velhas podem ficar enredadas em contratos dispendiosos - e quais as precauções que as famílias devem adotar para evitar precisamente isso.

O caso: 94 anos, num lar, e o leasing da Citroën a decorrer até 2027

Em dezembro de 2023, o homem, que ainda vivia em casa, assinou um contrato de leasing para um Citroën C4 com caixa automática e 130 cv. Valor do veículo: mais de 34.000 euros. Prestação mensal: cerca de 700 euros. Fim do contrato: novembro de 2027.

Pouco tempo depois, o seu estado de saúde agravou-se de forma acentuada. O homem foi para um lar, usa cadeira de rodas e, segundo atestados médicos, já não pode conduzir sozinho. O carro está parado sem ser usado - mas as prestações continuam a ser debitadas da conta.

"Vários milhares de euros por um carro que já não pode ser conduzido: para muitas famílias, isso seria uma catástrofe financeira."

O neto do idoso conta que abordou várias vezes o vendedor, apresentou atestados médicos e pediu que o contrato fosse terminado antecipadamente ou que, pelo menos, se encontrasse uma solução. Até agora, sem sucesso. A família fala em possível aproveitamento de uma situação de fragilidade e procura agora apoio jurídico.

Porque é que o leasing se torna muitas vezes uma armadilha de custos em caso de doença

O leasing e o chamado "aluguer de longa duração" são vistos como soluções inteligentes quando se quer conduzir um carro novo com regularidade e sem ficar preso durante muito tempo. É precisamente aqui que reside o erro de cálculo: estes contratos estão longe de ser flexíveis.

Como funcionam os contratos de leasing típicos

  • Prazo fixo, geralmente entre 24 e 48 meses
  • Prestações mensais, muitas vezes com entrada inicial
  • Não há propriedade do veículo, apenas direito de utilização
  • Quilometragem contratualmente definida
  • Custos adicionais elevados em caso de excesso de quilómetros ou danos

Nos contratos clássicos, a situação de saúde ou financeira do cliente é, para a outra parte, sobretudo uma "questão privada". Na maioria dos documentos não existe uma possibilidade automática de saída em caso de doença, perda de aptidão para conduzir ou necessidade de cuidados permanentes.

Mesmo quando existem seguros para morte ou incapacidade para o trabalho, por vezes só cobrem casos muito estritamente definidos. Como no caso descrito, isso pode significar: o idoso está vivo, mas deixou definitivamente de estar apto para conduzir - e a apólice não paga.

O que a lei prevê em caso de doença e invalidez

Do ponto de vista jurídico, o leasing automóvel é um contrato de direito civil com um prazo claramente definido. Sair "simplesmente" de forma unilateral é, na prática, quase impossível. Quem denuncia o contrato tem frequentemente de pagar quase todas as prestações que faltam ou ficar com o veículo por um preço previamente fixado, muitas vezes elevado.

As associações de defesa do consumidor criticam há anos o facto de a realidade de vida das pessoas mais velhas ser demasiado pouco considerada, sobretudo nos contratos de mobilidade de longa duração. Um AVC, uma queda, um diagnóstico de demência - tudo isto pode tornar a condução impossível de um dia para o outro.

"Muitos contratos de leasing só conhecem como acontecimentos especiais a perda total, o roubo ou a morte - mas não a necessidade de cuidados permanentes ou a perda definitiva da carta de condução."

Há, contudo, modelos apoiados pelo Estado, como certos programas para veículos elétricos. Nesses casos, por vezes é exigido que, em caso de morte, invalidez ou desemprego, seja possível rescindir o contrato sem custos. Nos contratos normais de leasing, isso não se aplica.

Quando é que se fala em aproveitamento de uma situação de fragilidade?

No caso em análise, a família está a verificar se pode ter existido um chamado abuso de uma situação de fragilidade. Trata-se de situações em que empresas exploram de forma deliberada o desgaste, a doença ou a dependência de uma pessoa para lhe impor contratos caros ou desnecessários.

Sinais típicos de contratos problemáticos

  • Idade muito avançada ou limitações cognitivas evidentes do cliente
  • Encargo invulgarmente elevado face ao valor da pensão
  • Seguros adicionais complexos sem necessidade reconhecível
  • Contrato fechado com grande pressa ou sem familiares presentes
  • O vendedor conhece o estado de saúde e, ainda assim, pressiona para a assinatura

Se mais tarde os familiares concluírem que o contrato foi celebrado nestas circunstâncias, podem seguir vários caminhos: denúncia às autoridades, intervenção do tribunal competente em matéria de acompanhamento ou negociação com a entidade que vendeu o contrato. Em casos concretos, um contrato pode vir a ser considerado inválido se ficar provado que o idoso já não compreendia o alcance do que estava a assinar.

Que possibilidades concretas têm as famílias

Quem estiver numa situação semelhante deve agir de forma organizada. A emoção ajuda pouco; os documentos ajudam muito. Os passos úteis podem ser estes:

  • Reunir contrato e documentação: contrato de leasing, condições do seguro, correspondência, registos de venda.
  • Obter atestados médicos: confirmação da incapacidade para conduzir, diagnóstico, data do agravamento.
  • Falar com o vendedor: propor por escrito uma solução amigável (rescisão do contrato, transferência para terceiros, devolução do veículo contra pagamento de uma compensação).
  • Contactar uma associação de defesa do consumidor: verificar se existem cláusulas inválidas ou falhas de aconselhamento.
  • Consultar um advogado: se houver suspeita de abuso de uma situação de fragilidade ou de incapacidade para praticar atos jurídicos.
  • Acionar o tribunal de acompanhamento ou o tribunal de família: para representação legal, quando a pessoa em causa já não consegue tratar dos seus assuntos sozinha.

Como último recurso, em situações financeiras muito apertadas, pode ainda equacionar-se um processo de insolvência por sobre-endividamento. Isso não alivia de imediato, mas pode evitar que uma família fique permanentemente esmagada pelo peso das prestações.

Como evitar estes casos logo de início

O aspeto trágico é este: muitas destas situações poderiam ser evitadas se os familiares se envolvessem mais cedo ou se os idosos falassem com mais abertura sobre dinheiro. Algumas medidas são relativamente fáceis de pôr em prática.

Falar cedo sobre mobilidade e contratos

Quem notar que os pais ou os avós já conduzem com menos segurança deve abordar ativamente o tema do automóvel. Não se trata apenas de segurança, mas também de finanças: será que um contrato de leasing de vários anos, quando já se tem quase 100 anos, ainda faz sentido?

Pode ser útil calcular em conjunto alternativas como estas:

  • Compra de um automóvel usado com desvalorização reduzida
  • Partilha de automóveis ou serviços de transporte para idas ao médico
  • Vouchers de táxi em vez de um carro próprio
  • Apoio de vizinhos ou familiares

Procuração e acompanhamento da conta

Com uma procuração preventiva, os idosos podem definir quem pode tratar dos contratos e das operações bancárias quando já não estiverem em condições de o fazer. Isto pode soar frio, mas muitas vezes poupa as famílias a surpresas desagradáveis.

Muitos bancos oferecem hoje direitos limitados de consulta ou de co-utilização de contas. Assim, torna-se mais fácil detetar quando começam a surgir débitos elevados para contratos duvidosos.

Leasing na terceira idade: em que deve reparar, concretamente?

Questão Em que deve reparar?
Prazo É previsível que o idoso consiga conduzir com segurança durante todo esse período?
Prestação mensal Depois de pagar a prestação, sobra o suficiente para renda, cuidados e medicamentos?
Cláusulas especiais Existem regras sobre doença, perda da carta de condução ou necessidade de cuidados permanentes?
Seguros As apólices só acionam em caso de morte ou também em caso de incapacidade permanente para conduzir?
Comportamento do vendedor Há explicações transparentes ou, pelo contrário, muita pressão?

Outro sinal de alerta é quando vários seguros adicionais são vendidos "em pacote" sem ficar claro o que realmente cobrem. Em caso de dúvida, vale a pena marcar uma segunda reunião, na qual um familiar acompanhe a conversa e coloque perguntas críticas.

Porque é que este caso diz respeito a muitas famílias

A população está a envelhecer, e os modelos de leasing e de subscrição estão em expansão - esta combinação gera inevitavelmente mais conflitos. O que hoje acontece com um Citroën pode amanhã acontecer com bicicletas elétricas, contratos de telemóvel ou subscrições de televisão.

As famílias que assumem responsabilidades não devem, por isso, hesitar em rever regularmente os contratos dos familiares mais velhos. Isso não tem a ver com paternalismo, mas sim com proteção contra decisões erradas numa fase da vida em que já falta energia para lidar com papelada.

Quem estabelecer atempadamente acordos claros, regular procurações e estiver presente nas decisões sobre contratos mais importantes reduz enormemente a probabilidade de acabar, no fim, com um carro caro e parado e com anos de prestações para pagar.

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