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O reflexo de querer “fazer tudo” que, segundo psicólogos, pode ir minando a sua carreira

Homem jovem a trabalhar num escritório moderno, a ler um ficheiro com um post-it "doing it all".

É precisamente esse reflexo que, de acordo com psicólogos, pode corroer a sua carreira de forma lenta e quase impercetível.

Em muitas empresas, é visto como um exemplo a seguir quem responde de imediato a cada correio eletrónico, aceita todas as tarefas adicionais e parece saltar de um projeto para outro sem esforço. À primeira vista, esse comportamento transmite empenho, resistência e fome de progressão. No entanto, as análises psicológicas mostram que, por trás deste padrão, se esconde muitas vezes um mecanismo arriscado que, a longo prazo, enfraquece a saúde, o desempenho - e também as hipóteses de subir na carreira.

O reflexo perigoso de estar sempre a “fazer tudo”

Multitarefa como cultura silenciosa do escritório

No dia a dia de trabalho moderno, existe uma expectativa não dita, mas muito clara: quem quer chegar longe tem de estar em todo o lado. Trabalhar em simultâneo em conceitos, responder a mensagens, tratar dos e-mails em paralelo e manter-se presente nas reuniões - é assim que se imagina o profissional ideal.

Os psicólogos descrevem esta vontade de agarrar várias tarefas ao mesmo tempo como uma sobrecompensação socialmente premiada. A lógica por trás disso é simples: se eu ajudar em todo o lado, ninguém me pode acusar de falta de empenho. Por isso, muita gente responde automaticamente “sim” mal surge uma nova tarefa - com medo de parecer preguiçosa, lenta ou pouco motivada.

O que, à primeira vista, parece uma dedicação excecional, muitas vezes não passa de produtividade frenética de fachada - e com um preço elevado.

O problema é que essa disponibilidade permanente raramente leva a desempenho verdadeiramente excelente; traz, isso sim, stress contínuo e resultados superficiais. E isso acaba por ser notado pelos superiores ao longo do tempo.

Porque é que o cérebro entra no jogo - e, ao mesmo tempo, perde

Estudos em neurociência mostram de forma clara que o ser humano não executa várias tarefas complexas ao mesmo tempo. O cérebro apenas alterna, de forma extremamente rápida, de uma atividade para outra. Cada uma dessas microtransições consome energia e concentração.

Com o passar do tempo, esse ir-e-vir constante traduz-se em perdas mensuráveis:

  • a taxa de erros aumenta de forma acentuada
  • os prazos de execução alongam-se, porque as tarefas têm de ser retomadas com mais frequência
  • a capacidade de distinguir o que é importante do que não é importante diminui
  • cresce a irritabilidade em relação a colegas e clientes

O corpo reage com sintomas de stress, como problemas de sono, inquietação interior, falhas de concentração e sobrecarga emocional. Para o exterior, a pessoa deixa então de transmitir segurança e começa a parecer discretamente sobrecarregada.

Como este reflexo sabota a carreira, na prática

Perda de nitidez: quando está em todo o lado, não brilha em lado nenhum

Quem passa o tempo a fazer malabarismo com tarefas trabalha, na maioria das vezes, apenas à superfície. Quase nunca sobra espaço para se aprofundar num tema, pensar de forma estratégica ou testar soluções criativas. E são precisamente essas as qualidades que fazem destacar os colaboradores que acabam por ser promovidos.

Quem faz dez coisas de forma mediana raramente é visto como especialista - por muitas horas extra que acumule.

Os psicólogos falam aqui de uma “diluição da especialização”: a especialização inicial, o conhecimento particular que o torna forte profissionalmente, vai perdendo contorno porque a sua energia é espalhada por demasiadas frentes. Ao nível da chefia, muitas vezes fica apenas esta imagem: “fiável, trabalhador, mas não a pessoa certa para os temas realmente grandes”.

A armadilha da disponibilidade permanente

Há ainda um segundo assassino de carreira: a imagem do “ajudante permanente”. Quem está sempre contactável e aceita qualquer tarefa adicional sem discussão torna-se, depressa, o ponto de recurso natural para tudo o que está a arder, mas tem pouco prestígio.

Isso conduz, a longo prazo, a três efeitos problemáticos:

  • Visibilidade no lugar errado: fica conhecido - mas por apagar fogos operacionais, não por sucessos estratégicos.
  • Pouco espaço para projetos-estrela: a quantidade de pequenos afazeres retira tempo e foco às tarefas que realmente podem mudar a carreira.
  • Perceção distorcida pelos superiores: passa a ser visto como “alguém de apoio fiável”, e não como alguém com responsabilidade de liderança ou de projeto.

É precisamente aqui que reside o efeito paradoxal: da vontade de parecer especialmente empenhado nasce um papel que tende a travar a progressão em vez de a impulsionar.

Sinais de alerta: como perceber que o reflexo já o está a comandar

Padrões habituais da multitarefa no escritório

Muitas pessoas nem se apercebem de até que ponto este reflexo condiciona o seu dia. Alguns sinais típicos são:

  • começa dois projetos grandes quase ao mesmo tempo, em vez de iniciar e estabilizar um deles com cuidado
  • enquanto prepara uma apresentação importante, tem um podcast ou uma transmissão em direto a correr em segundo plano
  • numa chamada com um cliente, escreve ao mesmo tempo noutro documento completamente diferente
  • responde a e-mails de alta prioridade enquanto mantém outra janela do ecrã sob vigilância
  • em reuniões, percorre redes sociais, mensagens ou a intranet
  • enquanto alguém lhe explica algo, já está mentalmente a montar a lista de tarefas da tarde

Quem se revê nestas situações já está, na prática, dentro de uma espiral de multitarefa que enfraquece a concentração e reduz a capacidade de impacto.

Consequências psicológicas frequentemente subestimadas

À primeira vista, este comportamento pode parecer apenas um estilo fraco de gestão do tempo. Mas o efeito psicológico vai mais fundo. A troca constante de atenção sobrecarrega os mecanismos internos de controlo. Torna-se mais difícil estabelecer limites, definir prioridades e até dizer “não” de vez em quando.

Muitos afetados relatam uma sensação de inquietação interior permanente, acompanhada pela impressão de que, apesar do esforço máximo, “nunca ficam com tudo feito”. Isso fragiliza a autoestima e favorece uma dependência de reconhecimento externo - ou seja, precisamente dos elogios que surgem quando alguém volta a ter “agarrado qualquer coisa rapidamente”.

A saída: renunciar estrategicamente em vez de perseguir a perfeição constante

Abandonar competências para reforçar as certas

Os psicólogos recomendam uma mudança de perspetiva radical: nem tudo o que sabe fazer deve ser oferecido de forma permanente no trabalho. Algumas competências ou tarefas de rotina podem ser reduzidas ou entregues de propósito, para abrir espaço ao que realmente sustenta a sua carreira.

Na prática, isso significa:

  • delegar de forma consistente tarefas de apoio que têm pouco a ver com a sua função principal
  • aceitar apenas projetos em que as suas forças fiquem visíveis
  • reservar blocos de tempo em que trabalha exclusivamente numa única tarefa importante
  • comunicar quando já está completamente ocupado, em vez de concordar por reflexo
  • reduzir de forma consciente o “ruído digital”: desligar notificações instantâneas, fechar temporariamente o programa de correio eletrónico, pousar o telemóvel

A carreira raramente nasce da disponibilidade constante, mas sim de um pequeno número de trabalhos de que todos se lembram.

Monotarefa como estratégia de carreira subestimada

A alternativa psicológica à multitarefa frenética chama-se monotarefa: uma tarefa, atenção total, limite temporal claro. Quem trabalha assim comete menos erros, toma melhores decisões e vive mais depressa pequenas vitórias que reforçam a confiança.

Ao mesmo tempo, a imagem exterior muda. Pessoas que, numa conversa, não olham continuamente para o ecrã parecem mais presentes e mais respeitadoras. Colaboradores que, em reuniões, se concentram no conteúdo em vez de nas mensagens fazem perguntas melhores e apresentam contributos mais relevantes. Essa presença é associada, muitas vezes de forma inconsciente, a profissionalismo e maturidade de liderança.

Como virar o interruptor, na prática

Pequenos passos, grande efeito

Ninguém precisa de mudar por completo a forma de trabalhar de um dia para o outro. Bastam algumas regras claras para gerar uma diferença mensurável:

  • três blocos fixos por dia para tratar dos e-mails, em vez de abrir cada mensagem de imediato
  • um “foco principal” diário bem definido: uma tarefa que não pode, de forma alguma, ficar para trás
  • períodos de concentração de 60 a 90 minutos visíveis no calendário e sem reuniões
  • uma formulação padrão para recusar ou adiar tarefas de forma educada, mas firme

Estas medidas parecem pouco espetaculares, mas transformam gradualmente a sua imagem dentro da empresa: deixam de ver um malabarista permanente e passam a ver alguém associado a profundidade, clareza e resultados de qualidade.

Porque é que este “não” acaba por valer como “sim”

Um “sim” automático sabe bem no momento, porque evita conflito e traz reconhecimento imediato. Já o “não” consciente a tarefas extra ou distrações é desconfortável no início, mas fortalece a sua posição.

Com isso, está a comunicar o seguinte: o meu tempo e a minha especialização não são infinitos. Eu decido onde consigo gerar mais valor. É precisamente essa atitude que transforma um executante obediente numa profissional a sério - e, mais tarde, muitas vezes, numa pessoa com funções de liderança.

Quem protege a sua atenção protege não só a saúde, como constrói de forma intencional uma marca profissional: a de alguém que não fala em todo o lado, mas que entrega onde realmente conta.

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