Comecemos por esclarecer: não foi bem como soa - ou, pelo menos, não foi do modo que podem estar a imaginar. E, ainda assim, foi exactamente isso. Um escritor agarra-se às palavras e encontra-lhes usos; eu aproprio-me aqui da expressão e justifico-a. Fui passageiro num comboio que partiu de Lisboa, atravessou a ponte e, pouco depois, descreveu a curva para leste; duas horas mais tarde, estava em Évora. Portanto, sim: um expresso do oriente. A minha estreia.
Também foi estreia para a Leya, que decidiu apostar na ideia e torná-la real, correndo o risco de lançar um convite a que, em teoria, ninguém teria vontade de responder. Aconteceu precisamente o contrário, logo nos primeiros instantes. Contaram-me que o Comboio Literário esgotou pouco depois de ser anunciado. Ainda bem. Faltava, depois, perceber como funcionaria tudo na prática - a tal orgânica imaginada.
Comboio Literário: autores e leitores na mesma carruagem
Para quem não sabe do que estou a falar, a proposta era simples: pôr autores e leitores no mesmo comboio para um fim-de-semana de convívio, com várias iniciativas em torno do livro. Digo isto com um sorriso grato: foi como voltar às viagens de turma do liceu. Um embaraço inicial, de leve, e despedidas com abraços contentes. Ultrapassado o primeiro impasse - o clássico “quem fala primeiro com quem” - virámos um bando barulhento e divertido.
O que se aprende quando há tempo para conversar
Trouxe de lá bastante coisa aprendida. Sobretudo porque foi uma oportunidade rara de conseguir o que, por exemplo, uma feira do livro não permite. Conversas longas, sem a pressa seca que costuma pairar sobre os simples pedidos de autógrafo. Aprendi porque consegui ouvir o que toca - e onde toca - aquilo que escrevo. Disseram-me por que razão me lêem. As formas variam, mas o nervo da cumplicidade está em sermos pessoas que não se conhecem e, ainda assim, dão por si a reparar nas mesmas coisas.
Comigo, acontece o mesmo quando estou do outro lado, no papel de leitor dos autores que adoro. Lê-los é perceber que afinal não estou sozinho - e tantas vezes achei que estava a enlouquecer ou condenado a uma espécie de desamparo.
Esta viagem, tão fresca, deu-nos mais do que isso. Houve ainda a hipótese adicional de entrar em conversas que não ficavam presas aos livros. Contei e ouvi histórias de família, trocámos experiências de vida, lamentámos a idade que vai avançando, perguntámos se o país do norte e o do sul são mesmo tão diferentes, comentámos polémicas recentes, rimo-nos com as últimas fofocas mundanas, aprendi anedotas novas e também levei algumas para a troca.
Os escritores são feitos de leitores por dentro. Temos de comunicar mais e melhor. Sobretudo, acabar com alguma sacralização que alguns do ofício ainda vão cultivando. Espero pela segunda viagem com alegria
Um aniversário no grupo e a afinação para a próxima viagem
Ficámos comovidos, feitos parvos, quando, no almoço do último dia, soubemos que três dos convivas eram um pai e uma mãe (um abraço para Gaia) que ofereceram a viagem à filha, a doce Inês, pelo aniversário - e que depressa se tornou a protegida do grupo. Vinte anos, minha querida: tens tudo à frente. Numa primeira vez há sempre um ou dois detalhes que ficam à espera de afinação futura, mas confesso que soube melhor do que eu imaginava.
Por dentro, os escritores são feitos de leitores. Precisamos de falar mais e de falar melhor. E, sobretudo, convém acabar com uma certa sacralização que alguns do ofício ainda insistem em alimentar. Fico à espera da segunda viagem, com alegria.
Entretanto, uma leitora deixou-me um pedido no momento da despedida: se eu poderia, na próxima crónica, oferecer um aperitivo do novo romance. Não custa nada. Aqui vai uma fatia curtíssima de “O Meu Primeiro Apocalipse”.
Um aperitivo de “O Meu Primeiro Apocalipse”
“ Ava Carina, dizia eu, dispensa apresentações, expressão que a própria usou uma vida inteira para introduzir no estúdio figuras conhecidas. Ava Carina também recorria muito ao tique português de afirmar com um contrário - Neste programa teremos sempre surpresas e hoje não é excepção, e foi quando alguém da equipa de guionistas lhe disse que o ‘sempre’ tornava dispensável o ‘hoje não é excepção’. Esse alguém que lho disse já não apareceu no dia seguinte, e julgo que quem ousasse o mesmo não seria excepção.
Ava Carina, dizia eu, moldou gerações desde a estreia, novíssima nos vinte e poucos, e por aí fora, enquanto, espalhados pelo país, os jovens se tornavam pais e os pais se tornavam avós, e mais crianças cresciam e tinham também filhos, e bisavós adoravam os programas especiais. ‘As nossas guerreiras e os nossos guerreiros’, ocasiões em que Ava Carina se comovia mais do que nunca, subindo a plateia, de microfone na mão, a falar com velhinhas adoráveis a quem perguntava pela história de vida e a quem pouco depois cortava a palavra por compromissos publicitários - Desculpe lá, tiazinha, mas precisamos também de ganhar a vida, e esta verdade bruta que parecia uma graça ternurenta arrancava gargalhadas e aplausos.
Ava Carina, como ia dizendo, tornou-se maior do que a própria televisão, uma irmã de todas e todos, uma mãe do norte e do sul, e de todas as terras intermédias, porque ela ouvia, lá está, ela era a nossa psicóloga pelo preço módico da subscrição do canal, uma ninharia para o bem que nos fez, para o que nos ensinou, para o que partilhou, anos e anos de uma dádiva em directo. E tudo isto, é curioso, com recursos que os invejosos dirão que eram fáceis ou medíocres, como andar toda a gente meio despida pelo estúdio, mulheres, homens, e tudo o mais que não cabe só numa palavra, os mistos híbridos, ou apenas indecisos. ”
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