Pagar sem contacto na caixa do supermercado, no autocarro ou no café faz já parte do dia a dia. A partir de quinta-feira, entram em vigor no Reino Unido novas regras que podem alterar ainda mais este comportamento de pagamento. A autoridade de supervisão financeira FCA passa a permitir que os bancos e os prestadores de serviços de pagamento definam, em larga medida, os limites para pagamentos sem contacto com cartão, desde que mantenham sob controlo os seus mecanismos de prevenção de fraude.
O que muda concretamente nas regras dos pagamentos sem contacto
Até agora, o limite oficial para pagamentos sem contacto no Reino Unido era de 100 libras. Esse teto foi sendo revisto em alta várias vezes ao longo dos últimos anos. Com as novas orientações da FCA, essa regulação rígida deixa de existir.
As instituições poderão, a partir de agora, decidir por si próprias qual o valor dos limites individuais e cumulativos para pagamentos sem contacto, inclusive acima das 100 libras.
A condição é que o banco consiga provar que os seus sistemas de deteção e prevenção de fraude são suficientemente robustos para absorver riscos mais elevados. A supervisão pretende, assim, criar incentivos para que as instituições reforcem ainda mais os seus mecanismos de segurança.
Sem revolução imediata, mas com muito potencial para os limites sem contacto
Os grandes bancos britânicos estão, para já, a reagir com prudência. Quase todos deixam claro que o limite de 100 libras se mantém, por enquanto. Muitas instituições sublinham que estão a acompanhar a evolução e que querem avaliar com cuidado eventuais ajustes.
Na prática, isso significa que, no primeiro dia após a mudança das regras, dificilmente alguém notará qualquer diferença na caixa. A médio prazo, porém, o cenário poderá mudar bastante, por exemplo se alguns bancos passarem a usar limites mais altos como vantagem competitiva - ou, pelo contrário, se outros comercializarem limites especialmente baixos como argumento de segurança.
Porque é que a supervisão permite mais liberdade
Com esta reforma, a FCA procura atingir vários objetivos. Por um lado, quer que o setor possa reagir de forma mais flexível à evolução económica. O aumento dos preços faz com que o enquadramento atual de 100 libras seja atingido mais rapidamente em compras semanais maiores ou em refeições em restaurante.
Por outro lado, pretende-se dar espaço mais depressa a novas tecnologias. Carteiras digitais como Apple Pay ou Google Pay já mostram que é possível pagar valores mais elevados sem contacto e em segurança, quando o telemóvel ou o smartwatch identifica o utilizador de forma inequívoca - por exemplo, através de impressão digital ou reconhecimento facial.
- Ajustamento à inflação: Preços mais altos, necessidade de pagamento mais elevada.
- Uso da tecnologia: Autenticação forte através de smartphone e afins.
- Promoção da concorrência: Os bancos podem diferenciar-se com propostas individuais.
- Reforço da segurança: Mais liberdade em troca de uma melhor defesa contra a fraude.
Como é que o pagamento sem contacto já está difundido no Reino Unido
Na ilha, o pagamento sem contacto é há muito a norma. Os dados dos principais operadores mostram um quadro muito claro:
- Mais de 94 % de todos os pagamentos elegíveis por cartão no comércio físico foram feitos sem contacto em 2024.
- O número de transações sem contacto por mês é cerca de dez vezes superior ao registado em 2015.
- Cerca de dois terços de todos os pagamentos com cartão de crédito e três quartos dos pagamentos com cartão de débito são realizados por toque.
- O valor médio por pagamento sem contacto situa-se ligeiramente abaixo de 18 libras.
A tendência é evidente: para muitas pessoas, o cartão com símbolo sem contacto já é o novo padrão - e o dinheiro físico tem um peso cada vez menor no quotidiano.
O que os bancos já oferecem hoje aos clientes
É interessante ver como as instituições usam, de forma diferente, as liberdades que já existem. Muitos bancos britânicos permitem, desde já, que os clientes definam os seus próprios limites ou desativem por completo a funcionalidade sem contacto.
| Banco | Situação atual do limite | É possível fazer definições individuais? |
|---|---|---|
| NatWest | O limite mantém-se em 100 libras | Sim, é possível reduzir o limite ou desativar o sem contacto na aplicação |
| Santander UK | Não está prevista qualquer subida | Sim, limites próprios em passos de 5 libras |
| Lloyds / Halifax / Bank of Scotland | As 100 libras continuam a ser o teto | Sim, limites personalizados até 100 libras através da aplicação |
| Barclays | Manutenção do limite de 100 libras | Sim, limite pessoal até 100 libras |
| HSBC UK / First Direct | 100 libras | Não, não é possível definir limites inferiores |
| Nationwide / Virgin Money | Não está previsto um aumento a curto prazo | Sim, limite inferior a 100 libras através da aplicação |
| TSB | Permanece em 100 libras | Sim, é possível reduzir o limite ou desligar o sem contacto |
| Starling Bank | Está a analisar as novas regras, ainda sem decisão | Sim, escala de 100 libras até 0 libras no cursor da aplicação |
| Monzo | Sem alteração direta dos limites | Sim, é possível ajustar limites ou desativar o sem contacto |
| Revolut | Não está previsto aumentar | Sem limite sem contacto inferior, mas com orçamento mensal para o volume total de transações com cartão |
Para os clientes, isto significa que muitas opções de controlo já existem - basta utilizá-las de forma ativa. Quem não se sentir confortável com 100 libras pode, em muitos bancos, definir hoje valores consideravelmente mais baixos.
Segurança nos pagamentos sem contacto: qual é o risco real?
Mais liberdade nos limites levanta, de imediato, preocupações: o que acontece se o cartão se perder ou for roubado? Aqui entra em ação um mecanismo de proteção importante.
Os direitos de proteção do consumidor já existentes mantêm-se inalterados: em pagamentos não autorizados, os bancos têm, regra geral, de indemnizar os clientes - sobretudo em caso de roubo ou perda do cartão.
Além disso, existem os chamados limites cumulativos em segundo plano. Após um certo número de pagamentos sem contacto ou a partir de determinado valor total, o terminal volta a exigir a introdução do PIN. Estes “limites cumulativos” também poderão ser reajustados pelos bancos no futuro.
Outro ponto a favor é que valores mais elevados já podem ser pagos sobretudo através de carteiras digitais, nas quais o dispositivo identifica ativamente o utilizador. Sem impressão digital, PIN, leitura facial ou prova semelhante, o pagamento não funciona. Os cartões plásticos tradicionais continuam a ser usados sobretudo para montantes mais pequenos.
O que esta mudança poderá significar para Portugal e para a Alemanha
As novas regras britânicas não se aplicam diretamente à zona euro, mas dão uma ideia clara do rumo possível. Também por cá, a pandemia acelerou de forma marcada a ascensão do pagamento sem contacto. Muitos bancos alemães já aumentaram limites e flexibilizaram a obrigação de PIN, ao mesmo tempo que reforçaram os filtros contra fraude.
Se no Reino Unido se vierem a impor limites muito elevados sem aumento dos casos de fraude, os bancos alemães deverão olhar para isso com atenção. As experiências de Londres e Manchester costumam chegar com atraso a Munique, Frankfurt ou Berlim - seja em novas funções de cartão, em limites dinâmicos ou em controlos através da aplicação.
Dicas práticas para quem usa cartão
Quem paga sem contacto com frequência pode usar algumas regras simples para equilibrar comodidade e segurança:
- Verificar a aplicação: Confirmar na aplicação bancária se o limite pessoal pode ser alterado.
- Uso misto: Pagar sem contacto para valores pequenos e, em montantes maiores, introduzir o cartão e usar o PIN.
- Bloquear o cartão: Ter à mão o número de emergência ou a função de bloqueio na aplicação.
- Usar carteiras digitais: Para valores mais elevados, recorrer ao smartphone ou ao smartwatch, já que aqui costumam estar ativos procedimentos de segurança mais fortes.
- Controlar os movimentos: Verificar regularmente os extratos ou as notificações push para detetar cedo movimentos pouco claros.
Termos que convém conhecer
Limite sem contacto: Valor máximo que pode ser pago por transação sem introdução de PIN. No Reino Unido, até agora era de 100 libras; no futuro, será definido livremente pelo banco.
Limite cumulativo: Uma barreira acumulada em segundo plano que faz com que, após vários pagamentos sem contacto seguidos ou depois de um total definido, o PIN volte a ser pedido - mesmo que o montante individual esteja abaixo do limite.
Autenticação forte do cliente: Procedimentos de segurança que combinam, pelo menos, dois fatores, como cartão + impressão digital ou telemóvel + PIN. Esta tecnologia torna os pagamentos digitais de valor elevado muito mais seguros.
No fim, tudo se resume a uma questão central: quanta comodidade os consumidores querem - e quanto controlo desejam manter? As novas regras no Reino Unido deslocam a resposta mais para a liberdade de escolha individual. Quem conhecer e utilizar as definições do cartão e da aplicação pode, já hoje, controlar com grande precisão o quão “sem contacto” quer que seja o seu dia a dia.
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