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Escavadoras encontram nau antiga-descoberta revoluciona o comércio medieval.

Trabalhador de obra com capacete e colete a medir estrutura de madeira no solo de uma escavação com escavadora ao fundo.

Em Wijk bij Duurstede, uma tranquila cidade junto a um braço do Reno, a sudeste de Utrecht, uma escavadora de uma obra banal acaba por deixar à vista algo que pode transformar-se numa sensação arqueológica: uma enorme peça de madeira da costado de um navio medieval. O que à primeira vista parece apenas uma intervenção discreta na rede de saneamento converte-se, em poucas horas, numa descoberta capaz de obrigar a repensar o comércio e a navegação na Alta Idade Média.

Da obra de saneamento à arqueologia: como começou a descoberta em Wijk bij Duurstede

O cenário deste achado é uma rua com o nome muito apropriado de “Promenade”, em Wijk bij Duurstede. A autarquia está ali a substituir as antigas condutas de esgoto e a construir uma bacia de retenção de águas pluviais. Obras de terraplenagem, tubagens, escavadoras - tudo dentro da rotina.

Depois, um arqueólogo amador da região reparou em algo que lhe chamou a atenção: da parede da escavação sobressaía um bloco de madeira maciço e cuidadosamente trabalhado. Não era uma raiz, nem madeira moderna de construção, mas sim uma peça bem talhada, com entalhes e uma curvatura evidente.

O homem deu o alarme, a câmara municipal reagiu rapidamente, e especialistas do Museu Dorestad e de uma fundação dedicada à história naval deslocaram-se ao local. Procederam então à exposição e à remoção da peça com todo o cuidado.

Mais do que uma viga: a “caverna” de um navio

A peça tem dimensões impressionantes: cerca de 3,20 metros de comprimento e aproximadamente 30 centímetros de espessura. Na superfície veem-se marcas de trabalho, entalhes, encaixes para ligações e uma curvatura bem definida. Em construção naval, uma peça assim é chamada de caverna - uma espécie de costela que dá forma ao casco.

“De um pedaço de madeira que parecia simples sobressai, de repente, uma possível secção de um grande navio medieval.”

Um experiente construtor de navios históricos, depois de ver as imagens e a madeira, confirma que o modo de fabrico, a forma e o acabamento apontam fortemente para um elemento do casco de uma embarcação. Ainda não há qualquer certeza quanto à origem ou à datação, mas a peça deixou de ser uma mera curiosidade enterrada na terra.

Dorestad: o grande entreposto esquecido da Alta Idade Média

Percebe-se porque é que esta descoberta não é qualquer coisa, mas sim algo tão sensível, quando se olha para a história do lugar. Wijk bij Duurstede situa-se na área da metrópole comercial alto-medieval de Dorestad. Entre os séculos VII e IX, o local foi considerado um dos principais pontos de redistribuição do norte da Europa.

Ali cruzavam-se vários mundos:

  • o Reno, com a sua rede fluvial ramificada, a penetrar profundamente no Reino Franco
  • as rotas de água em direção ao Mar do Norte e às Ilhas Britânicas
  • os caminhos terrestres que ligavam o interior ao porto

Em Dorestad circulavam cerâmica, tecidos, lingotes de metal, contas de vidro e bens de luxo. Quem controlava este nó não dominava apenas mercadorias, mas também impostos e possibilidades de influência política.

“Uma única peça de madeira de navio torna-se, num lugar destes, a chave para perceber melhor as rotas comerciais, os tipos de embarcação e as relações de poder.”

Nas escavações anteriores tinham aparecido restos de edifícios, mercadorias e infraestruturas portuárias - mas até agora faltava uma parte bem preservada de um navio de maiores dimensões. É precisamente essa lacuna que a caverna agora encontrada poderá ajudar a preencher.

Navio viking ou cargueiro da época da Hansa?

A pergunta impõe-se de imediato: trata-se de um navio ligado aos escandinavos, talvez até de uma embarcação associada aos conhecidos ataques a Dorestad?

As fontes históricas referem que guerreiros do norte atacaram repetidamente a costa neerlandesa no século IX e chegaram a ocupar Dorestad em determinados períodos. A cronologia encaixa, de forma geral, no uso inicial do porto. Ainda assim, os achados da escavação apontam também para outra direção.

Duas hipóteses principais para uma só peça de madeira

Neste momento, os arqueólogos consideram sobretudo duas datações plausíveis:

  • Altomedieval-carolíngia (cerca de 700–900):
    Seria o período em que Dorestad funcionava como ponto de ligação entre o Reino Franco e os grupos escandinavos. Fragmentos de cerâmica da zona do achado e a localização na antiga área portuária favorecem esta hipótese.

  • Coca do alto-medievo (cerca de 1200–1300):
    Uma coca é um cargueiro típico da fase posterior da Hansa. Se a madeira pertencer a este período, isso ligá-la-ia a uma segunda vaga de intenso comércio marítimo no norte, muito depois dos primeiros contactos com a Escandinávia.

Cabe agora ao laboratório e aos dados de medição decidir qual das versões se confirma. No local, ninguém quer precipitar-se e falar em “sensação viking”, apesar de a ideia ser tentadora.

Trabalho de precisão no laboratório: como se determina a idade do navio

A peça parece robusta, mas é extremamente delicada. Séculos no solo húmido conservaram a madeira. Se secar demasiado depressa, pode rachar ou deformar-se. Por isso, todo o processo segue um protocolo rigoroso: secagem lenta, temperaturas estáveis e humidade do ar controlada.

O método mais importante tem um nome complicado: dendrocronologia. Trata-se da análise dos anéis de crescimento da madeira. Cada anel corresponde a um ano de crescimento, e a largura e o padrão variam em função do clima e das condições ambientais.

“Com a análise dos anéis de crescimento, muitas vezes é possível indicar, com precisão de uma década, quando a árvore foi abatida.”

Se os anéis da caverna coincidirem com séries já conhecidas de florestas da Escandinávia, da Alemanha Ocidental ou de outras regiões, isso revelará duas coisas ao mesmo tempo:

  • a data aproximada em que a árvore foi cortada
  • a área de origem mais provável da madeira

Assim, seria possível perceber não apenas de que época provém o casco, mas também em que rede de comércio de madeira os construtores navais se abasteciam. Para a investigação das relações económicas medievais, isto é uma verdadeira oportunidade.

O que o fragmento de navio revela sobre comércio e quotidiano

Mesmo sem uma datação final, a caverna já fornece respostas para questões muito concretas sobre a navegação da época. Pela forma, espessura e trabalho da madeira, é possível perceber até que ponto o casco teria sido sujeito a esforço e para que tipo de águas foi concebido.

Alguns exemplos do que os especialistas observam:

  • Curvatura: fundos mais planos e com pouca curvatura indicam, em geral, rios pouco profundos e águas costeiras; formas mais arredondadas sugerem navios mais aptos para navegação em mar aberto.
  • Tipo de madeira: o carvalho aponta normalmente para cargueiros robustos ou embarcações de guerra, enquanto madeiras mais macias são típicas de construções mais leves.
  • Marcas de união: furos, encaixes ou vestígios de ferro revelam se o casco foi pregado, entalhado ou unido com cavilhas de madeira - uma característica de certas tradições de construção naval.

Estes pormenores levam diretamente ao quotidiano de outros tempos: que cargas transportavam estas embarcações? Eram pensadas sobretudo para o comércio de longa distância ou para transportes regionais? Que tipos de navio entravam, afinal, em Dorestad?

Mito viking e realidade: mais comércio, menos pilhagem permanente

A imagem de homens com capacetes com chifres, limitados a saquear e incendiar tudo, continua muito enraizada. Achados como este trazem para primeiro plano uma visão diferente e muito mais complexa. Muitos grupos escandinavos eram comerciantes, transportadores e intermediários entre várias regiões.

Se a peça puder ser datada para a fase inicial de Dorestad, isso poderá mostrar como o comércio e os conflitos armados estavam intimamente ligados na altura. Muitas vezes, os mesmos navios que traziam mercadorias eram mais tarde usados em expedições de saque - ou o contrário. O porto era um ponto de passagem para bens, mas também para ideias, tecnologias e pessoas.

Da vedação da obra ao museu: por que razão o achado também fascina os leigos

O museu local já planeia expor a madeira depois de concluídas as análises. Para os visitantes, isso cria algo que os livros de história raramente conseguem oferecer: um contacto direto e palpável com um tempo distante.

“Quem fica diante desta madeira maciça e curvada não vê uma Idade Média abstrata - vê uma peça real de um navio que outrora transportou pessoas, mercadorias e histórias.”

Objetos deste tipo ajudam a tornar conceitos complexos mais concretos. “Coca”, “caverna”, “dendrocronologia” - no manual escolar, estas palavras passam depressa a soar estranhas. No museu, um único fragmento permite explicar vários aspetos de uma só vez: construção naval, comércio, condições ambientais e tensões políticas.

Termos que o achado torna visíveis

O que é exatamente uma coca?

Uma coca é um cargueiro típico da região do Mar do Norte e do Mar Báltico na Idade Média Central e no final da Idade Média. Caracteriza-se por um casco largo, uma superestrutura alta e, regra geral, apenas um mastro com uma grande vela redonda. Estas embarcações transportavam cargas enormes - de cereais a sal, passando por fardos de tecido - e marcaram o apogeu da Hansa.

Porque é que os achados navais são tão raros

A madeira decompõe-se rapidamente na maioria dos solos. Só em condições muito específicas - permanentemente húmidas e com pouco oxigénio, como lodo portuário ou turfeiras - é que grandes estruturas de madeira podem sobreviver durante séculos ou até milénios. Por isso, encontrar no subsolo de uma cidade atual um fragmento de navio intacto é uma exceção.

Para a investigação, daí resultam várias oportunidades: é possível reconstruir antigos cursos de rios, acompanhar evoluções técnicas e até detetar alterações ambientais refletidas na sequência dos anéis de crescimento da madeira.

Para Wijk bij Duurstede e para o histórico porto de Dorestad, este achado marca o início de uma nova fase de investigação. Quer venha a revelar um navio altomedieval da época de Carlos Magno, quer se confirme como um cargueiro posterior da era das grandes redes comerciais do Báltico, a peça de madeira conta uma história que vai muito além da obra onde apareceu.

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