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Nova esperança contra o cancro do cólon: como as águas residuais podem alertar sobre tumores.

Cientista com bata branca recolhe amostra de água de esgoto para análise junto a computador portátil na rua.

O que até agora parecia saído de ficção científica está a tornar-se realidade: investigadores nos EUA estão a testar se tumores perigosos no intestino podem ser detetados através de amostras correntes de águas residuais. A lógica por trás desta ideia é esta: antes mesmo de os doentes notarem sintomas ou irem fazer rastreios, os municípios poderiam já receber um sinal de alerta vindo da rede de esgotos - e esse aviso poderia ser direcionado para bairros específicos.

As águas residuais revelam mais sobre a nossa saúde do que muita gente gostaria

As estações de tratamento de águas residuais já fornecem dados valiosos há vários anos: durante a pandemia de coronavírus, as autoridades recorreram à análise das águas residuais para detetar precocemente vagas de infeção. Em algumas cidades, os mesmos tipos de amostras também são usados para estimar o consumo de drogas. Agora, entra em foco outra doença muito comum: o cancro do intestino.

O cancro do intestino está entre os cancros mais frequentes e mais mortais nos países industrializados. Nos EUA, são comunicados mais de 150.000 novos casos por ano na área do cólon e do reto. Ali, está entre os tipos de cancro mais comuns e é uma das principais causas de morte por cancro. Preocupações semelhantes existem na Alemanha, na Áustria e na Suíça.

Particularmente alarmante: a doença está também a afetar cada vez mais pessoas com menos de 50 anos. Ao mesmo tempo, muitas das pessoas elegíveis não aproveitam os programas de rastreio já comprovados, como os testes às fezes ou a colonoscopia, ou então fazem-nos demasiado tarde. É precisamente aqui que entra a nova abordagem.

Em vez de se esperar pela iniciativa de cada pessoa, a rede de esgotos deverá funcionar como um sistema anónimo de alerta precoce para bairros inteiros.

Detetar o cancro do intestino no bairro: estudo-piloto no Kentucky

Uma equipa de investigação dos EUA realizou, num condado do estado do Kentucky, um primeiro estudo de viabilidade. Lá, os cientistas procuraram nos registos clínicos zonas residenciais com um número especialmente elevado de casos de cancro do intestino. O fator decisivo era saber se, num raio de cerca de 800 metros, se encontravam mais doentes do que o habitual.

No fim, foram escolhidas três áreas com uma taxa de doença claramente elevada e uma área de comparação sem casos conhecidos nas clínicas e nos registos oncológicos locais. Depois disso, os investigadores recolheram, num dia de julho de 2023, amostras de águas residuais das quatro redes de esgotos locais. Fizeram-no três vezes por dia, retirando 175 mililitros de cada vez.

Nessas amostras, procuraram material genético humano, mais precisamente pequenos fragmentos de RNA. Dois marcadores estiveram no centro da análise:

  • CDH1: um marcador de RNA associado a tumores no trato digestivo
  • GAPDH: um marcador presente em quase todas as células e usado como referência

Com um método particularmente sensível, a PCR digital em gotículas, os investigadores determinaram a relação entre CDH1 e GAPDH. Essa relação deveria indicar até que ponto material potencialmente alterado por doença estava representado nas águas residuais.

Sinais evidentes nas regiões com muitos casos de cancro do intestino

Em todas as doze amostras recolhidas nas quatro áreas foi detetado RNA humano - o que não surpreende, porque as fezes contêm sempre restos celulares. O mais interessante surgiu quando se observou a relação entre os dois marcadores. Na área com a taxa mais elevada de cancro do intestino, o valor médio CDH1/GAPDH foi de cerca de 20. Nas duas outras zonas de alto risco, os valores situaram-se em cerca de 2,2 e 4, enquanto a área de comparação ficou em cerca de 2,6.

Isto significa que, no bairro com o maior número de casos conhecidos, os investigadores encontraram muito mais marcadores associados ao cancro nas águas residuais. Nessa zona, o número de doentes tratados num centro especializado também era mais do dobro do observado nos restantes grupos.

Um único dia de medições já sugeriu que as amostras de águas residuais podem permitir tirar conclusões sobre a carga de cancro de um bairro.

Como é que material tumoral chega à rede de esgotos?

Os tumores intestinais desenvolvem-se na mucosa do cólon ou do reto. Estão constantemente a libertar células e restos celulares, que são eliminados com as fezes. Aí encontram-se fragmentos alterados de DNA e RNA. É precisamente este princípio que já é utilizado nos testes modernos às fezes, que podem ser feitos em casa. Estes procuram vestígios de sangue ou alterações genéticas típicas.

O estudo norte-americano transfere esta lógica do indivíduo para toda uma rede de esgotos. Em vez de analisar um teste individual, examina-se o material “misturado” de um bairro inteiro. Se, numa determinada zona, a proporção de marcadores tumorais subir claramente acima de um valor de referência habitual, isso seria um indício: provavelmente vivem ali mais pessoas com cancro do intestino não detetado ou com tumores já avançados.

Um cenário possível para as autoridades de saúde seria o seguinte:

  • recolha regular de amostras de águas residuais em troços de esgotos definidos
  • análise dos valores CDH1/GAPDH ao longo de semanas e meses
  • identificação de bairros com valores claramente elevados ou em subida
  • ofertas direcionadas: convites para testes às fezes, autocarros móveis de rastreio, campanhas de informação no bairro

Grande potencial, mas muitas questões em aberto

Os próprios investigadores envolvidos falam apenas de uma “prova de conceito”, ou seja, de uma primeira demonstração de funcionamento. O estudo abrangeu apenas quatro redes de esgotos num único condado e apenas um dia de recolha de amostras. Para afirmações estatísticas sólidas, isso é manifestamente insuficiente.

Entre outras coisas, continua por esclarecer:

  • Quão estáveis são os marcadores de RNA nas águas residuais ao longo de períodos mais longos?
  • Até que ponto os valores variam consoante a hora do dia, o tempo ou a precipitação?
  • Com que precisão é possível concluir, a partir da relação CDH1/GAPDH, qual é o número real de tumores?
  • Quantos casos de cancro ficam por detetar num bairro e distorcem a perceção?

Só séries de medições de longo prazo em várias cidades e países poderão mostrar se das águas residuais pode realmente ser retirado um sinal de alerta precoce fiável. Também é plausível que outros marcadores venham a revelar-se adequados, por exemplo para outros tipos de cancro ou para doenças inflamatórias crónicas do intestino.

Oportunidades e riscos de um sistema de alerta precoce com águas residuais

A ideia parece surpreendentemente simples e pouco dispendiosa: em vez de testar cada cidadão individualmente, um município passa a monitorizar regularmente poucos pontos de descarga de águas residuais. Em especial, bairros socialmente desfavorecidos, onde os programas de rastreio tradicionais muitas vezes têm pouca adesão, poderiam ser abordados de forma direcionada. As autoridades de saúde poderiam planear melhor os recursos e reforçá-los onde a rede de esgotos sinalizasse um problema.

Ao mesmo tempo, o método levanta questões de proteção de dados e de aceitação pública. É verdade que de um troço de esgoto não é possível identificar pessoas concretas. Ainda assim, para algumas pessoas, a simples ideia de que as autoridades de saúde possam tirar conclusões sobre riscos de doença no local onde vivem a partir das suas excreções pode causar desconforto.

Especialistas também discutem se um sistema deste tipo seria justo. Se certos bairros fossem marcados repetidamente como “zona de alto risco”, isso poderia conduzir à estigmatização - por exemplo, na procura de casa ou de emprego. Os municípios teriam de lidar com os dados e com a comunicação de forma muito transparente e deixar claro que o objetivo é a prevenção e a possibilidade de tratamento precoce, e não atribuir culpas.

O que isto significa para o espaço de língua alemã?

A Alemanha, a Áustria e a Suíça já dispõem de programas de rastreio do cancro do intestino bem estabelecidos. A partir de determinada idade, homens e mulheres recebem convites para testes às fezes ou para colonoscopia, sendo os custos amplamente suportados pelas seguradoras de saúde. Ainda assim, as taxas de participação ficam aquém do esperado e, repetidamente, surgem casos em pessoas que nunca fizeram rastreio.

Uma monitorização adicional das águas residuais poderia representar mais um instrumento na caixa de ferramentas da saúde pública. Seriam imagináveis projetos-piloto em grandes cidades onde já existe capacidade laboratorial para análises de águas residuais remanescente da era da Covid-19. A infraestrutura já existente poderia ser alargada com novos marcadores de cancro do intestino.

Para as leitoras e os leitores, isto não significa, porém, que a canalização substitua o rastreio pessoal. Um valor elevado de marcadores no bairro diz, antes de mais, apenas algo sobre uma concentração estatística. Se está ou não a crescer um tumor no próprio intestino, isso continua a ser algo que só a prevenção individual pode esclarecer.

Termos explicados de forma breve

  • Cancro do intestino: termo genérico que abrange sobretudo tumores no cólon e no reto. A deteção precoce melhora de forma clara as hipóteses de cura.
  • Marcador de RNA: pequenos fragmentos de material genético provenientes das células. Certos padrões podem indicar tumores.
  • PCR digital em gotículas: método laboratorial muito sensível, no qual as amostras são divididas em muitas gotículas pequenas para conseguir detetar melhor sinais raros.
  • Colonoscopia: exame do intestino com uma câmara. Permite remover diretamente pólipos suspeitos antes de se transformarem em cancro.

Um exemplo prático mostra quão forte um sistema destes poderia ser, no melhor dos cenários: se, durante várias semanas, o valor dos marcadores tumorais subir num bairro, a seguradora de saúde envia mais convites para testes às fezes, envolve ativamente os consultórios médicos da zona e organiza sessões de informação. Mesmo que só uma parte das pessoas reaja, alguns tumores poderiam ser detetados mais cedo e as operações ou a quimioterapia tornar-se menos pesadas.

Ao mesmo tempo, os investigadores poderiam alargar o sistema. No futuro, seriam concebíveis análises combinadas nas quais, nas mesmas amostras de águas residuais, se acompanhassem sinais de vírus, resistências a antibióticos e marcadores de cancro. Assim seria possível traçar um retrato abrangente da situação de saúde de uma cidade - com todas as oportunidades e todos os riscos que um olhar deste tipo para a rede de esgotos traz consigo.

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