Os governos, as empresas e as fundações competem hoje entre si com promessas de plantar milhares de milhões de árvores. À primeira vista, soa a uma resposta simples para a crise climática. No entanto, um estudo recente deixa claro que o fator decisivo não é tanto quantas mudas entram na terra, mas sim onde, exatamente, elas crescem. Há regiões que arrefecem fortemente o planeta, enquanto outras podem, paradoxalmente, voltar a aquecê-lo.
Porque é que as árvores não protegem o clima da mesma forma em todo o lado
À primeira vista, a conta parece fácil: as árvores retiram dióxido de carbono do ar e armazenam carbono na madeira, no solo e na vegetação. Mais floresta, menos CO₂ - problema resolvido. É precisamente esta imagem que a nova investigação vem corrigir.
Os investigadores mostram que o efeito das florestas resulta de vários mecanismos físicos e biológicos que se podem reforçar mutuamente ou anular uns aos outros. Três fatores assumem um papel central: o armazenamento de carbono, o poder de reflexão da superfície terrestre e a evaporação.
A reflorestação pode arrefecer a Terra - ou aquecê-la. A diferença depende muito do local e do tipo de paisagem que é transformada em floresta.
Armazenamento de CO₂: o efeito climático mais conhecido das florestas
Através da fotossíntese, as árvores absorvem dióxido de carbono e transformam-no em biomassa. Parte desse carbono fica no tronco, nas raízes e na camada de folhas caídas; outra parte vai para o solo. Este processo de armazenamento trava o aumento adicional da temperatura, desde que as áreas não voltem a ser desflorestadas ou queimadas.
Sobretudo nas regiões tropicais, as árvores crescem depressa e produzem muita biomassa. Aí, o balanço de CO₂ é especialmente favorável: muita absorção, variação sazonal relativamente baixa e reservatórios estáveis - pelo menos enquanto se evitarem incêndios em grande escala, a desflorestação ou a degradação dos solos.
Albedo: florestas escuras, superfícies claras
Menos conhecido é o efeito do chamado albedo. Trata-se da fração da luz solar que uma superfície devolve ao espaço. Superfícies claras, como neve, gelo ou solos secos e pálidos, refletem muita radiação. Já superfícies escuras - como florestas de coníferas ou solos húmidos - absorvem mais energia e aquecem mais.
Quando uma superfície coberta de neve e clara é ocupada por uma floresta escura, o poder de reflexão desce de forma acentuada. O solo passa a absorver mais calor e a temperatura do ar sobe localmente. Este efeito de aquecimento pode compensar parcialmente, ou até totalmente, o benefício do CO₂.
Evaporação: o ar condicionado natural da paisagem
O terceiro elemento é a evaporação, conhecida em termos técnicos como evapotranspiração. As árvores retiram água do solo e libertam-na de novo para a atmosfera através das folhas. Este processo consome energia - e, por isso, arrefece o ambiente, de forma semelhante ao suor na pele.
Nas regiões tropicais e húmidas, este “ar condicionado” é especialmente forte: florestas densas enviam enormes quantidades de água para a atmosfera, reduzindo assim as temperaturas a nível local e regional. Em áreas muito secas, o efeito é muito mais fraco, porque simplesmente há pouca água disponível.
Por que motivo as florestas tropicais dão uma vantagem climática - e as florestas boreais nem sempre
O estudo analisa dados de medição e simulações de modelos em diferentes zonas climáticas e chega a um padrão claro: o impacto da reflorestação depende fortemente da localização geográfica.
Trópicos: pouco risco, grande efeito de arrefecimento
Em regiões tropicais como a Amazónia, a África Central ou o Sudeste Asiático, os efeitos positivos dominam claramente. Aí, os três mecanismos atuam na mesma direção:
- elevada absorção de CO₂ devido ao crescimento rápido
- evaporação intensa e, portanto, arrefecimento expressivo
- perda relativamente pequena de albedo, porque o subsolo já é, por natureza, bastante escuro
Quando se volta a florestalizar áreas degradadas nestas zonas, o ganho climático por hectare é particularmente elevado. Os investigadores mostram que é possível obter o mesmo efeito de arrefecimento com cerca de metade da área florestal, desde que essas áreas estejam concentradas em regiões com elevado potencial.
Latitudes elevadas: a reflorestação pode sair pela culatra
A situação é muito diferente em latitudes setentrionais, como no Canadá, na Escandinávia ou na Sibéria. Nesses locais, o solo fica muitas vezes coberto de neve no inverno, refletindo uma grande quantidade de luz solar. Quando as florestas crescem sobre essas superfícies, o manto claro desaparece por baixo das copas escuras. A região passa a absorver mais energia e o ambiente aquece.
Em alguns cenários, o benefício climático chega mesmo a inverter-se: a reflorestação contribui, no saldo líquido, para o aquecimento, apesar de as árvores armazenarem CO₂. Programas em grande escala localizados em zonas com muita neve correm, sobretudo, este risco.
Efeitos à distância: as florestas influenciam o tempo muito longe do local
As florestas não atuam apenas de forma local. Elas alteram os padrões de vento, a troca de humidade entre o solo e a atmosfera e, com isso, também os regimes de chuva e temperatura em regiões afastadas. Um projeto de reflorestação em grande escala pode, portanto, modificar o tempo em zonas situadas a centenas ou milhares de quilómetros - de forma positiva ou negativa.
Um exemplo: mais floresta no cinturão tropical pode influenciar a chegada de humidade a outros continentes, alterar sistemas monçónicos ou atenuar, ou agravar, períodos de calor. Uma política climática que olha apenas para os efeitos locais ignora estes impactos à distância e acaba por planear contra a realidade.
Porque é que a política climática tem de deixar de contar apenas árvores
Durante muito tempo, os programas de reflorestação foram vistos como um instrumento climático simples. Um país compromete-se a plantar milhares de milhões de árvores, as empresas compensam viagens de avião com projetos florestais e muitos planos climáticos contam generosamente com futuras sumidouros de CO₂. A nova análise dá uma má avaliação a esta lógica.
Não é a quantidade bruta de mudas que determina o benefício climático, mas sim a combinação entre localização, tipo de floresta e estabilidade a longo prazo.
Áreas bem escolhidas em vez de política de fachada
Os investigadores defendem que a reflorestação deve ser muito mais orientada. A prioridade deve ir para regiões com elevado potencial de arrefecimento - sobretudo áreas tropicais, húmidas e degradadas que já tiveram cobertura florestal no passado. Já novas monoculturas em terrenos com albedo elevado ou com pouca disponibilidade de água apresentam resultados claramente piores.
Para os governos e para as empresas, isto significa que não basta anunciar reflorestação por hectares. O que conta é saber se os projetos estão localizados em sítios onde a floresta realmente gera um efeito líquido na temperatura global.
Monoculturas - mais baratas, mas arriscadas
Outra crítica do estudo dirige-se às plantações uniformes com uma ou muito poucas espécies de árvores. É certo que, muitas vezes, crescem mais depressa e podem ser geridas de forma industrial, mas trazem riscos consideráveis:
- maior vulnerabilidade a pragas e doenças
- risco acrescido de incêndio devido a povoamentos homogéneos e, muitas vezes, facilmente inflamáveis
- menor diversidade de espécies na flora e na fauna
- reservatórios de carbono no solo, em geral, mais rasos e instáveis
Em alternativa, os especialistas recomendam florestas mistas, adaptadas à respetiva região. Podem crescer mais devagar, mas resistem melhor às perturbações e armazenam carbono de forma mais duradoura e robusta.
Limites da reflorestação - sem travar as emissões, o efeito esvazia-se
O estudo também modera expectativas exageradas. Mesmo em cenários otimistas, nos quais áreas gigantescas são reflorestadas de forma criteriosa e sensata em todo o mundo, a temperatura média global desce, segundo os modelos, apenas cerca de 0,25 graus até ao ano 2100. É relevante, mas não é uma solução milagrosa.
Ao mesmo tempo, continuam a crescer as emissões provenientes do carvão, do petróleo e do gás, bem como da indústria e dos transportes. Se estas fontes não forem reduzidas de forma rápida e significativa, nenhuma reflorestação no mundo conseguirá compensar o aquecimento adicional.
O que os projetos podem fazer melhor, na prática
Para programas futuros, surgem linhas orientadoras claras. Quem quiser usar a reflorestação como instrumento climático deve respeitar algumas regras básicas:
- Avaliar o local: antes de iniciar o projeto, analisar de forma precisa como se comportam o albedo, a evapotranspiração e o armazenamento de CO₂ - incluindo cobertura de neve e humidade do solo.
- Dar prioridade a regiões tropicais e subtropicais: aí, um mesmo hectare tende a gerar mais efeito de arrefecimento do que em latitudes elevadas.
- Renaturalizar áreas anteriormente florestadas: recuperar ecossistemas degradados traz mais benefícios do que plantar pela primeira vez em espaços naturais sensíveis.
- Plantar florestas mistas: a diversidade reforça a resiliência, reduz o risco de incêndio e estabiliza os reservatórios de carbono.
- Planear a longo prazo: as florestas atuam ao longo de décadas. Os projetos precisam de financiamento duradouro, proteção contra a desflorestação e monitorização.
Estes critérios limitam a quantidade de projetos facilmente comercializáveis, mas aumentam de forma significativa o efeito climático real por cada euro investido. Para as empresas que divulgam promessas climáticas, torna-se assim muito mais difícil gerar certificados “verdes” com o mínimo esforço.
Termos que vale a pena conhecer - e o que significam na prática
Quem avalia projetos de reflorestação encontra frequentemente termos técnicos. Três deles são essenciais:
- Albedo: medida de quanta luz solar uma superfície reflete. Um albedo elevado (neve, deserto claro) arrefece; um albedo baixo (floresta, água) aquece.
- Evapotranspiração: combinação da evaporação da água dos solos e das plantas. Arrefece o ar circundante e, em zonas húmidas, contribui para temperaturas agradáveis.
- Sumidouro de carbono: sistema que absorve permanentemente mais CO₂ do que liberta. Florestas intactas, turfeiras e oceanos são considerados sumidouros fundamentais.
Na prática, isto significa que um projeto de reflorestação “bom” reforça os três fatores numa proporção sensata - cria um sumidouro de carbono robusto, melhora a evapotranspiração local e prejudica o albedo o menos possível.
Para o debate público, o estudo obriga a uma correção de rumo. A imagem da árvore como salvadora universal do clima é demasiado simplista. A floresta continua a ser uma aliada importante no combate ao aquecimento, mas apenas quando está no local certo, com as espécies adequadas e integrada numa política que reduza de forma consistente as emissões fósseis. Quem enfeita promessas climáticas com grandes números de plantação sem analisar seriamente o local está mais preocupado com a imagem do que com a proteção do clima.
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