A amiga sentada em frente, no café, remexe o bolo com a colher enquanto diz: “Sou mesmo assim.” Os ombros encolhem-se, como se tivesse acabado de ler a previsão do tempo, e não a própria vida interior. Conheces esta frase. Ela aparece quando alguém volta a chegar atrasado. Quando, pela terceira vez, ignoras uma saída com uma pessoa simpática. Quando preferes calar-te em vez de dizer o que te magoou. “Sou assim” soa inofensivo, quase acolhedor. Como uma camisola velha que arranha, mas já nos é familiar. Na verdade, muitas vezes é um sinal de paragem, uma última tentativa de não ir mais fundo. Por trás desta frase há mais do que admitimos. Muito mais.
O que estás realmente a dizer quando dizes “Sou mesmo assim”
Todos conhecemos aqueles momentos em que deveríamos explicar-nos - e acabamos por encolher os ombros: “Sou mesmo assim.” Com isso, pousas o teu comportamento na mesa como uma pedra: imóvel, pesada. Na voz há uma teimosia discreta, por vezes também cansaço. É como se dissesses: por favor, não me faças mais perguntas, não tenho energia para procurar causas. Ao mesmo tempo, esperas que a outra pessoa te aceite na mesma, tal como és. Entrelinhas, vai uma súplica: não me deixes, por eu ser assim.
Se escutarmos com mais atenção, “Sou mesmo assim” raramente é uma descrição; é antes um escudo. Desenhas uma fronteira entre ti e o mundo. Do lado de lá estão as expectativas, os pedidos de mudança, a crítica. Do lado de cá estás tu, com os teus defeitos, medos e pontos cegos. A frase pretende proteger-te como um guarda-chuva durante uma chuvada súbita. Só que a chuva nem sempre vem de fora. Muitas vezes, o aguaceiro és tu próprio.
Imagina o João, 32 anos, criativo, desorganizado. Vive sempre a chegar atrasado, falha prazos, aparece “já” aos encontros - ou seja, 40 minutos depois. Quando a namorada se irrita, ele responde: “Sou mesmo assim, não tenho jeito para horários.” Conta esta versão de si com uma gargalhada, como se fosse uma história engraçada. Só que, com o tempo, a namorada deixa de achar graça. O “sou assim” tem consequências: projetos passam-lhe ao lado, as relações ficam frágeis, a confiança desfaz-se. Ele percebe isso - e agarra-se ainda mais à frase.
Estudos em psicologia mostram que as pessoas gostam de se definir através de características estáveis: “Sou extrovertido”, “Sou preguiçoso”, “Sou emocional”. Isso dá ordem a uma vida interior caótica. Um rótulo é mais fácil de encontrar do que uma conversa verdadeira consigo próprio. Em inquéritos, muitos dizem que “não se conseguem mudar”, apesar de, nos últimos cinco anos, terem trocado de emprego, de cidade ou de relação. Agimos com flexibilidade, mas falamos de nós como se fôssemos de betão.
Muitas vezes, por trás de “Sou mesmo assim” existem histórias antigas. Talvez, em criança, te tenham feito sentir que eras “demasiado barulhento”, “demasiado sensível” ou “demasiado lento”. Em algum momento, pegaste nisso, embrulhaste tudo e chamaste-lhe “eu”. Cada crítica de hoje toca nessa mala antiga. Não admira que a resposta saia de imediato: “Sou mesmo assim.” A frase impede que alguém mexa no fecho. E, ao mesmo tempo, trava-te a ti também. Porque, enquanto o teu comportamento parecer uma catástrofe natural - incontrolável, simplesmente presente - não precisas de o questionar.
Do ponto de vista psicológico, isto é, ao mesmo tempo, autoproteção e comodismo. A frase liberta-te da responsabilidade: se és “assim”, então não tens de fazer nada. Assim, a raiva vira apenas “o teu temperamento”, a distância emocional torna-se “o teu jeito” e o afastamento passa a ser “a tua natureza”. Em termos crus: trata-se de uma pequena desculpa diária, disfarçada de sinceridade. E sim, este disfarce resulta surpreendentemente bem - muitas vezes até perante ti próprio.
Como olhar para lá da frase “Sou mesmo assim” sem te julgares
O ponto mais interessante surge quando deixas de aceitar a frase no automático. Um método simples: parar, reformular, manter a curiosidade. Na próxima vez que te ouvires a pensar “Sou mesmo assim”, acrescenta mentalmente um “...porque?” Sou mesmo assim fugidio em conflitos porque... De repente, abre-se uma porta. Talvez apareça uma cena em que foste castigado por dizer o que pensavas. Ou o momento em que alguém pôde dizer “Sou assim” - e tu engoliste a tua própria vontade. Com esta pequena pergunta, tiras o teu comportamento do pedestal da imutabilidade e olhas para ele à luz normal.
Ajuda ver isto como um pequeno projeto de investigação, e não como um julgamento em tribunal. Vais reunindo situações em que usas a frase - em voz alta ou só para ti. Durante alguns dias, aponta-as por palavras-chave, sem comentários. Vais reparar em padrões: os mesmos gatilhos, as mesmas pessoas, os mesmos sentimentos. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas algumas notas no telemóvel podem bastar para perceber quando não és “mesmo assim”, mas antes “assim a reagir”.
Há um tropeção frequente: pensamos que, ao questionar “Sou mesmo assim”, perdemos a identidade. Como se cada mania fosse um pilar do nosso valor pessoal. Mas não se trata de lixar tudo em ti. Trata-se de distinguir entre carácter e um programa de defesa aprendido. Uma forma suave de começar é imaginar que estás a ouvir uma boa amiga dizer esta frase. O que lhe responderias?
Provavelmente não dirias: “Sim, tens razão, és mesmo complicada, nunca mudes.” Perguntarias antes: “De onde vem este teu ‘assim’? Quem te contou isso?” E talvez acrescentasses: “Eu ainda vejo outras partes tuas.” É exatamente essa postura que também podes oferecer a ti próprio. Com o mesmo calor, com o mesmo humor. As conversas internas raramente soam a citações de Instagram; parecem mais uma mistura de latim de cozinha com margem de diário.
Ajuda perceber que usamos esta frase muitas vezes por medo de exigências. Se dizes “Não sou propriamente pessoa de proximidade”, talvez não tenhas de lidar com a tua própria sede de afeto. Se dizes “Sou mesmo desorganizado”, não precisas de enfrentar uma expectativa de fiabilidade que te assusta. Uma frase de verdade mais sóbria seria esta: mudar dá trabalho, e as pessoas procuram atalhos. “Sou mesmo assim” é um desses atalhos - alivia no curto prazo, mas sai caro no longo prazo.
“Sempre que dizemos ‘Sou assim’, fechamos uma porta que ainda nem tínhamos experimentado abrir.”
- Repara na tua frase: quando dizes “Sou mesmo assim” - e com que tom?
- Pergunta-te em silêncio: “Este ‘assim’ ainda me ajuda hoje, ou é apenas antigo e familiar?”
- Deixa entrar uma microversão de mudança: em vez de “Sou impontual”, tenta “Tenho sido muitas vezes impontual”.
- Fala com alguém sobre um “sou assim” concreto, em vez de falares sobre a tua personalidade inteira.
- Permite-te ser contraditório: podes evitar conflitos e, ainda assim, aprender a erguer a voz.
Quando “Sou assim” pode passar a “Estou a tornar-me”
Talvez já estejas a notar, ao ler, quantas das tuas frases de “Sou mesmo assim” foram simplesmente herdadas. Dos pais, dos professores, dos ex-parceiros, dos teus próprios dias maus. O primeiro passo é tratá-las como histórias provisórias, e não como sentenças finais. Podes começar a reescrevê-las em silêncio. De “Não tenho jeito para relações” passas para “Até agora, tenho muitas vezes terminado relações quando a intimidade apertava”. Soa menos dramático - e, de repente, abre-se espaço para experimentar. Deixas de estar encurralado; passas a estar em movimento.
A coisa fica interessante quando percebes que podes escolher que partes do teu “sou assim” queres manter. Há lados que não são um problema, são apenas o teu estilo. Talvez sejas mesmo alguém que precisa de pausas, que prefere estar sozinho, que reage com intensidade emocional. Nem todo o “sou assim” é desculpa. Algumas coisas são conhecimento de si, um pedaço de identidade já clarificado. A arte está em distinguir: onde é que estás a defender a tua essência - e onde estás só a proteger hábitos?
No fim, o rígido “Sou mesmo assim” pode transformar-se numa frase viva: “Fui assim durante muito tempo - e agora estou a ver como quero ser.” Soa menos incisivo, mas devolve-te algo que a outra frase retira: margem de ação. Se partilhares esta ideia com alguém que te conhece, pode nascer uma conversa muito honesta. Talvez voltem um dia ao café, tu remexes o bolo com a colher, respiras fundo e dizes: “Olha, eu digo muitas vezes ‘sou mesmo assim’, mas na verdade…”
| Ponto central | Detalhe | Vantagem para o leitor |
|---|---|---|
| “Sou mesmo assim” como escudo | A frase bloqueia perguntas e mantém imagens antigas de si próprio | Reconhecer mais depressa os próprios mecanismos de defesa |
| Origens do “sou assim” | Aprendido na infância, nas relações e em experiências repetidas | Perceber porque certos padrões parecem tão teimosos |
| Do rótulo ao desenvolvimento | Reformular a frase, fazer perguntas, tentar pequenos ensaios | Ganhar mais eficácia pessoal e liberdade no próprio comportamento |
Perguntas frequentes:
- “Sou mesmo assim” é sempre algo negativo?Não. Às vezes, a frase descreve apenas uma faceta estável de ti que conheces e aceitas. Torna-se problemática quando corta a conversa ou te nega, por princípio, a possibilidade de mudar.
- Como percebo se estou a usar a frase como desculpa?Repara se a dizes sobretudo quando surgem críticas, intimidade ou responsabilidade. Se o efeito for estagnação em vez de alívio, é muito provável que funcione como mecanismo de defesa.
- A personalidade pode mesmo mudar?As tendências de base costumam manter-se, mas os padrões de comportamento são muito moldáveis. Podes continuar sensível e, ainda assim, aprender a lidar de forma diferente com essa sensibilidade.
- O que posso dizer em vez de “Sou mesmo assim”?Podes dizer, por exemplo: “Costumo reagir assim porque...” ou “Isto custa-me, mas ainda estou a aprender.” Soa mais verdadeiro e abre espaço para evolução, sem negar os teus limites.
- Como devo reagir quando os outros dizem sempre “Sou mesmo assim”?Pergunta com cuidado: “O que queres dizer exatamente com esse ‘assim’?” ou “Desde quando te vês desta forma?” Assim abres espaço sem atacar a outra pessoa.
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